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Denise Weinberg vive a mãe de Jesus em monólogo dirigido por Ron Daniels

- Atualizado: 07 Janeiro 2016 | 06h 00

Texto de Colm Tóibín revela a face mais herética da mãe de Jesus Cristo

Dois anos atrás, a atriz Denise Weinberg folheava distraidamente algumas obras em uma livraria quando o título O Testamento de Maria chamou sua atenção. Assinado pelo irlandês Colm Tóibín, o pequeno (88 páginas) volume editado pela Companhia das Letras traz um conteúdo poderoso: sob o ponto de vista da mãe de Jesus Cristo, a narrativa é uma imensa divagação, em que sobram críticas tanto para os apóstolos como até mesmo para o Nazareno. “Tóibín, na verdade, humaniza a figura de Maria, mostrando suas fraquezas terrenas”, conta Denise, que estreia hoje, no Sesc Pinheiros, o monólogo intitulado justamente O Testamento de Maria.

Trata-se de uma versão teatral escrita pelo próprio Tóibín, que depois ele mesmo transformou no texto em prosa descoberto por Denise. “Há ainda uma montagem da Broadway que é incompleta, pois faltavam as páginas finais”, conta o diretor da versão nacional, Ron Daniels. “Essa ausência, apesar de discreta, faz uma diferença.”

É curioso o caminho que acabou unindo Denise com Daniels - depois de descobrir e se empolgar com o livro, a atriz tentou convencer suas colegas a transformá-lo em uma montagem cênica. “Não pensei em fazer, pois, no palco, preciso da troca com outro ator. Tanto que contraceno até com um poste”, diverte-se a atriz. “Sugeri então para duas amigas, Clara Carvalho e Ana Lúcia Torre. Esta se interessou e foi atrás dos direitos autorais, mas desanimou ao descobrir que alguém já detinha.”

Era Ron Daniels, encenador brasileiro que assinou montagens importantes, como Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, em 1960, e Os Pequenos Burgueses (1963, de Gorki), no Oficina. Em Londres, construiu uma bem-sucedida carreira, dirigindo, durante 15 anos, a Royal Shakespeare Company, período em que encenou 39 montagens de peças do bardo, como ator ou diretor, na própria Inglaterra, nos Estados Unidos - onde vive atualmente - e até no Japão. É sua também a direção de Macbeth e Medida Sobre Medida, em cartaz no Sesc Vila Mariana.

Sons. Denise Weinberg fala o texto enquanto Gregory Slivar cuida da trilha sonora em instrumentos musicais criados por ele
Sons. Denise Weinberg fala o texto enquanto Gregory Slivar cuida da trilha sonora em instrumentos musicais criados por ele

Daniels também se apaixonou pelo texto de Tóibín, mas sentia a necessidade de comandar uma grande atriz, pois a peça pede apenas uma cadeira em cena. Até descobrir o interesse de Denise. “Ele me ligou e, mesmo sem nunca ter participado de um monólogo, aceitei na hora”, conta ela, exuberante em cena no controle dos gestos e da voz.

No primeiro monólogo de sua carreira, a atriz Denise Weinberg não está completamente sozinha no palco - ao seu lado, o compositor Gregory Slivar vai executar, em instrumentos criados por ele mesmo, uma trilha sonora especial. “São sons que parecem primitivos e que se completam perfeitamente bem com a situação”, comenta o diretor Ron Daniels.

 

O monólogo O Testamento de Maria não se passa em um tempo específico, ainda que, no texto em prosa, Tóibín defina que a mãe do Cristo esteja vivendo no exílio, em Éfeso, 20 anos depois da crucificação do filho. Acuada por dois apóstolos, que querem seu depoimento para a escrita do que julgam ser o “testamento do Filho de Deus, que vai mudar o destino da humanidade”, ela se revela contrariada. “Para Maria, os apóstolos não passam de desajustados, que convenceram Jesus de que ele era, de fato, o Messias, algo que ela própria duvida”, afirma Denise.

Daniels aproveitou a atemporalidade proposta pela peça para fazer com a Virgem Maria pertencesse a todos os tempos e lugares. “Maria é uma mulher perseguida, pobre, quase uma prisioneira. Seu filho, ao se tornar uma espécie de líder revolucionário, sacrifica a sua vida por uma causa que Maria não entende e cuja morte lhe é insuportável, de tão horrível e absurda”, observa o encenador.

A peça apresenta diversos momentos fortes, que beiram a heresia. Maria, por exemplo, surpreende-se quando assiste a uma das pregações de Jesus para as multidões. “Ele fala em um tom muito convencido”, reclama. Em outro momento, durante as bodas de Canaã, Maria percebe que o fanatismo do filho atinge níveis perigosos, pois já incomoda os governantes romanos, e tenta alertá-lo. E, ao contrário do que pregam as Escrituras, ela não pede que Jesus transforme água em vinho para salvar a festa do fracasso, mas que volte para casa. Mas a Virgem é surpreendida por uma reprimenda do filho, que pede para se afastar.

“Tóibín mexe em um vespeiro, pois apresenta uma mulher que desconfia da condição de ídolo do filho - desconfia, na verdade, da própria crença”, conta Denise.

De fato, apesar de usar uma linguagem elegante, respeitosa, quase arcaica, para contar a história de Maria, o texto de Tóibín provocou protestos de católicos na rua 48, em Nova York, na noite de estreia da montagem estrelada por Fiona Shaw (conhecida pela saga de Harry Potter no cinema), em abril de 2013, no Walter Kerr Theater. Mas isso não impediu a trajetória de sucesso da peça que, transformada em livro, concorreu à premiação literária britânica Man Booker Prize e sua versão em audiolivro foi lançada com narração de Meryl Streep.

O grande trunfo da peça é apresentar uma figura humana chamada Maria, mas com uma estatura moral comparável ao monumento criado pela Igreja após o primeiro concílio de Éfeso, em 431. Nele, a Virgem Maria foi declarada mãe de Deus, e não apenas da natureza humana de Cristo. E, desse embate entre santidade e humanidade, despontam os grandes momentos da montagem.

O ápice acontece quando Maria descreve a trágica morte do filho - da torturante pregação dos pés e das mãos de Jesus na cruz ao verdadeiro carnaval que se arma ao redor, com pessoas bebendo e jogando como se um homem não estivesse prestes a morrer sob tortura, a Virgem entabula um discurso dolorido, inconformada com a situação. “É o desabafo de uma mãe”, fala Denise. “Seu sentimento é forte o suficiente para não ser teatral.”

Na versão criada pelo escritor irlandês, Maria não fica aos pés da cruz como a retratam os pintores ocidentais - para ele, a Virgem fugiu, com medo de ser a próxima vítima, acossada que estava por dois fariseus. Ela também levanta dúvidas sobre a ressurreição, que lhe surge no formato de um sonho. 

Colm Tóibín é muito preciso ao falar de sua obra. “Eu quis dar a Maria sua própria voz, sem reduzir sua estatura”, diz ele, em comentário divulgado pela assessoria de imprensa do espetáculo. “Queria criar uma mulher que viveu no mundo: o seu sofrimento teria que ser verdadeiro, sua memória teria que ser exata e urgente. E ela teria que ter grandeza e, ao mesmo tempo, ser vulnerável. Eu me pus a imaginar como, em uma turbulenta época revolucionária, teria sido a vida de uma mulher que sofrera tanto e que fora tão frágil, antes de se tornar um mito.”

Para a versão nacional, Ron Daniels contou com o auxílio de Marcos Daud para costurar as três versões da história: a peça original irlandesa, o livro com o texto no formato de ficção e a montagem da Broadway. “Buscamos algo que revelasse o segredo da bem construída narrativa de Tóibín, que parte de fatos corriqueiros e conduz o espectador a momentos grandiosos. Ao final, depois de ouvir a narrativa de Maria, temos a impressão de ter acompanhado uma história épica, repleta de personagens.”

O TESTAMENTO DE MARIA

Sesc Pinheiros. Auditório. Rua Paes Leme, 195, tel. 3095-9400. 5ª a sáb., às 20h30. De R$ 7,50 a R$ 25. Até 13/2. 

Árabe em cena

No dia 29 de fevereiro, Ron Daniels estreia, em Washington, Otelo, mas com um ator árabe no papel principal. “Obama já se interessou em assistir”, disse. 

 

TÓIBÍN EXPLICA

"A peça O Testamento de Maria tem três origens. A primeira, na minha infância católica na Irlanda. A segunda origem é visual. Uma das grandes pinturas em Veneza, que se encontra na Basílica de Santa Maria Gloriosa dei Frari, é a da Assunção de Maria, de Ticiano, um quadro cheio de riqueza e de glória. Contudo, não longe dali, na Scuola Grande di San Rocco, há um outro quadro, A Crucificação, de Tintoretto, que mostra o terrível acontecimento em toda a sua confusão. A terceira origem é literária. No teatro grego, a voz, especialmente a voz feminina, é usada para dar força àqueles que não têm força - Antígona, Electra. Quando comecei a imaginar Maria como um ser humano, (...) estava alerta à linguagem das orações à medida que escrevia suas falas (...) e ao fato de vermos Maria como ícone, como mãe, mas nunca como uma mulher que sabe se colocar e que precisa ser ouvida. (...) As palavras de Maria, na minha peça, nascem do silêncio. Eu queria criar a ilusão de que eram palavras que nunca foram ditas e que jamais serão ditas de novo."

 

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