Janderson Pires/Divulgação
Janderson Pires/Divulgação

‘Chica da Silva – O Musical’, em cartaz no Rio, destaca as batalhas das mulheres negras

Espetáculo dirigido por Gilberto Gawronski e protagonizado pela atriz Vilma Melo está no Centro Cultural Correios do Rio

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

01 Outubro 2016 | 16h00

Duas datas redondas marcam a história da escrava alforriada que viveu durante anos uma relação estável com um rico contratador de diamantes – 40 anos, estreou Xica da Silva, filme de Cacá Diegues que consagrou Zezé Motta no papel. E, há 20, a extinta TV Manchete começou a exibir a novela Xica da Silva, que alçou para o estrelato Taís Araújo. “É uma personagem que dificilmente fica datada ou envelhecida”, comenta Gilberto Gawronski, diretor de Chica da Silva – O Musical, em cartaz no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro.

Trata-se de uma nova versão do romance de João Felício dos Santos, lançado em 1976. Com texto de Renata Mizrahi e pesquisa de Daniel Porto, a peça é protagonizada pela atriz Vilma Melo, no papel principal. O projeto nasceu quando o ator, diretor e produtor Alexandre Lino montou a exposição Cacá Diegues – Cineasta do Brasil, no Rio, em 2013. Foi quando reviu o clássico longa Xica da Silva, momento em que acreditou ser propício de a história chegar aos palcos cariocas. “É uma grande homenagem ao mito e à negritude brasileira”, diz o produtor.

“Daniel Porto fez uma extensa pesquisa histórica e, em seguida, Renata Mizrahi fez um paralelo entre este ícone brasileiro e as batalhas das mulheres negras contemporâneas”, explica Lino. “Apesar dos inúmeros avanços que conquistamos desde o século 18, essas mulheres ainda encontram muita opressão tanto nos ambientes profissionais quanto em suas relações afetivas.”

Para revelar a longevidade dessa opressão, a história é dividida em três planos diferentes, que ocupam tanto o presente como o passado e, principalmente, o da imaginação.

‘Discutir negritude me atraiu’, comenta encenador

“A arte é o lugar de sensibilização, não de denúncia”, acredita o diretor Gilberto Gawronski. “Se não conseguirmos sensibilizar o público e mostrar o quanto é abjeto não gostar dos outros por causa das diferenças, não estamos cumprindo devidamente nosso papel.” Para ele, esse é o grande desafio de Chica da Silva – O Musical.

O espetáculo é ambientado em três planos diferentes. No passado, acompanha os passos de Chica da Silva, escrava alforriada que viveu durante anos uma relação estável com o rico contratador dos diamantes João Fernandes de Oliveira, teve 13 filhos e conquistou uma posição de destaque na conservadora sociedade do século 18. Ao pular para o momento presente, Chica passa a ser representada pela mulher negra determinada, que ocupa espaços importantes na sociedade e vive um momento especialmente importante de conquistas femininas e sonoridade. Mas ela ainda enfrenta uma série de preconceitos nos âmbitos pessoal e profissional. Finalmente, o terceiro plano é o da imaginação e mostra a vida desejada pela personagem, com cenas de uma mulher amada, que jamais sofreu preconceito.

“Aceitei participar do projeto porque percebi a oportunidade de explorar temas como libertação, negritude e cultura brasileira”, conta Gawronski. “É o poder da fragilidade.” Para ele, é estimulante o jogo temporal proposto pelo musical. “No presente, temos Francisca, a dona de uma loja que discute com a cliente que a acusa de ser negra. No passado, acompanhamos a Chica que precisa se impor como escrava alforriada. Finalmente, no plano imaginário, são duas escravas que discutem sobre como seriam suas vidas se tivessem permanecido na África.”

Diante de interpretações marcantes de Zezé Motta no cinema e Taís Araújo na televisão, Vilma Melo buscou uma terceira via, mas igualmente importante. “Por um lado, é muito prazeroso interpretar uma personagem que já está no imaginário dos brasileiros, que é um ícone em termos de atitude feminina; por outro, é um desafio desconstruir este mito e criar esse paralelo com essas questões das mulheres contemporâneas que ainda sofrem muito no dia a dia”, analisa a atriz.

A trilha de 'Chica da Silva - O Musical'

Jorge Ben Jor

Criado para ser o tema do filme, ‘Xica da Silva’ é presença obrigatória na seleção.

Temas originais

O diretor musical Alexandre Elias reúne, no espetáculo, canções originais com muita presença de percussão, evocando a ancestralidade da raça negra.

Orixás

Como a peça se passa também em um terreiro, sons característicos do lugar inspiram a trilha.

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