João Caldas Fº
João Caldas Fº

'Boca de Ouro' é obra de destaque na trajetória do diretor Gabriel Villela

Villela Alcança a dose de comicidade necessária para temperar o drama

Maria Eugênia de Menezes, ESPECIAL PARA O ESTADO

05 Setembro 2017 | 22h58

Quando dirigiu Romeu e Julieta, Gabriel Villela mergulhou em suas reminiscências infantis e de lá tirou uma série de antigas canções que povoavam seu imaginário. Uma delas era A Última Estrofe, de Cândido das Neves. Em contexto diverso, a música reaparece agora na trilha sonora do espetáculo Boca de Ouro, em cartaz no Tucarena. Trata-se de mera coincidência, considerando-se a distância temática entre a tragédia de Shakespeare e a peça de Nelson Rodrigues. Mas existe uma semelhança entre as duas montagens que vale a pena destacar. Tanto em Romeu e Julieta quanto em Boca de Ouro, Villela nos faz ver e ouvir essas tramas através de seu ponto de vista. Transforma de tal maneira a matéria oferecida pelos dramaturgos que é capaz de criar uma obra autônoma, com identidade própria.

 

Em 1992, a guerra entre Montecchios e Capuletos aparecia travestida de circo pelo Grupo Galpão, com narizes vermelhos e pernas de pau. Passados 25 anos, a visita do diretor ao universo rodriguiano guarda igual sabor de descoberta. Com confetes, serpentinas e máscaras cria uma aura de carnaval para contar a história do bicheiro de Madureira. Na verdade, histórias - já que são três as versões para a personalidade de Boca de Ouro (Malvino Salvador) e elas variam conforme os relatos que nos apresenta Guigui (Lavínia Pannunzio), ex-amante do bandido.

Tomada de fúria por ter sido preterida, a mulher inicialmente desenha a imagem de um facínora, capaz de assassinar brutalmente o casal Leleco (Claudio Fontana) e Celeste (Mel Lisboa). Tudo muda quando Guigui descobre que o homem que amava está morto. Boca de Ouro agora é um órfão que não conheceu a mãe, tem o aspecto de um lorde inglês, e dá dinheiro para grã-finas que apoiam causas sociais.

Nelson está a falar das múltiplas possibilidades de personalidade de cada ser humano, mas também de como o olhar do outro sobre nós se altera de acordo com as circunstâncias. O que surpreende, nesse caso, é a coerência que atravessa o protagonista mesmo quando observado sob prismas diferentes. Suas facetas desconhecidas se conectam com as já reveladas. Malvino Salvador compreende o estratagema e perpassa sua interpretação com um sentido de permanência do personagem. 

Boca de Ouro dá nome ao espetáculo. Mas, nessa montagem, não ocupa um espaço de total centralidade. Seu fascínio é amainado, abrindo espaço para que coadjuvantes adquiram igual importância. Sobressaem as interpretações de Chico Carvalho, um delicioso sátiro nos papéis de Caveirinha e Maria Luisa; Leonardo Ventura, capaz de trazer um brilho imprevisto a Agenor, o marido traído; e Lavínia Pannunzio, impecável na sua construção de Dona Guigui: arquétipo da urbanidade carioca, com sua paixão despudorada e esperteza suburbana. 

Há soluções cênicas dignas de nota, resultado da combinação entre engenho, objetos do cotidiano e uma apurada iluminação. O tamborilar de dedos na mesa reproduz à perfeição o som das máquinas de escrever, varas de bambu tomam o lugar de adagas japonesas e taças de vidro cumprem o papel de telefones. No palco em formato de arena, o cenário é mínimo - porém, suficiente para transportar o espectador para as gafieiras dos anos 1950, a redação de um jornal ou uma casa da periferia.

Ainda que se trate de um traço recorrente na trajetória desse criador, a exuberância visual aqui alcança patamar distinto de seus trabalhos mais recentes. Em Boca de Ouro, a beleza de uma cena não se encerra em si; o apuro estético está a serviço do conjunto. Pela mesma vereda segue a trilha sonora. Cantados por Mariana Elisabetsky, que busca um timbre de voz semelhante ao de Dalva de Oliveira, os temas musicais instauraram o ambiente de época. Mas não só. Muitas das composições também funcionam como comentário irônico em relação às ações, acentuando o pacto de cumplicidade com o espectador. 

De olho na miséria existencial, o autor combina o kitsch e o poético. Está a lidar com referências da alta cultura, como Pirandello e Kurosawa (ainda que negasse ter sido influenciado), ao mesmo tempo em que retrata repórteres sensacionalistas e mesas de jogo do bicho. Não se pode seguir, portanto, por um caminho único ao se montar a peça. A versão atual se sai tão bem justamente por conseguir se equilibrar graciosamente entre o elevado e o prosaico.

Com raízes profundas no teatro luso-brasileiro, o melodrama é um eixo significativo na obra de Nelson Rodrigues. Muitas vezes, o escritor foi detratado por isso, recusado pela crítica que se retorcia diante de supostos sinais de superficialidade e sentimentalismo. É por conhecer em profundidade o gênero, que o diretor não derrapa em suas armadilhas, alcança a dose de comicidade necessária para temperar o drama, transcende as emanações psicológicas para encontrar o mítico.

BOCA DE OURO

Tucarena. Rua Monte Alegre, 1.024, Perdizes, tel. 3670-8455. 6ª e sáb., às 21h; dom., às 18h30. R$ 50/ R$ 70. Até 29/10. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.