Rafael Arbex / ESTADAO
Rafael Arbex / ESTADAO

'Beijo no Asfalto' atravessa fora da faixa na Praça Roosevelt

Texto de Nelson Rodrigues ganha versão urbana e quer tensionar relação da peça com espaço público

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2017 | 06h00

A Praça Roosevelt, talvez, seja o último lugar de São Paulo para abrigar um escândalo causado por um beijo entre dois rapazes. Se a peça de Nelson Rodrigues não previa as discussões de gênero atuais, O Beijo no Asfalto mantém-se em alta velocidade para abordar os bastidores da polícia, da mídia e da moral seletiva de “gente de bem.”

Em cartaz a partir deste sábado, 12, a peça ganha versão urbana com o núcleo do Teatro Pequeno Ato que intervém nas escadarias da praça, logo ao lado do posto da Guarda Municipal Metropolitana, em frente à Rua Augusta.

Mas antes mesmo que fosse possível realizar ensaios no local, o diretor Pedro Granato lembra levou quatro meses para conseguir a autorização de estrear no local. “Já havia uma proibição de realizar eventos e atrações na praça”, conta o diretor. “Com o tempo, alteramos o projeto inicial porque, entre outros requisitos, a peça não poderia ter cenários nem equipamentos fixos. Mas que querem mesmo é fechar a praça.”

O diretor se refere a uma proposta da associação de moradores local que circula desde o ano passado com um projeto para cercar a área pública da Praça Roosevelt e determinar horários de abertura e fechamento. Entre as reclamações dos moradores de prédios da região, desde a reforma da praça em 2014, estão o barulho dos bares na madrugada e dos skatistas. “É nessa onda que queremos levar o teatro para a rua contra esse sentimento de ódio que quer impedir as pessoas de usufruírem do espaço público”, diz Granato.

Para tais conflitos de convivência, Nelson tem muito a dizer. Na peça de 1960 com a saudosa montagem do Teatro dos Sete, com Fernanda Montenegro e dirigida por Gianni Ratto, um homem é atropelado e implora, como um último pedido, que seja beijado. Por sorte, ou azar, é Arandir, homem casado com Selminha, quem se despede do moribundo.

A próxima hora e meia de peça, desvela a sagacidade do repórter Amado Ribeiro com o delegado Cunha - nome estranho de ouvir nos tempos de hoje - para acuar Arandir e sua família. “Apesar do beijo entre dois homens não se tratar de um escândalo para a maioria de nós, ainda mais aqui na praça, existe um movimento intolerante e reacionário de uma cultura de linchamento, principalmente nas redes sociais”, afirma Granato. 

E o histórico da praça revela esse movimento. Se antes da reforma, o local era palco de tráfico e de assaltos, após a revitalização, as pessoas que se achegaram, inclusive para morar nos prédios da região, passaram a reclamar dos frutos da revitalização. “Para nós, artistas, a praça sempre foi um espaço garantido, mas estamos vendo que não é bem assim”, diz o diretor. 

Nessa ocupação teatral, o grande objetivo é que a peça converse com os passantes, coisa vista nos ensaios antes da estreia. “Todo dia acontece uma coisa nova. As pessoas interagem cada uma ao seu modo”, conta Granato. E para além do escândalo midiático que destrói a reputação de Arandir, a família tradicional brasileira, sempre no alvo do dramaturgo, ajuda a coroar a tragédia carioca no trânsito barulhento de São Paulo.

Nela, a jovem Dália morre de amores pelo cunhado, mas sofre com a indiferença do pai. Este, da classe de gente de bem, sustenta um sentimento por Selminha que vai além da relação pai-filha. “São figuras que perderam a honestidade, que acusam os atos públicos alheios mas guardam em segredo suas próprias obsessões.”

BEIJO NO ASFALTO. Praça Roosevelt. Sáb., dom., 16h. Acesso Rua Augusta. Estreia hoje, 12. Até 3/9. Grátis.

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