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Cultura

Celso Frateschi

Cenas de um espetáculo chamado São Paulo

Teatros independentes realizam mostra de trabalhos sobre a cidade

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Leandro Nunes,
O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 1970 | 20h16

Quantos teatros existem na cidade? Qual o tamanho, infraestrutura e programação de cada um? No ano passado, a Cartografia dos Teatros de São Paulo respondeu a essas e outras perguntas com o objetivo de fazer um perfil dos espaços teatrais presentes na capital. O responsável pela ação foi o Movimento de Teatros Independentes de São Paulo, o Motin, que a partir de então pôde visualizar problemas como a quantidade de espaços regulamentados e potenciais como a recente conquista da lei de isenção de IPTU para casas teatrais. “Foi uma medida importante para avançar na regulação desses espaços”, aponta o fundador do Motin Celso Frateschi.

Depois de olhar nesse espelho, o Motin agora quer manter diálogo com o principal integrante de um espetáculo: o público. Com abertura nesta segunda, 15, no Galpão do Folias, o 1º Curto-Circuito dos Teatros Independentes realiza uma circulação de companhias por toda a cidade. “Depois do carnaval, será o projeto abre-alas do Motin”, explica Pedro Granato, um dos idealizadores do movimento.

Ao todo são mais de 20 companhias que irão se apresentar em nove espaços teatrais. “A sensação é de que a cidade ainda não tem dimensão das companhias que existem. Você pode ser vizinho de um grupo e não saber”.

Na prática, a cada noite, cinco grupos fazem cenas de 10 minutos no local estipulado. Nos próximos dias, a mostra circulará entre o Refinaria Teatral, na zona norte, o Sankofa, na zona leste, e o Encena, na zona sul. “Queremos fazer esse intercâmbio de companhias de outras regiões com as do centro. É começar a enxergar o teatro como uma rede”, conta Granato. Somando as cenas curtas e os intervalos entre uma e outra, cada noite terá 70 minutos de programação, tempo médio de um espetáculo comum.

Para trazer certa unidade à mostra, o Motin sugeriu que as cenas tivessem um tema. E nada mais acertado que falar sobre a própria cidade. Granato afirma que, com tantas e diferentes companhias participando, seria interessante observar como cada uma expressa questões relativas a São Paulo. “Será possível enxergar uma certa assinatura de cada grupo. Falar da cidade nessa primeira mostra é de fato um manifesto.” Para Frateschi, o Curto Circuito também firma-se “como uma ação artística de militância política na em defesa de espaços independentes com utilização pública”.

A mostra também servirá para aquecer os motores de ações projetadas para 2016. Uma delas será, enfim, a Escola de Espectadores. Criada pelo crítico e historiador argentino Jorge Dubatti, o projeto funciona como uma ação pedagógica a fim de aproximar o público dos processos de criação de uma peça – em Buenos Aires a escola conta com mais de 400 alunos, e mantém uma lista de espera. “O objetivo é fornecer informações para que o público pense criticamente sobre uma obra”, explica. Frateschi conversou com Dubatti em dezembro do ano passado durante a 2ª Bienal Internacional de Teatro da Universidade de São Paulo. “Muitos blogs sobre teatro surgiram dessa forma na Argentina”, lembra Granato.

A experiência tem sido replicada em países como Uruguai, México, Chile. No Brasil, Porto Alegre já faz uso do modelo desde 2013 e Belo Horizonte fez uma experiência em 2011. “Os teatros independentes têm essa função vocacional”, completa Frateschi. E como se trata de uma escola, a primeira lição é assistir ao espetáculo em questão. Depois, encontros são marcados com artistas e pensadores da área a fim de discutirem a obra, contextualizar a criação da companhia e ensinar fundamentos das artes cênicas. Frateschi crê que o processo de formação de público interfere diretamente na qualidade dos espetáculos. “Um público crítico certamente trará provocações aos artistas. E estes precisam responder com criações potentes.”

Esse reenlace entre teatro e público ainda pode renovar um outro tipo de relação – a bilheteria – que, segundo Frateschi, o teatro deixou de lado. “A bilheteria não é mais batalhada. Sempre houve a ideia de que um espetáculo não se sustenta mais, entretanto, não se faz nada para mudar.”

Ele ressalta que se a bilheteria não basta, apenas fazer o espetáculo também não. “Por muito tempo perdemos a noção se estamos agradando ou não. Precisamos recriar uma relação afetiva com o plateia e pensar neles criativamente.”

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