Teatro brasileiro ainda é seduzido por textos em inglês

Com exceção de Nelson Rodrigues e Plínio Marcos, o que se vê nos palcos são criações de autores contemporâneos

Jefferson Del Rios - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

08 Junho 2014 | 19h13

 Flávio Rangel, um homem de esquerda duas vezes preso pela ditadura, fez de A Capital Federal, de Artur Azevedo, um dos mais divertidos espetáculos do ano em São Paulo. E esse ano foi 1972 quando a situação política estava ruim para os brasileiros. O elenco numeroso com Suely Franco à frente trazia novatos em ascensão como Ricardo Blat e Carlos Alberto Ricelli. Os cenários foram criados por Gianni Ratto. 

A equipe encarregada da música contava com Théo de Barros, o parceiro de Geraldo Vandré em Disparada. Apresentado no Teatro Anchieta, o espetáculo foi um dos maiores sucessos da temporada. A mesma peça, com direção de Ruy Nogueira, havia inaugurado, em 1966, o Teatro da Universidade Mackenzie (Tema). Igualmente vibrante e colorido, lançou a atriz Cláudia Mello. 

Mais à frente e durante três anos (1973 a 1975), em sucessivas temporadas, o público do Rio de Janeiro e de São Paulo encantou-se com a anárquica e hilariante versão de Antonio Pedro para As Desgraças de Uma Criança, de Martins Pena, em interpretações magistrais de Marco Nanini e Camila Amado. As duas obras tratam do cotidiano brasileiro no século 19, com críticas sutis ao conservadorismo da época. Não envelheceram e não são os únicos, é só puxar pela memória. Esperam por artistas menos deslumbrados com Nova York ou Londres. Ao esquecimento dessa dramaturgia inicial seguiu-se o limbo da brilhante geração dos anos 1970, que, em meio a tempos sombrios, iluminou a cena brasileira. 

Aos poucos foram sendo deixados de lado José Vicente de Paula de O Assalto, Os Convalescentes e Hoje É Dia de Rock. Na mesma sombra como dramaturgos estão Antonio Bivar (Cordélia Brasil), Timochenco Wehbi (A Vinda do Messias), Eloy Araújo (Seu Tipo Inesquecível), Flavio Marcio (Réveillon), Mário Prata (Fábrica de Chocolate). Leilah Assunção e Consuelo de Castro, episodicamente, retornam com a mesma força. 

A surpresa recente foi a iniciativa do ator e diretor André Garolli em resgatar As Moças, de Isabel Câmara, que em 1969 teve direção de Maurice Vaneau, com Célia Helena e Selma Caronezzi. Isabel retirou-se cedo do teatro e ao morrer, em 2006, deixou textos inacabados. Todos eles (é uma lista incompleta) retrataram o desencanto de quem olha um país em crise.

A desmemória em relação à essa dramaturgia tem explicações, algumas justificáveis, outras discutíveis. A partir dos anos 1990 surgiram novos autores preocupados com a atual alienação e violência decorrentes da entropia social e a deformação urbana das metrópoles. 

Por outro lado surgiu o fenômeno das novas teatralidades (uso de outros espaços e linguagens como o vídeo) com o seu chamado “processo colaborativo”, que inclui a criação do texto pelo próprio grupo teatral. 

Nem todos resistem como literatura dramática, além daquele momento. Por fim, a submissão ao que é inicialmente falado em inglês. Parte do teatro brasileiro não vê Lisboa, por exemplo. Ignora autores portugueses como Miguel Rovisco Pais e Jacinto Lucas Pires. Contradições da vanguarda.

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