Peça 'Trágica.3' traz interpretações e direção inovadora

Elenco conta com Denise Del Vecchio e Letícia Sabatella 

Jefferson Del Rios , O Estado de S. Paulo

26 Junho 2014 | 19h00

Trágica.3, um dos mais belos espetáculos do semestre, estará em cartaz apenas mais duas semanas. Baseia-se em três tragédias gregas: Electra, Antígona e Medeia, reescritas por autores contemporâneos. Os enredos foram concentrados nos instantes de maior veemência e desespero verbal. Poderia ser algo exasperado, mas a montagem é minimalista nos gestos, concepção cenográfica e na sutileza musical. O programa traz na capa um felino de grande porte com dentes de sabre. Faz sentido diante das interpretações de Denise Del Vecchio, Letícia Sabatella, Miwa Yanagizawa, Fernando Alves Pinto e Marcello H. 

Os originais de Eurípides e Sófocles foram condensados e retrabalhados por Heiner Müller, dramaturgo alemão consagrado (1929-1995), e novos autores brasileiros, como Caio de Andrade e Francisco Carlos, e os três estão no mesmo nível sob a inovadora direção de Guilherme Leme. O enxugamento de obras já naturalmente concisas impõe mais relevo ao instante em que os personagens dão o passo além que pode lhes custar a vida, mas do qual não abdicam por fidelidade à voz do sangue ou em retribuição extrema à violência do poder (o Estado e seu líderes). 

A questão individual, aqui, se sobrepõe à dor das massas, mas, mesmo assim, os gregos antigos foram os primeiros a insinuar pela arte os massacres entre povos, alguns deles irmãos, estimulados por interesses de impérios, ambições isoladas ou fanatismo em nome da fé.

Mais de dois milênios se passaram e o pesadelo se mantém no Oriente Médio, assim como ensanguentou os Bálcãs ao lado da Grécia (a ex-Iugoslávia fracionada em genocídios entre croatas, sérvios, bósnios, albaneses) e que continua agora entre xiitas, sunitas e alauitas da Síria, Iraque, além de tudo o que ocorre na África. O horror tribalista nascido da intolerância cultural e religiosa se resume - são cálculos atuais - em 51 milhões de pessoas expulsas de suas casas ou seus países, a metade delas crianças.

O programa da montagem não traz, porém, a síntese dos textos originais. Faz falta porque o público, às vezes, desconhece os detalhes dos clássicos gregos ou shakespearianos. O texto diz apenas que o projeto “apresenta a dramaticidade feminina no seu expoente, representando uma renovação audaciosa na dramaturgia da Grécia Antiga, onde as mulheres assumiam um papel secundário ou inferior”. Renovar o teatro grego? Exceto místicos e algumas exceções, ninguém "assume" situações de inferioridade. Se é submetido a elas. Estas mulheres nada inferiores têm força para merecer o título das peças. Ainda quando vítimas, é visível serem as donas dos acontecimentos. Medeia e Electra vingam-se da traição, mesmo que a preço cruel; Efigênia e o irmão opõem-se aos tiranos. Simultaneamente, estas tragédias delineiam a psique humana, os arquétipos que no futuro seriam a psicologia e psicanálise.

O arroubo de proclamar retoques em pilares da literatura ocidental pode ser eliminado no futuro. Importa mais a criatividade de Leme e as majestosas interpretações de Denise, Leticia, Miwa, Fernando e Marcello H. Autoridade cênica, introspecção e voz poderosa fazem de Denise uma das intérpretes do ano. Letícia é toda a emoção mediterrânea expressa em lágrimas no rosto lavado. Miwa tem força dramática e maestria gestual para um longo solo de braços abertos. Vidente e guerreira em posição de ataque. Com pausas, verbalização profunda e certo mistério pessoal, Fernando estabelece a forte linha masculina neste universo em que os demais homens, os senhores de guerra, são apenas citados. Fernando ecoa a resistência a eles com o apoio convincente de Marcello H em breve intervenção. 

Um concerto de talentos diante do cenário misterioso de Aurora dos Campos, que une pintura abstrata e recurso audiovisual. A alta densidade da representação é sublinhada pela iluminação quente de Tomas Ribas, a maquiagem (especialidade agora rebatizada com o nome fantasmagórico de "visagismo") de Leopoldo Pacheco, os figurinos discretos de Gloria Coelho e a trilha musical ao vivo dos próprios Fernando, Letícia e Marcello H. Trágica.3 é uma das iluminações da temporada.

TRÁGICA.3

CCBB. Teatro. Rua Álvares

Penteado, 112, metro Sé, tel. 3113-3651. Sáb. e 2ª, às 20h; dom., às 19 h. R$ 10. Até 7/7.

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