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Após 43 anos, Estúdio Ruth Rachou deixa de existir

Legado da coreógrafa é mantido nas aulas dadas por seu filho, Raul

Helena Katz - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2015 | 04h00

O Estúdio Ruth Rachou deixará de existir nesta terça-feira, dia 22 de dezembro. Foram 43 anos demarcando a história da educação em dança neste país. De 1972, quando Ruth Rachou fundou a primeira escola, até hoje, em vários endereços e iniciativas pioneiras, se dedicou ao estabelecimento e difusão do pensamento moderno e modernista da dança entre nós. Mas como os ventos que vêm soprando não mais vão na direção do entendimento de corpo que lá se pratica, o Estúdio Ruth Rachou vai mudar de rumo. A trajetória como espaço de ensino deixará de existir e o legado de Ruth, que tem 88 anos e continua fazendo aulas de dança, seguirá com seu filho, Raul Rachou, professor e bailarino que dirigiu a escola por 35 anos.

“Agora, o percurso se dará de outra maneira, mas é importante perceber que ele segue. São novos ajustes para novos horizontes. É necessário reconhecer que todo projeto tem começo, meio e fim, mas quando deixa frutos, não é o fim, porque vai seguir por intermédio de outras pessoas”, diz Raul, anunciando que, a partir de janeiro, dará aulas em outros espaços.

Para Ruth Rachou, trata-se de “um caminho de continuidade, porque os tempos são outros e é preciso uma correção de rota’. “O que implantei, continua. Entendo o que está acontecendo, mas é triste, não estava nos meus planos.”

O que está acontecendo fica mais claro em comunicado distribuído nas redes sociais, com o título A Tradição em Transformação, no qual Raul explica que “a barriga tanquinho, com a sua beleza obstinadamente dura e inflexível, impera como paradigma de nossos tempos embrutecidos. Mas o corpo se move. Ele pensa e dança. E, se quiser ser bonito, o seu movimento deve ser desamarrado, criativo e, principalmente, sem dor. Temos que reaprender o prazer de se movimentar”. Depois de apresentar a sua compreensão de corpo e de dança, o texto diz: “Mas, hoje, não somos mais em número suficiente para praticar esses entendimentos em um estabelecimento como o Estúdio Ruth Rachou.”

Foram mais de quatro décadas e diversas “correções de rota” para que esta proposta se estabelecesse. Desde o começo, os ideais modernos de um corpo ligado a seu momento histórico. Ruth relembra: “Eu me sinto uma introdutora da dança moderna porque me dediquei a solidificar esse pensamento, a enraizá-lo, para que contaminasse e abrisse novos horizontes em um tempo em que aqui florescia apenas o balé de Maria Olenewa”.

O estúdio trouxe a São Paulo vários professores e intérpretes norte-americanos, sobretudo aqueles vinculados às técnicas e danças de artistas como Isadora Duncan, Ruth St. Denis, Martha Graham, Doris Humphrey e José Limon. Na década de 1990, empreendeu uma parceria com Gilda Murray e Olga Borelli, chamada de A Técnica Conta a Dança, da qual se pode destacar os projetos realizados com Lori Belilove (herdeira dos ensinamentos de Isadora Duncan) e com Karoun Tootikian, que dançou de 1945 a 1965 na companhia de Ruth St. Dennis e aqui montou reconstruções de suas obras. 

Nos anos 1986-1987, introduziu cursos como o Corpo Inteiro, com um curriculum diferenciado, que reunia, por exemplo, Anatomia do Movimento (José Antonio Lima), Cabeça de Músico (Hélio Ziskind), e Danças Brasileiras (Toninho Nóbrega). Nessa mesma época, realizou o Adote um Bailarino, que proporcionava bolsas de estudo para que os interessados pudessem cursar o Corpo Inteiro. Antes, de 1979 a 1986, havia acolhido Klauss Vianna, com a escola de Renée Gumiel, na mudança do mestre para São Paulo. 

Além de ter sido o espaço de residência para Vera Sala, Helena Bastos/Musicanoar e da própria Ruth, o estúdio promoveu também quatro mostras não competitivas denominadas Inventores da Dança, de 1985 a 1988. Pioneiramente, em 1992, passou a oferecer cursos regulares de Pilates na cidade.

São diversas as marcas que o Estúdio Ruth Rachou foi imprimindo no modelo de escola de dança que se pratica por aqui, cada uma delas sendo um novo salto de qualidade. Mas agora, a transformação implica não mais manter o espaço físico porque não há mais alunos em número suficiente. 

Esse dado convoca uma reflexão sobre a preocupante posição que o ensino da dança ocupa hoje. Por que a proposta de um corpo que não é tratado visando apenas a uma forma padronizada para a sua anatomia (uma barriga tanquinho, por exemplo) interessa a tão poucos, agora? Por que o corpo atento a suas características locomotoras, interessado em experimentar como o movimento é criado se tornou tão raro?

O legado de Ruth Rachou segue nas aulas de Raul, agora em vários endereços, que podem ser localizados em raulrachou@uol.com.br.

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