Annelize Tozetto
Annelize Tozetto

Ariano Suassuna é festejado com inéditos e a peça 'Suassuna - O Auto do Reino do Sol'

Figura do escritor inspira a encenação do grupo Barca dos Corações Partidos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2017 | 06h01

A promessa se tornou realidade - em 2009, depois de ter produzido a peça A Farsa da Boa Preguiça, Andrea Alves ouviu elogios do autor do texto, o escritor Ariano Suassuna. Otimista com seu futuro, Ariano pediu à produtora que não se preocupasse com seu aniversário de 85 anos, mas sim com o de 90 para lhe prestar uma bela homenagem. O destino pregou uma peça e o escritor paraibano morreu em 2014, com 86, sem poder se emocionar com o espetáculo produzido por Andrea para festejar as nove décadas de seu nascimento: depois de uma temporada de sucesso no Rio, Suassuna - O Auto do Reino do Sol chega ao Sesc Vila Mariana, na quinta-feira, dia 24.

Trata-se de um texto inédito, assinado por Bráulio Tavares, inspirado no universo artístico de Ariano, ou seja, a valorização da cultura nacional a partir da mescla da arte popular com o universo erudito que marca todas as suas obras. A trama acompanha um grupo de artistas saltimbancos de um circo que vagueia no interior da Paraíba em destino à cidade de Taperoá. No caminho, em meio a retirantes, coronéis e jagunços, eles ganham o reforço de um casal de jovens que nutre um amor proibido: ambos são filhos de famílias rivais e buscam esconderijo em meio aos artistas.

“Desde o início, não era para ser uma biografia do Ariano Suassuna”, conta o diretor Luís Carlos Vasconcelos, que trouxe toda a sua imensa bagagem como palhaço para o processo. No início, ele acreditava que o trabalho de criar uma obra original a partir de personagens e referências dos textos de Ariano seria praticamente impossível. Mas, ao descobrir com mais profundidade o projeto de Bráulio, convenceu-se de que o caminho era o correto. “Quando entrei na história, já estava decidido que não seria um espetáculo Armorial e que teríamos a liberdade de subverter, de trazer o Ariano de outras formas. A criação foi toda impregnada de Ariano, de seus personagens e de seu universo.”

O caminho, aliás, foi sugerido pelo próprio escritor, em conversa com a produtora Andrea Alves. Ariano se confessava um palhaço frustrado, a ponto de eleger esse personagem o seu preferido em Auto da Compadecida. “Na verdade, basta assistir ao vídeo de alguma de suas aulas-espetáculo que estão na internet para constatar que Ariano era engraçadíssimo, um palhaço sem maquiagem”, observa Vasconcelos.

Com um texto tão poderoso, carregado de referências ibéricas e shakespearianas que se ambientam de forma natural no sertão nordestino e sua literatura de cordel, e sob o comando de um especialista na gestão dos diversos elementos teatrais, o espetáculo precisava de uma trilha sonora e, principalmente, de artistas à altura da empreitada. 

Os dois desafios foram plenamente resolvidos com a chegada do músico Chico César e da trupe da companhia Barca dos Corações Partidos. Chico compôs canções originais em parceria com dois membros do grupo, Alfredo Del Penho e Beto Lemos, e o espetáculo contou ainda com composições criadas pelos membros da Barca, como Adrén Alves e Renato Luciano. Isso, aliás, já se tornou um hábito - fiel defensora de um repertório nacional e de um teatro que privilegia o intercâmbio de linguagens, a Barca aprofunda suas pesquisas a cada novo espetáculo.

“Foi uma criação realmente em conjunto”, conta Del Penho. “Há cenas que nasceram a partir de um rascunho do Chico César, que foi tomado pelo Beto e por mim e transformado em teatro pelo Bráulio.” Ele conta que todos beberam na fonte do Movimento Armorial, criado por Ariano e que valoriza as raízes culturais do Nordeste, mas com plena liberdade para criar. “As letras partem das formas tradicionais de poesia popular que foram cultivadas por Ariano, como a sextilha, a décima, o martelo e o galope. Partimos das estruturas que inspiravam o escritor para criar algo inédito.”

A Barca, aliás, é um fenômeno de sucesso. Criada com o elenco escolhido para Gonzagão - A Lenda (2012), de João Falcão, os atores descobriram uma afinidade artística e musical, a ponto de formar o grupo. Com um apoio mantido, da Rede, vieram, em seguida, Ópera do Malandro, Auê e, agora, Suassuna. Juntos, todos totalizando mais de 500 mil espectadores na plateia.

Além de compor e de cantar, os integrantes da Barca revelam o mesmo tipo de graça cultivada por Suassuna que, para explicar o fenômeno do humor, lembrou de Aristóteles, que, na cultura ocidental, foi perfeito ao postular que “o cômico é uma desarmonia de pequenas proporções sem consequências desastrosas”. O escritor ressaltava ainda o aspecto picaresco de suas novelas e romances, em que a “astúcia aparece como a coragem do pobre”. De acordo com ele, “a picardia do homem do povo é bem diferente do trambique dos poderosos, pois se trata de uma questão legítima de sobrevivência”. 

SUASSUNA - O AUTO DO REINO DO SOL

Sesc Vila Mariana. R. Pelotas, 141. Tel.: 5080-3000. 6ª e sáb., 21h. Dom., 18h. R$ 40. Até 1º/10

Romance autorreferente e peças inéditas serão editados

A escrita de Ariano Suassuna continuará provocando prazer ainda por muito tempo. Não apenas pela perenidade de suas obras-primas como Auto da Compadecida e O Romance d’A Pedra do Reino, que acaba de ganhar uma reedição, mas também pelos textos inéditos que estão por vir - é esperado para 9 de outubro o lançamento da última obra escrita pelo autor paraibano, O Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores, sob a chancela da Nova Fronteira, atual editora de seus livros, que deverão ser relançados.

Trata-se da obra sobre a qual Suassuna se debruçou nos últimos anos de vida, reescrevendo constantemente e cuidando também das ilustrações. Inicialmente previsto para quatro volumes, o romance terminou com dois (O Jumento Sedutor e O Palhaço Tetrafônico) e oferece uma reavaliação muito particular da própria obra a partir da narrativa de Dom Pantero, cujo nome verdadeiro é Antero Savreda.

Escritor frustrado, Pantero (ou Savreda) tem a ambição de conquistar a glória literária a partir da obra bem-sucedida de seus irmãos, muito mais conhecidos: o romancista Auro Shapino, o poeta Altinho Soares e o dramaturgo Adriel Soares.

Note-se que todos os nomes dos irmãos começam com as letras A e S, ou seja, despontam como heterônimos mal disfarçados de Ariano Suassuna. Pantero ministra também o que chama de “aulas espetaculosas”, algo semelhante às deliciosas aulas-espetáculo que Ariano concedeu por todo o País enquanto teve forças, alcançando um enorme sucesso. 

Enquanto escrevia, Suassuna acreditava que os leitores podiam não gostar da nova obra. “É por causa da minha escrita, cheia de rudeza, digressões, venho por aqui, vou por ali”, disse ele ao Estado, em 2011. “Houve um tempo em que as pessoas reclamavam porque eu não escrevia como Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa. Tenho minha personalidade, sou incapaz da concisão. Preciso de horizontes mais amplos.”

Isso também justificava sua predileção pelo teatro, gênero do qual Ariano deixou várias peças inéditas em seus arquivos e que também serão lançadas futuramente pela Nova Fronteira. São, ao menos, cinco textos dramatúrgicos, dos quais o mais antigo data de 1950. Trata-se de O Auto de João de Cruz, que adapta tanto o clássico Fausto, de Goethe, como o cordel A História do Estudante Que Vendeu a Alma ao Diabo.

A peça promove uma ligação com o Auto da Padecida, especialmente na cena em que João, ainda vivíssimo, vai ao local onde são julgados os mortos. O texto recebeu apenas uma montagem, amadora, em 1958, no Recife.

O material - que vem sendo organizado pelo filho do escritor, o artista plástico Manuel Dantas Suassuna, pelo pesquisador e grande amigo de Ariano, Carlos Newton Jr., e pelo designer Ricardo Gouveia de Melo - traz ainda outras peças, como O Arco Desolado, 1952, inspirada em A Vida É Um Sonho, de Calderón de la Barca e que, fato raro, não se passa no sertão.

O acervo inclui também obras recentes como As Conchambranças de Quaderna, de 1987, e A História de Amor de Romeu e Julieta, de 1996. “Desde muito jovem, não gosto de peças intimistas e psicológicas - sempre preferi algo mais próximo das artes do espetáculo, pois dou preferência à face mais circense do teatro”, disse Ariano ao Estado, em 2011.

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