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Ator George Takei revive a trágica história de sua família na 2ª Guerra

Espetáculo 'Allegiance' estreou em Nova York no último domingo

Tonica Chagas, ESPECIAL PARA O ESTADO

11 Novembro 2015 | 04h00

NOVA YORK - Logo depois do ataque japonês à base militar de Pearl Harbor, os Estados Unidos entraram na 2.ª Guerra Mundial e mandaram cerca de 120 mil imigrantes japoneses e seus descendentes americanos para campos de internamento em áreas remotas do país, onde ficaram confinados por quatro anos, até o final do conflito. Entre eles estava toda a família do ator George Takei, que tinha então 5 anos e agora revive no palco as lembranças de infância numa obra de ficção baseada na sua experiência. Allegiance, que estreou domingo, dia 8, no Longacre Theater, em Nova York, é o primeiro espetáculo teatral tratando aquele fato histórico no formato de musical e o primeiro a ter criadores e a maioria dos atores de origem asiática. Marca também a estreia de Takei, de 78 anos, na Broadway.

“Justamente agora, quando ouvimos um pré-candidato à presidência difamando todos os imigrantes que vêm da fronteira sul como criminosos e estupradores, acho muito relevante contar num palco da Broadway este capítulo da nossa história que a maioria não conhece”, disse Takei depois do penúltimo ensaio aberto do espetáculo, na semana passada. Sem citar o nome do republicano Donald Trump, que apregoa a intenção de, se for eleito, construir um muro na fronteira sul dos EUA para impedir a entrada ilegal de mexicanos no país, o ator e ativista político de longa data enfatizou um dos seus principais objetivos com a montagem de Allegiance: “Temos que aprender com a nossa história para fazer da nossa democracia uma democracia melhor”. 

Com a história de um fazendeiro, seu casal de filhos e seu pai, o musical focaliza a experiência dos jovens nipo-americanos, muitos deles nascidos nos EUA, que representaram cerca de dois terços das pessoas levadas para os campos de internamento. Conhecido pelo papel do tenente Hikaru Sulu na série de televisão Jornada nas Estrelas e seis filmes inspirados nela, Takei interpreta o veterano de guerra Sam Kimura no início e no final de Allegiance e faz o avô desse personagem na maior parte do espetáculo. Ao ser informado sobre a morte de Kei Kimura, a irmã com quem rompera relações logo depois da guerra, Sam recebe um envelope que o faz relembrar o que sua família sofreu por ser vista como inimiga dos EUA. 

Em 1942, o jovem Sam (Telly Leung), sua irmã mais velha (Lea Salonga), seu pai (Christopheren Nomura) e seu avô são retirados da fazenda que possuíam na Califórnia e levados para um campo de internamento. Para provar sua lealdade (allegiance, em inglês) ao país, o rapaz alista-se e embarca para a Europa como um dos soldados norte-americanos descendentes de japoneses que formaram a quase totalidade dos 14 mil homens do 442.º Regimento de Combate durante a 2.ª Guerra Mundial. A irmã, no entanto, toma o lado dos que resistiram à convocação militar para defender os direitos de seus ancestrais e contemporâneos.

“Na adolescência, li muitos livros com ideias brilhantes sobre nossa democracia e não conseguia conciliar aquilo inteiramente com o que conheci na infância”, contou Takei. Para ele, quem mais sofreu na sua família foi o pai que, na metade da vida, perdeu sua casa e todos os seus negócios. Depois da guerra, os Takeis foram viver em Skid Row, uma das áreas mais pobres e deterioradas de Los Angeles. “Tive muitas conversas após o jantar com meu pai e, apesar do que passou, ele foi capaz de me explicar que nossa democracia é a democracia do povo - tão boa, mas também tão vil quanto um povo pode ser”, ressaltou o ator. 

No mesmo período em que japoneses e seus descendentes foram mandados para os campos de internamento, houve acusações e processos formais contra ítalo-americanos. “Conosco foi simplesmente porque tínhamos esse rosto”, disse Takei. “Não houve julgamento porque não houve acusação, foi a prisão mais inconstitucional que se viu, baseada em histerismo e racismo.” Earl Warren, então procurador-geral na Califórnia, foi um dos líderes daquela reação racista, alegando que não ocorreriam denúncias de sabotagem, espionagem ou quinta-colunismo de nipo-americanos porque eles eram inescrutáveis e seria melhor prendê-los antes que fizessem alguma coisa. 

Isso, como lembrou Takei, ajudou Warren a ser eleito governador em 1942 e reeleito por duas vezes consecutivas. Depois de assumir a presidência da Suprema Corte dos EUA, em 1953, Warren se tornou conhecido por uma atuação surpreendentemente liberal. “Acho que foi por se sentir culpado do que fez no início de sua carreira política”, refletiu Takei. Em 1988, o presidente Ronald Reagan pediu oficialmente desculpas públicas pelo aprisionamento dos japoneses durante a guerra. O ator lamentou: “Meu pai morreu em 1979 e nunca soube desse pedido”.

Foi com o pai, Takekuma Norman Takei, nascido no Japão, que ele aprendeu a necessidade de engajamento para a concretização de ideais. Desde que foi levado pelo pai para integrar um grupo de estudantes na campanha à presidência do democrata Adlai Ewing Stevenson, em 1952, Takei participou ativamente de todos os grandes movimentos pacifistas e por direitos civis que marcaram a história norte-americana. 

Ele torce para que Allegiance também impulsione a diversidade racial nas produções teatrais americanas. O primeiro sino-americano compositor e letrista de um musical da Broadway é Jay Kuo, que escreveu o texto e coproduziu o espetáculo em parceria com Lorenzo Thione, depois de conhecer Takei e saber da sua história, em 2008. A maioria dos 23 atores que participam do musical tem ascendência asiática e, além de Takei, alguns têm relação muito próxima com o tema do musical. O pai do diretor Stafford Arima foi mantido num campo de internamento no Canadá, onde vivia no período da guerra, e a filipina Lea Salonga, conhecida por sua premiada interpretação na montagem original do musical Miss Saigon, conta que a avó de seu marido teve que fugir da Califórnia para o Colorado para não ser aprisionada. 

“Houve peças interessantes como Flower Drum Song e The King and I, com atores de ascendência asiática contratados, mas escritas por não asiáticos”, lembrou Takei, citando obras de Richard Rodgers e Oscar Hammestein, a dupla mais famosa da época de ouro dos musicais norte-americanos. “Acredito que, a partir de agora, histórias da experiência asiática nos EUA serão contadas pela perspectiva da nossa experiência pessoal.”

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