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Rafael Arbex|Estadão

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Chet Baker

Crítica: peça mostra um Chet Baker discreto, que perde o dom para as drogas

Versão da vida do trompetista fala do vício e da virtude sem exageros

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Antonio Gonçalves Filho,
O Estado de S.Paulo

08 Março 2016 | 20h11

Chet Baker (1929-1988) é duplamente homenageado no cinema e no teatro. Um filme sobre o trompetista norte-americano, Born to Be Blue, com Ethan Hawke no papel do músico, estreia dia 25 nos EUA. Em São Paulo, a peça Chet Baker - Apenas um Sopro, fica em cartaz até 7 de abril, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). No filme canadense dirigido pelo inglês Robert Brudeau, a dependência de heroína do trompetista é o ponto de partida para discutir a luta de Baker contra um ambiente que resistia à integração racial, identificando os brancos como exploradores de um gênero (jazz) que não lhes pertencia - uma exceção foi o saxofonista Charlie Parker, que deu força ao trompetista em início de carreira. Já a peça toca no envolvimento de Baker com as drogas e de sua insegurança na volta ao palco, nos anos 1970.

Escrita por Sérgio Roveri, Chet Baker - Apenas um Sopro, dirigida por José Roberto Jardim, não tem o tratamento convencional de uma ‘biopic’. É um retrato fragmentado, cubista, da vida do trompetista, encenado como uma sessão de estúdio, onde quatro músicos (o baixista, o pianista, uma cantora e um jovem baterista) devem participar de uma gravação ao lado de um Baker em declínio (o músico Paulo Miklos).

O trompetista gravou mais de 140 discos (60 só com o seu nome). Naturalmente, nem todos com a mesma qualidade. O desempenho de Chet Baker, que o levou ao patamar de Dizzy Gillespie e Miles Davis já no começo de carreira (tocando, aos 22 anos, ao lado de Charlie Parker), ficou seriamente comprometido após uma briga de rua em San Francisco, em 1968. Nela, junkies (ou traficantes, segundo outra versão) espancaram violentamente o músico, quebrando seus dentes superiores. A peça trata de sua volta a um estúdio para registrar alguns standards, entre eles My Funny Valentine, de Rodgers e Hart, que Paulo Miklos, em sua estreia no teatro, canta no estilo cool de Chet Baker.

Miklos não toca trompete no espetáculo - o que faz sentido, considerando que Baker ficou dois anos afastado do instrumento (de 1970 a 1972) pela perda da embocadura depois da briga, fixando residência na casa da mãe (por falta de dinheiro) e submetendo-se a um programa de substituição com metadona. O trompetista passara por tratamento psiquiátrico na época do Exército, quando foi transferido para o Arizona, mas esse não é o foco da peça, que se concentra na relação de Baker com seus acompanhantes, em especial a cantora (Anna Toledo, em performance memorável, cantando Old Devil Moon).

O que o texto de Roveri destaca é justamente a crueldade desses relacionamentos. O dramaturgo elege como vítima o jovem baterista de formação erudita (Ladislau Kardos, em sua boa estreia no teatro), ridicularizado pelas “feras” que acompanham Baker - que, por sinal, não sabia ler partitura, aprendendo a tocar na banda do colégio. Provocativo, o contrabaixista (Jonathas Joba) cutuca o baterista ao evocar a história do gato que invade o estúdio com um miado irritante - e também ela é uma parábola sobre a descoberta do “gato” que iria desafiar os tigres Dizzy e Miles segundo Charlie Parker, que alertou os dois para a existência de Chet ao voltar para a Costa Leste americana.

A perda de um dom é um tema trágico, mais que a decadência. Miklos, como músico, intui que Baker sofria por saber que trouxera algo novo para o mundo do jazz (o jeito suave de se curvar à melodia, essencial para a bossa nova), mas que não tocava a metade do que Kenny Dorham tocava, como admitia o trompetista. Sua atuação discreta é o contraponto do histriônico pianista criado pelo estreante Piero Damiani, diretor musical do espetáculo, que se vê como uma jam session e com um desenho de luz (Aline Santini) que remete às fotos de Herman Leonard. A direção de José Roberto Jardim dá o tom exato de um drama que exige rigor e ouvido atento. Não busca a cumplicidade emocional do espectador, mas a razão crítica. 

CHET BAKER - APENAS UM SOPRO 

CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651. 2ª, 4ª e 5ª, 20h. R$ 10. Até 7/4.

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