Heloísa Bortz
Heloísa Bortz

‘Arlecchino’, de Busoni, e ‘Pulcinella’, de Stravinski, ganham nova encenação

Espetáculo traz diálogo entre balé e ópera

João Luiz Sampaio, Especial para o Estado

20 Agosto 2017 | 06h00

A ópera volta esta semana ao Teatro São Pedro, mas não estará sozinha: vem acompanhada do balé, com a estreia de um programa duplo formado por Pulcinella, de Stravinski, e Arlecchino, de Busoni. O espetáculo é o primeiro a subir ao palco do teatro após a mudança de gestão que passou o espaço para o comando da Santa Marcelina Cultura. A direção cênica é de William Pereira, a coreografia, de Giovanni di Palma, e a direção musical e regência, do maestro Ira Levin.

Partiu de Levin a ideia de unir os dois títulos. “Quando conversamos sobre a possibilidade de fazer o Arlecchino, me pareceu interessante ter ao seu lado o balé Pulcinella. As duas peças evocam o universo da Commedia Dell'Arte e há afinidades musicais importantes também”, explica o maestro norte-americano, que já dirigiu o Teatro Municipal de São Paulo, a Sinfônica do Teatro Nacional e hoje ocupa posto na Ópera de Sofia, na Bulgária, além de atuar como regente convidado em todo o mundo. “A partir daí, Paulo Zuben (diretor da Santa Marcelina) sugeriu a parceria com a São Paulo Companhia de Dança na hora de formatar o espetáculo.”

Arlecchino estreou em 1917; Pulcinella, em 1920. Individualmente, ambos os títulos se encaixam na nova proposta esboçada para o São Pedro: ocupar o teatro com títulos que fujam do óbvio, tornando-o referência no diálogo com o repertório contemporâneo. Mas a combinação entre eles também é uma espécie de afirmação, dentro de um contexto no qual a consolidação do São Pedro como um teatro de ópera passa pela conversa com outras artes e pela aposta na múltipla investigação estética. “Eu realmente acredito que a sobrevivência de um teatro passa pelo diálogo com a contemporaneidade. Trabalhá-la à luz de um jogo de conexões e diálogos entre as artes tem a ver com que imaginamos para o teatro”, diz Zuben. 

Na obra de Stravinski, Pulcinella é perseguido por conta de sua fama de conquistador. É dado como morto, mas na verdade cria uma farsa para enganar aqueles que queriam seu fim. Arlecchino, por sua vez, transforma o célebre personagem da Commedia Dell’Arte em um conquistador amoral e inescrupuloso. E coube ao diretor William Pereira dar a ambas as obras uma unidade sobre o palco. “Eu queria recriar o universo da Commedia Dell’Arte, não como um tratado sobre o século 16, mas dando aos personagens e suas funções dramáticas uma roupagem contemporânea”, ele explica. “Dividi essa ideia com o Giovanni di Palma e ele fez um trabalho genial, com frescor, trabalhando na coreografia a técnica clássica, mas com uma irreverência muito grande, criando uma narrativa muito própria. Da mesma forma, há uma conversa entre as obras, com os bailarinos aparecendo na ópera e os cantores entrando em cena também no balé.”

No caso de Arlecchino, Pereira conta ter ficado fascinando com essa “antiópera”. “Arlecchino brinca muito com as convenções do mundo da ópera. E, nesse sentido, me ocorreu resgatar um dos aspectos importantes da Commedia Dell’Arte, que é a improvisação. Mesmo tendo o rigor da música como guia, quis dar aos cantores liberdade para trabalhar o improviso como parte do jogo cênico.” Na ópera de Busoni, o papel-título é feito não por um ator, mas a produção optou por escalar um cantor. “Apesar de não ser um papel cantado, a música pauta o ritmo das situações e, em alguns momentos, é como se tivesse uma fala cantada.” No elenco, estão os barítonos Vinicius Atique, Johnny França e Rodolfo Giugliani, o tenor Giovanni Tristacci, a meio-soprano Denise de Freitas, o baixo Pepes do Valle. No balé, destacam-se Diego de Paula e Thamiris Prata.

O modo como Busoni satiriza o universo da ópera é um dos aspectos mais importantes da obra, de acordo com Levin. “Na verdade, ele ironiza tudo o que você pode imaginar: a humanidade, a guerra, o amor, a ópera italiana, a ópera alemã, a figura do tenor. São passagens hilárias, mas com música séria”, ele explica. Levin, também pianista, conta que teve o primeiro contato com a obra de Busoni (1866-1924) aos 12 anos. “Com o tempo, descobrindo obras como Doktor Faustus, o fascínio só cresceu. Há em seu trabalho uma mistura de ideias espirituais e filosóficas. De certa forma, ele foi um dos primeiros a quebrar a hegemonia do século 19 e seu pathos. E misturava a claridade italiana com o espírito germânico. De um lado, ele rompe com a influência pesada do romantismo ao propor um retorno a Mozart; de outro, cria música realmente avançada. É como se fosse a ponte entre dois mundos.”

 

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