Peça 'Sit Down Drama' discute os limites do humor

Vida de personagem degringola após piada ser mal interpretada

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

25 Junho 2014 | 18h18

Nesta semana, a dramaturga Michelle Ferreira põe no palco uma questão que a incomoda há pelo menos seis anos. É que foi em 2008 que ela escreveu Sit Down Drama, peça que estreia nesta sexta-feira, no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, sob a direção de Eric Lenate. Sua insatisfação era com a cultura do politicamente correto, que, naquela época, já tinha certa patrulha.

"Existem coisas que precisam ser ditas para que entendamos o nível em que estamos como sociedade", diz. "Senão, é só disfarce, porque o preconceito continua existindo."

Para tratar do tema, Michelle criou o humorista Alves De, que vai ao palco na pele do ator Danilo Grangheia. Famoso no Brasil e recém-chegado de uma temporada na Noruega, ele faz uma esquete polêmica na televisão. A piada - que, em vez de contada, é apenas sugerida na peça - não é bem recebida pelo público e, a partir daí, Alves De entra numa crise sobre o seu trabalho e a função do humor.

Apesar de o caso ter exemplos por aqui (relembre três casos abaixo), Grangheia não pensou em nenhum humorista específico para construir o personagem. "A ideia é expor a crise, mas sem referência a humoristas conhecidos, senão parece que eu estou defendendo alguém e não é o caso", diz, revelando que, de alguma forma, alguns profissionais admirados por ele estão ali, como Chico Anysio (1931-2012) e o nova-iorquino Andy Kaufman (1949-1984). "Ele tinha uma loucura santa, era um figura deslocada. Seu lado humorista é uma extensão do que ele realmente era.”

Outros 11 atores integram o elenco. Entre eles, Caco Ciocler, Chris Couto e Noemi Marinho. Enquanto Ciocler interpreta um amigo de Alves De que faz um contraponto às opiniões do protagonista por não entender sua crise, a personagem de Chris faz uma crítica feroz à mídia. Ela vive uma jornalista que, sabendo o que ocorre na vida do humorista, explora o fato ao máximo para ver subir sua audiência. Já Noemi, faz o papel da mãe de Alves De e dá voz às reclamações da dramaturga, como na cena em que mostra não entender o motivo de ter de dizer "deficiente visual" em vez de "cega". 

A cenografia faz uso constante de um telão que, quando não serve de mero cenário (exibindo imagens de prédios de São Paulo), passa cenas essenciais à peça, gravadas previamente. Nestas horas, a tela vai à frente do palco, quase tomando sua totalidade, dando a sensação de cinema à plateia. "O uso do vídeo é uma maneira de ampliar detalhes da vida real que passam despercebidos", explica o diretor. "Há uma hora, por exemplo, em que simulamos uma TV sendo zapeada, um caleidoscópio esquizofrênico de imagens. Quando o espectador completa o sentido disso, é quase uma mensagem subliminar."

SIT DOWN DRAMA

Sesc Consolação. Teatro

Anchieta. Rua Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. 6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 6/R$ 30. Até 10/8.

Risos polêmicos

Comédia MTV

No dia 22 de março de 2011, o programa - que contava com nomes como Marcelo Adnet, Dani Calabresa e Tatá Werneck no elenco - exibiu o quadro Casa dos Autistas. Na atração, os atores imitavam autistas em um reality show, em uma referência à Casa dos Artistas, do SBT. Após uma petição virtual e um pedido de investigação encaminhado ao Ministério Público, a emissora exibiu um pedido de desculpas.

Danilo Gentili

Quando ainda integrava o CQC, da Band, em 12 de maio de 2011, Gentili escreveu em seu twitter: "Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz". Na época, era cancelada uma estação de metrô que seria construída no bairro conhecido pela alta concentração de judeus. Após reação de usuários do Twitter, Gentili se desculpou.

CQC

Em sua edição de 19 de setembro de 2011, o apresentador Marcelo Tas comentou que a cantora Wanessa Camargo estava bonita grávida. Em seguida, Rafinha Bastos disse que "comeria ela e o bebê". Wanessa o processou e, no último mês de março, ele foi condenado a pagar R$ 150 mil à família da cantora. Na época da polêmica, Bastos chegou a chorar em uma entrevista concedida a Marília Gabriela.

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