Lígia Jardim/Divulgação
Lígia Jardim/Divulgação

Chekhov pressente um mundo que agoniza, com crises familiares, em ‘1 Gaivota’

O esforço em adaptar o original com enxertos desde xingamentos pesados a Oswald de Andrade dificulta o rendimento dos intérpretes

Jefferson Del Rios, Especial para O Estado de S. Paulo

26 Maio 2015 | 06h00

A encenação de 1 Gaivota, na livre interpretação do original de Anton Chekhov, pretende trazê-lo para a atualidade com uma amostragem de outras linguagens que o teatro incorpora crescentemente (cinema, projeções). Quer, ao mesmo tempo, ampliar o humor para além do que está no universo de um criador que tinha o seu outro lado. Em certos períodos viveu sem teatro e escreveu que “nada une tão fortemente como o ódio, nem o amor, nem a amizade, nem a admiração”. O espetáculo, na sua carga de vitalidade, às vezes força o ambiente natural checoviano. Risco e inventividade do diretor Nelson Baskerville. Há momentos brilhantes e outros que poderiam ser repensados. 

Anton Chekhov (1860-1904) mal acabara de chegar aos 28 anos ao contrair tuberculose, o que era uma sentença de morte. A trágica ironia é ser ele médico e já ter perdido um irmão vítima do mesmo mal, agravado por tifo. Some-se a isto uma adolescência solitária por complicações familiares e todos os tumultos sociais e políticos de uma Rússia imperial de implacável estratificação social, o que conduziria o país à revolução bolchevique de 1917. Com tantos percalços, pode parecer enigmático que Chekhov, sem abandonar a medicina, tenha construído uma obra genial sem a fúria de Dostoievski. Ao contrário, ela é trespassada por um sorriso. Seus contos, geralmente curtos, e seu teatro trazem cenas engraçadas. Porém, se bem observado, o que há nele é a expressão de uma melancolia infinda. Este riso amargo não é a dor pessoal dos poetas românticos, mas o olhar amplo sobre destinos individuais no plano do coletivo. O escritor pressente que um mundo agoniza, toda uma ordem econômica vai se afundando em atos isolados e crises familiares. 

Em peças, das célebres A Gaivota, Tio Vânia, As Três Irmãs e O Jardim das Cerejeiras a várias outras que produziu, parece ecoar uma frase reveladora de Chekhov: “Nada une tão fortemente como o ódio. Nem o amor, nem a amizade, nem a admiração”. De maneira ora dissimulada, ora ambivalente, mas constante, eis o sentimento que une quase todos aqui numa casa de campo. Da atriz tirânica na sua vaidade, ao filho que se pretende dramaturgo e não consegue convencer nem mesmo a jovem que ama. Esta, por sua vez, nesta girândola de fracassos, quer ser atriz e acaba nas mãos de um pomposo escritor. Todos numa propriedade rural em decadência onde reside o queixoso irmão da atriz, que sente que a vida lhe escorreu pelas mãos, mas não foi capaz de fazer nada para mudar este rumo à velhice entediada. Há mais, mas basta o resumo para se ter uma galeria de vidas e sonhos, mortos como a gaivota abatida gratuitamente, metáfora exata do enredo. No entanto, Chekhov que não era um exaltado ou depressivo como Gorki (que tentou o suicídio) intitulou sua história de comédia em quatro atos. Intrigante, mas faz algum sentido quando sua representação contorna os dramatismos e capta o que a essência sutilíssima do humor que trafega entre a antevisão histórica e a filosofia existencial (e aqui, sim, há um leve traço dostoievskiano). 

Nelson Baskerville dedicou-se a meses de ensaios para escapar à peregrinação reverencial a um clássico com um elenco que se entrega à proposta. O que ocorre, no entanto, é uma espécie de ansiedade criativa, a vontade de quebrar tudo, matar a caixa preta do palco italiano, incorporar a tecnologia audiovisual. Há sobrecarga. O uso da câmera cinematográfica sobre trilhos para tomadas panorâmicas é uma curiosidade apenas quando poderia ser uma citação explícita ao cineasta Serge Eisenstein. As projeções no fundo do palco são rápidas e pouco acrescentam ao mostrar o Vladimir Putin, uma estátua de Stalin ou Lenin, e uma cena fugaz de protestos brasileiros. Resulta melhor o desnudamento da ilusão teatral, pretendida por Brecht, com os intérpretes e cenotécnicos armando as cenas, com objetos, partes do cenário, etc. 

O esforço em adaptar o original com enxertos desde xingamentos pesados a Oswald de Andrade, a procura da novidade, enfim, dificulta o rendimento dos intérpretes. Um grande ator como Renato Borghi sabe ser engraçado, mas aqui escapa o complemento da tristeza íntima do papel, que ele – dentro da dramaturgia russa – sabe fazer desde, bem moço, sua magnífica criação do jovem Piotr de Pequenos Burgueses, de Gorki (1963), no Teatro Oficina. 

A talentosa e experiente Noemi Marinho, numa linha caricata em gritos agudos, que acabam reiterativos e incômodos, deixa de lado o patético que se esperava. A linha interpretativa escolhida para Pascoal da Conceição e Élcio Nogueira (respectivamente, o escritor e o médico comentarista dos fatos) exige menos do muito que eles podem realizar. Os mais jovens – na idade e na profissão – conseguem instantes fugazes de destaque, como Erika Puga defendendo com força um confronto da camponesa com os neuróticos da família. São contradições em um trabalho artístico plasticamente bonito (cenário, figurino, luz, música) que, na sua totalidade, vibra e convence. Arrasta maus momentos, mas prende a atenção. Quem está sob os refletores é Chekhov, com seu olhar compassivo sobre um mundo paralisado e parasitário que sabe estar se suicidando.

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