Eleniza Dezgeniski
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Cartas de Carmen Miranda inspiram o amor visto da vitrine

Com duas cabines e a chance da plateia escolher uma delas, 'Lovlovlov' reflete a vida controversa de artistas da cultura pop

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2017 | 06h00

Na última apresentação da estrela Carmen Miranda no programa de Jimmy Durante, o último giro que ela deu ao dançar com o comediante fez com que a cantora e atriz caísse de joelhos. A cena poderia ser interpretada como apenas uma leve vertigem, mas as mãos levadas ao peito seriam o prenúncio do ataque cardíaco que a mataria naquela noite.

Para a diretora Isabel Teixeira, que está em cartaz com Lovlovlov na Caixa Cultural, Carmen abriu os olhos do mundo para a grande artista brasileira que foi, mesmo à sombra do apetite voraz dos EUA. “A genialidade de Carmen acabou fazendo parte de um negócio que sugou todas as suas energias, como uma boneca que não podia parar.”

No entanto, o espetáculo que chega a São Paulo, depois de passar pelo no Festival de Curitiba e pelo Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, não trata-se de uma biografia da artista. A inspiração vem das cartas de amor presentes na livro Carmen – Uma Biografia, de Ruy Castro, conta o ator Fernando de Proença. “O estilo com que ela escrevia é muito interessante, cheio de palavras no diminutivo e uma forma carinhosa de se expressar, além de sua força de ser atriz e cantora.”

A peça confina Proença e Diego Marchioro em duas cabines isoladas da plateia. O público que chega para assistir deve escolher um dos lados. Quem passeia pelo conjunto é a cantora suíça radicada no Brasil Edith de Camargo. “Ficamos lá o tempo todo”, conta Proença, “como se estivéssemos em vitrines. Acredito que a Carmen tornou-se um ícone construído internacionalmente, cheio de histórias, o que a fez tornar-se rodeadas de mitos. Mesmo assim, sua parte mais humana e delicada está presente nesses relatos feitos a próprio punho.” 

Dentro das vitrines, a dupla conta a mesma história, os mesmos textos, e estão vulneráveis a todo tipo de acontecimento, de líquidos vermelhos que caem até montes de terra. “Não temos controle disso, é como se o ponto de vista da história dominasse a narrativa. Somos parte mas também estamos sujeitos a ela”, explica o ator.

Para Isabel, que está em Paris ensaiando o novo espetáculo de Christiane Jatahy no teatro Comédie-Française, Lovlovlov funda um princípio que lança dúvidas sobre a construção de grandes ícones da cultura pop. “Sabemos que há muitos relatos e histórias, com suas versões que acabam definindo a imagem dessas figuras. O que queremos refletir é se temos distanciamento histórico suficiente para entender além das manipulações”, afirma a diretora que integra a Cia Vértice como atriz do bem sucedido E Se Elas Fosse para Moscou? (2015) ao lado de Julia Bernat e Stella Rabello, também dirigido por Jatahy, que fez temporada nos últimos anos na França, Espanha e Bélgica. Agora no Comédie, Isabel está no elenco da peça que estreia em 2018, inspirada na Odisséia, de Homero.

Em Lovlovlov, a dupla de atores e a cantora passeiam pela trajetória de Carmen. Edith canta Ná Ozzetti - sua versão de Adeus Batucada - mas o foco é tratar do amor e terror. “Carmen viveu em uma época em que sua imagem confirmava a política de boa vizinhança dos EUA com a América Latina, após a Primeira Guerra Mundial. Hoje, essa máscara não é mais necessária.” A diretora já prepara People Vs. People, uma nova peça baseada na experiência cênica de Lovlovlov. “ O trabalho de Carmen foi intenso e talvez ela tenha sido ingênua, morrendo de tanto trabalhar, mas nos deixou uma história fabulosa.”

LOVLOVLOV. Caixa Cultural. Praça da Sé, 111. Tel.: 3321-4400. 5ª,6ª, sáb., dom., 19h15. Grátis. Até 19/11.

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