Gustavo Scatena
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Análise: Compositor Lloyd Webber capitaneou 'invasão inglesa' à Broadway

O requinte de suas composições não flerta com o pop fácil e com elas o músico faz enorme sucesso principalmente com 'O Fantasma da Ópera' e 'Cats'

Claudio Botelho, Especial para O Estado de S. Paulo

25 Março 2018 | 06h00

 

Falar de Sir Andrew Lloyd Webber é falar de uma revolução que aconteceu no Teatro Musical que se faz no mundo inteiro, especialmente no West End e na Broadway – berço das criações mais significativas deste gênero – ali pelo final dos anos 1970 e início dos 80. O termo “revolução” se aplica neste caso porque é com Lloyd Webber e suas criações que a Broadway passa pelo que se convencionou chamar de “invasão inglesa”, nos anos 1980, com a chegada de musicais londrinos que tomam Nova York com sucesso gigantesco, capitaneados principalmente por O Fantasma da Ópera e Cats, saídos da mente musical inovadora de Webber e de sua parceria com o mais arrojado produtor do mundo atual, Sir Cameron Mackintosh. 

É interessante notar que os primeiros passos de Webber foram com musicais ligados a temas bíblicos. Joseph and The Amazing Technicolor Dreamcoat (que conta a vida de José do Egito) nasceu como uma cantata religiosa (era para ser apresentada em igrejas e catedrais) de 20 minutos, mas chegou à cena como teatro musical em 1968 e tomou a forma de um musical de mais de duas horas de duração e um imediato sucesso de proporções bíblicas, sem trocadilho. O que certamente levou à investida em um tema de fundo religioso novamente. Jesus Cristo Superstar é criado como um “concept álbum”, uma versão em disco com elenco completo, coro e orquestrações, como se fosse a gravação de um espetáculo, mas de fato era um mesmo um produto fonográfico, cujo sucesso impulsionou a versão de palco anos depois.

O mesmo acontece com Evita, novamente um projeto lançado como disco (neste caso, um LP duplo), cuja canção Don’t Cry For Me Argentina se torna imediatamente um sucesso radiofônico de expressão mundial, o que impulsiona fortemente a chegada do musical aos palcos.

É interessante notar que todos os títulos citados até agora são de musicais conhecidos como “wall to wall musical”, ou seja, musicais onde não há texto falado, tudo é cantado ou entoado, algo que se assemelha ao que ficou conhecido como “ópera rock”, mas que de rock tem apenas alguns teclados que emulam o rock progressivo à la Emerson Lake & Palmer, e guitarras destorcidas na orquestração, além de vozes rascantes e traqueotômicas, supostamente similares a grupos com o Yes e o Pink Floyd

Mas ópera tem, e muito: a impostação vocal de alguns papéis tem exigências de preparo técnico típico do bel canto, há notas muito altas que não são viáveis para o chamado canto “pop” ou a voz branca (não empostada), e o formato de muitas das canções acaba sendo uma espécie de “ária/balada”, coisa que Sir Andrew de certa forma inventou em seus musicais. Exemplos são a citada Argentina..., I Don’t Know How To Love Him, Memories, The Music of The Night, Think of Me, entre tantos outros hits.

CLAUDIO BOTELHO É ATOR, TRADUTOR E PRODUTOR DE TEATRO MUSICAL

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