Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

Mundana Companhia garimpa São Paulo em ‘Na Selva das Cidades’

Dirigido por Cibele Forjaz, grupo reconstrói a fábula social de Brecht a partir de incursões em diversos pontos da cidade; veja infográfico

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

28 Outubro 2015 | 06h00

Em maio deste ano, o ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira teve a sentença de condenação anulada pela Justiça Federal pela falência do Banco Santos. “Um dia fomos até o Jockey Club e deixamos um ebó em sua homenagem”, ironiza o ator Aury Porto sobre a entrega da típica oferenda de purificação das religiões afro-brasileiras. “Tudo em nome do dinheiro, da ambição e da ganância.”

A ação foi um das diversas imersões que a Mundana Companhia realizou em diferentes pontos da cidade para confeccionar as cenas que compõem o espetáculo Na Selva das Cidades, de Bertold Brecht (1898-1956). No texto escrito entre 1921 e 1924, a cidade ganha a cara de um ringue de boxe – esporte que ganhou a simpatia do autor na época – e protagoniza onze cenas, onze rounds, entre Shlink, um rico comerciante de madeiras, versus George Garga, um homem que deixou o campo e trabalha como balconista em um sebo. O jogo vira e o pobre homem passa a comandar as posses de Shlink. A montagem ocupa o Instituto Capobianco de hoje, 28, até domingo, 1.º.

O projeto da Mundana teve início no meio do ano passado e já tinha claro o objetivo de construir cenas a partir de um mergulho nas contradições da cidade de São Paulo, explica a diretora Cibele Forjaz, que vem de Um Bonde Chamado Desejo (2002), O Idiota (2001) e do seu recente Galileu, Galilei, de Brecht. “Na Selva traz uma luta do humano com a civilização. O próprio Brecht fez um caminho parecido com o de Garga, ao sair do interior e adentrar uma megalópole. Se para conhecer uma cidade é preciso habitá-la, teríamos que vivenciar esses lugares.”

A dramaturgia de Brecht se desenrola em relação direta com o urbano, começando pelo sebo em que Garga trabalha, passando pelo escritório de Shlink, a casa da família Garga, um hotel chinês, o Lago Michigan, os arredores de uma penitenciária, e a cena final em um acampamento abandonado afastado da cidade.

O ponto de partida foi a estreia no Residenz Theatrer, em Munique, no dia 9 de maio de 1923. Conta-se que, durante a peça, os nazistas vaiavam, gritavam e jogavam bombinhas para atrapalhar a sessão. “É um texto muito lacunar, o próprio autor pede para não tentar saber os motivos. Isso evoca uma incompletude e as grandes obras são sempre incompletas”, explica a diretora.

No Brasil, a Mundana utilizou a tradução do Teatro Oficina, em 1969. “Foi a melhor!”, dispara Porto. Na época, árvores estavam sendo derrubadas para a construção do Elevado Costa e Silva, e a arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992) utilizou troncos e galhos descartados para montar o ringue (mais tarde, eternizado no verso ‘Tuas oficinas de florestas’ da canção Sampa, de Caetano Veloso). “Olha como a cidade mudou!”, aponta a diretora. “Hoje estão querendo derrubar o Minhocão e construir um parque nele.”

Todo esse caminho preliminar armou a companhia para reescrever sua compreensão do espaço urbano e suas relações na cidade. Após indicar locais que pudessem dialogar com a obra, equipes se formaram e cada membro recebeu um Bilhete Único. “As coordenadas foram algo do tipo alto-baixo, Centro-periferia”, ela explica.

Com o terreno inspecionado, coube ao elenco mergulhar na rotina paulista e estar em contato com as pessoas e lugares. A cena do Hotel Chinês coloca a irmã de Garga em um bordel. Na montagem, os bordeis da Augusta foram o laboratório. “Trabalhei como camareira em um prostíbulo. Limpei os quartos e falei com pessoas”, conta Luah Guimarãez, atriz que fundou a companhia em 2007, ao lado de Porto.

As cenas eram conduzidas de maneira aberta, sem tanta preocupação com o texto, explica Cibele. “Havia um roteiro de ações. O que elaboramos foi uma sequência de acontecimentos. E nós chamamos isso de treinamento”, conta. E, em referência à fábula de Brecht, a diretora também utiliza um esporte para exemplificar: “É como um jogo de basquete, você tem a estratégia, as maneiras de jogar e as regras, mas não sabe o que vai acontecer. É natural recorrermos ao que já sabemos, diante de uma situação desconhecida. Mas aqui interessa o que a gente não sabe”. Luah inclui que não se joga sozinho e sempre é preciso pensar em um time. “A orientação era que estivéssemos com o corpo aberto, porosos para aquela realidade. Se um ator arregar, o outro tinha que lembrar!”, completa.

A vivência se estendeu para outras regiões como o Centro Histórico, o Cemitério da Lapa e a favela do Escorpião, no Aricanduva. “Lá fomos mais bem-recebidos do que em qualquer outro lugar”, lembra Luah. A cena se transpõe para a miserável casa de Garga, momentos depois de ele colocar as mãos nos bens de Shlink. “Por outro lado, tivemos dificuldades de dialogar com escolas e instituições públicas, eles sequer queriam saber do que falávamos. A cidade está maluca mesmo!”

Para Porto, a configuração das favelas permite, além de colocá-las distantes do centros, invadir a intimidade dos moradores muito facilmente. “Bastava entrar em um barraco e puxar uma cortina para desnudar os hábitos daquelas famílias, como dormiam e onde se alimentavam.”

Ao fim da última imersão, outro dilema surgiu. O que fazer com tudo isso? Recém-chegados da primeira ocupação no Sesc Rio Preto, o caminho que se apontou veio do estilo do dramaturgo e da natureza da urbe. “Brecht reescreveu essa peça muitas vezes. Ele deixava a obra se transformar”, diz Cibele “Hoje, a cidade cresce desordenadamente. As coisas são destruídas e construídas, e as pessoas não sabem o que fazer. Se não temos nenhuma direção, vamos para a rua!”.

 

Para não deixar a selva domesticar o espetáculo

 Ao se abrir para o espaço urbano, o projeto que ocupa o Instituto Capobianco, no Centro, até domingo, 1°/11, tem como característica realizar as cenas nas proximidades dos teatros. Segundo a diretora Cibele Forjaz, “o objetivo é criar frestas para a cidade”. 

Em uma cena, um microfone será ligado na rua para captar o som do trânsito e transmitir para o palco. “Queremos provocar essa fricção”, conta a diretora. Nessa ocupação, um dos temas escolhidos será a história do Rio Tamanduateí e do Vale do Anhangabaú.

“A região teve importância no embate dos bandeirantes com os índios”, conta Aury Porto. E a ideia será mantida. “Como artistas, tendemos a fechar a obra, porque lidamos com forma, mas a montagem precisa avançar”, diz Cibele. “Quando reabrimos, isso se torna a metáfora da própria cidade.”

NA SELVA DAS CIDADES. Instituto Capobianco. Rua Álvaro de Carvalho, 103, Centro. 4º, 20h; 5ª, 16h; 6ª, 16h; sáb., 20h; dom., 20h. Grátis. Até 1º/11.

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