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Análise: Dario Fo, o adeus ao grande bufão

Seu teatro e sua literatura são o retrato de um homem livre: um libertário, um libertino, o maior bufão que este século chegou a conhecer

Maria Eugênia de Menezes, Especial para o Estado

13 Outubro 2016 | 14h32

A sátira social, a ironia mais cortante, o riso como forma de subversão. Vencedor do Nobel de Literatura em 1997 e o maior nome do teatro recente de seu país, o italiano Dario Fo valia-se da gargalhada como meio e como método para chegar ao que lhe interessava: a verdade. Morto nesta quinta-feira, 13, em Milão, onde estava internado, o escritor de 90 anos encontrou na alegoria sua forma de expressar as contradições que tanto o incomodavam: os absurdos da política, o ridículo da religião, a face patética e prepotente de líderes recentes como Sílvio Berlusconi, que ele transformou em tema da ópera cômica O Anômalo Bicéfalo. “Eu sou um palhaço que ganhou o Nobel”, comprazia-se em dizer.  

Pouco ou quase nada escapava à sua escrita ferina. E o ateu Dario Fo deu incontáveis provas de sua fé no poder da sátira. Escreveu cerca de cem obras teatrais, além de inúmeros livros. Em muitos deles, contou com a colaboração da atriz Franca Rame, sua mulher e parceira de cena, morta em 2013. Casados desde 1954, dividiam a militância pelo teatro e pela política e, juntos, escreveram a autobiografia “Uma vida ao improviso”. “Essa mulher tem pelo menos 400 anos de vida no teatro, talvez 500”, comentava Fo sobre a filha do importante ator Dommenico Rame e herdeira da tradição da commedia dell’arte.

Entre os maiores sucessos da dupla, dois títulos que puderam ser vistos recentemente em São Paulo: Morte Acidental de um Anarquista e Mistero Buffo. Atualmente em cartaz na cidade, a Morte Acidental traz Dan Stulbach como protagonista. Em interpretação de raro refinamento, o ator vive um louco, inconformado por não poder ser vários homens ao mesmo tempo e preso sob acusação de falsidade. A montagem recente de Mistero Buffo também contava com a verve de grandes palhaços. Um dos marcos da temporada paulistana de 2012, trazia Domingos Montagner e Fernando Sampaio sob direção de Neyde Veneziano. Dividindo-se entre mais de 20 personagens, inspirados em histórias bíblicas, os integrantes do La Mínima encenavam aquela que o Vaticano já considerou a “mais blasfema das criações”. A lém de merecer incontáveis versões, esse texto de 1969 tornou-se um programa de televisão na Itália em 1977, gerando grande polêmica.

Distante do estereótipo do intelectual sisudo, o escritor não se restringia aos gabinetes e construiu sua reputação, sobretudo, como humorista. Misturou dialetos italianos e palavras em desuso para criar uma linguagem extremamente popular – em títulos traduzidos para mais de 30 países. Antes de suas histórias fantásticas ganharem o papel, ele improvisava, abusava da mímica, desenhava, pintava quadros. Era um homem de seu tempo, mas com os dois pés fincados no Renascimento. Seguindo o caminho dos mestres do século 16, baseava sua arte na observação do mundo e no domínio de diversas linguagens. Formou-se inicialmente como pintor, na Academia de Belas de Milão. Em seguida, enveredou pela arquitetura e estudou no Instituto Politécnico. Mas a guerra mudou o curso de sua vida e o levou para a liter atura.

Filhos de pais socialistas, Dario Fo combateu os fascistas. Sempre se posicionou à esquerda. Mas nunca aderiu ao Partido Comunista, cioso de sua liberdade de pensamento (e também entusiasmado pela ideia de poder fazer troça dos altos comandantes). Pela defesa aguerrida de suas ideias, enfrentou dezenas de processos judiciais e diversas prisões – muitas delas ocorridas em cena. Via-se como um defensor dos oprimidos, era contra os poderosos de todos os tipos. Seu teatro e sua literatura são o retrato de um homem livre: um libertário, um libertino, o maior bufão que este século chegou a conhecer. 

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