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Teatro e Dança

Tiago Queiroz/Estadão

'Bem Sertanejo - O Musical' marca a estreia de Michel Teló no palco como ator

Espetáculo terá três apresentações em São Paulo entre os dias 21 e 23 de abril

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Ubiratan Brasil ,
O Estado de S.Paulo

18 Abril 2017 | 04h00

Até o cantor Michel Teló, acostumado ao sucesso (lançou, em 2011, o hit internacional Ai, Se Eu Te Pego), ficou ligeiramente surpreso com a grande repercussão do quadro Bem Sertanejo, que o programa Fantástico, da Globo, exibiu em 2014 e 2015. Na TV, ele contou, a cada domingo, a origem e a evolução desse ritmo marcantemente brasileiro, acompanhado de grandes nomes do gênero como as duplas Zezé Di Camargo e Luciano, Fernando e Sorocaba, e até pioneiros, como Milionário e Zé Rico. O quadro logo inspirou um livro de mesmo nome e, depois de Teló se associar com a Aventura Entretenimento, surge agora Bem Sertanejo - O Musical, que terá três apresentações em São Paulo, entre os dias 21 e 23 de abril, seguindo carreira por Porto Alegre, Curitiba, Rio, Brasília, Belo Horizonte até terminar em Ribeirão Preto (2 a 4 de junho).

“Quando estouramos com a música Fugidinha, percebi a necessidade de fazer um projeto de raiz”, conta Teló ao Estado. “Foi quando surgiu o quadro no Fantástico e as pessoas se identificaram tanto que lançamos o livro. Mas eu queria um musical, só que eu e minha equipe não tínhamos o conhecimento necessário. Daí surgiu o Luiz Calainho (sócio da Aventura e da Musickeria, também produtora do espetáculo), que cuidou da produção.”

A criação foi entregue a um especialista: Gustavo Gasparani, que assumiu a direção além de ser autor do texto e do roteiro musical. Em seu currículo, ele ostenta uma empreitada da mesma envergadura, SamBRA, musical estrelado por Diogo Nogueira em 2015 e que contou a história do samba. Bem Sertanejo segue pela mesma trilha - conta a trajetória e a formação da música caipira e da cultura interiorana do Brasil país de forma poética e não cronológica. O primeiro ato é completamente rural, lírico, entremeado por poemas de Cora Coralina, Manoel de Barros e inspirado no universo de Guimarães Rosa. Flerta, ainda, com o movimento modernista, que ajudou na construção da identidade nacional, por meio dos versos de Mário de Andrade, Manuel Bandeira, da música de Villa-Lobos e da obra de Tarsila do Amaral, que inspira a cenografia da peça.

Já o segundo ato é marcado pela trajetória de artistas caipiras, como Angelino de Oliveira, Raul Torres, João Pacífico, Tonico e Tinoco, Tião Carreiro, entre outros. Aqui, são mostradas as primeiras apresentações pelo interior até chegar à cidade grande. O sertão mítico, isolado do resto do País, torna-se ultrapassado à medida que sofre com os efeitos do progresso e da globalização. “Proponho uma viagem pelos nossos interiores - memórias, infância, descobertas -, resgatando, assim, o sertão que há em cada um de nós e, ao mesmo tempo, um contato direto com nossas raízes culturais”, conta Gasparani. “Um sertão mítico, no qual o erudito se encontra com a alma popular para criar a identidade de um povo. Um encontro livre de preconceitos e longe da palavra ‘progresso’. Onde Tarsila, Mário de Andrade e Villa-Lobos se encontram com Tonico e Tinoco, Mazzaropi, Jararaca e Ratinho e tantos outros.”

Para isso, ele conta, além de Teló, com um elenco apurado e experimentado, formado por atores/músicos: Lilian Menezes, Sergio Dalcin, Alan Rocha, Cristiano Gualda, Daniel Carneiro, Gabriel Manita, Jonas Hammar, Luiz Nicolau, Pedro Lima e Rodrigo Lima, E o Fantástico retoma o quadro em maio. / COLABOROU GRAZY PISACANE

NEGÓCIO MILIONÁRIO

* 315 milhões de reais é a estimativa do valor arrecadado em um ano pelos 10 artistas sertanejos mais rentáveis do Brasil

* 180 shows por ano é a média realizada por esses dez artistas sertanejos no País

* 10 mil pessoas é a média de público que comparece em cada um dos shows dessa dezena de cantores mais rentáveis

* 175 mil reais é o valor médio estimado que cada show dos artistas arrecada

ENTREVISTA - Michel Teló - CANTOR

'No musical, até a respiração é programada'

Como é estrear em musical?

É um grande desafio por causa do roteiro: tenho de respeitar o momento de cada um, cada minúscula marcação, descobrir o timing das cenas. Nos meus shows, há um roteiro, mas tenho liberdade para fazer o que eu quiser, algo como “hoje, quero fazer meia hora de acústico”. Aí, pego o violão e canto. No musical, é tudo programado, até a respiração. 

Como foi a rotina de ensaios?

Eu ensaiava 5 horas por dia. Os outros começavam de manhã e iam até de noite, porque têm muitas marcações. Quando eu chegava, tudo estava mais preparado. Fico quase o tempo todo em cena, cerca de 2h30, mas, em alguns momentos, como quando o casal tem uma briguinha, o elenco canta uma musiquinha de casal e aproveito para sair e trocar de roupa. Mas volto logo.

Obras modernistas inspiram cenografia e figurinos

Pintado em 1933 por Tarsila do Amaral, o quadro Operários representa a quantidade e a variedade racial das pessoas que trabalhavam nas fábricas que começavam a surgir nas capitais brasileiras, especialmente São Paulo. As expressões são sérias, sem nenhum sorriso, forma de a pintora revelar a árdua tarefa assumida pelos trabalhadores.

A obra foi uma das que inspiraram o conceito do cenário e dos figurinos de Bem Sertanejo - O Musical. “Como a peça conta a história do sertanejo a partir de sua raiz, pensei de imediato em Tarsila, que sempre valorizou a cultura do interior do Brasil de uma maneira muito plástica, colorida e moderna”, explica o cenógrafo Gringo Cárdia.

Para criar a estrutura do musical, o pesquisador André Piunti e o diretor e roteirista Gustavo Gasparani pesquisaram em diversos livros, além de inúmeras canções, um trabalho que durou cerca de dois anos. 

“Na peça, há trechos de uma letra de Mário de Andrade, da canção Viola Quebrada, que surgem como versos declamados”, explica Gasparani, que utilizou também uma pequena obra-prima, os versos que Manuel de Oliveira escreveu para Azulão e que foram musicados por Jaime Ovalle. Outra obra inspiradora foi Trenzinho Caipira, composta por Heitor Villa-Lobos e que é parte integrante da peça Bachianas Brasileiras n.º 2.

“Os modernistas tiveram uma ação decisiva para ajudar a elite brasileira a reconhecer as riquezas do nosso povo”, continua Gasparani. “Isso logo inspirou a dramaturgia. Quando o texto foi lido pelo Gringo e por Marcelo (Olinto, o figurinista), eles não tiveram dúvidas em relação às referências. Tanto que, na reunião para mostrar a estética, Gringo logo apresentou a ideia de usar o quadro da Tarsila. Fiquei impressionado.”

Já o figurinista Olinto se baseou, além dos quadros de Tarsila, também nos de Almeida Júnior, pintor paulista cuja obra foi marcada pela aproximação realista ao cotidiano do homem do interior sem o filtro das fórmulas universalistas da pintura acadêmica. O resultado são quadros como Caipiras Negaceando (1888) e Caipira Picando Fumo (1893).

BEM SERTANEJO - O MUSICAL

Tom Brasil. Rua Bragança Paulista, 1.281; 4003-1212. 6ª (21) e sáb. (22), 22h. Dom. (23), 20h. R$ 50 / R$ 160

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