Filme de Bergman, 'Através de um Espelho' ganha versão teatral

Peça é protagonizada por Gabriela Duarte e tem direção de Ulysses Cruz

Murilo Bomfim, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2014 | 02h07

"Ingmarbergman.se/en." Este link era todo o conteúdo do e-mail recebido por Gabriela Duarte após contatar a editora responsável pela dramaturga inglesa Jenny Worton. Gabriela tinha assistido, em 2012, à peça Through a Glass Darkly - adaptada do filme homônimo, de Ingmar Bergman - e queria comprar os direitos do texto para montá-lo no Brasil. "É, foi bem seco", lembra a atriz, referindo-se à bem direta indicação para o site de Bergman. A frieza britânica, no entanto, era apenas uma preparação para o mergulho que ela faria no congelante universo sueco. O resultado é a montagem de Através de Um Espelho, que estreia hoje, no Sesc Consolação.

O impacto que o espetáculo visto por Gabriela em Nova York, na programação Off Broadway, causou no público foi uma das motivações para levar adiante a ideia de encená-lo. "Quando a apresentação terminou, senti uma coisa muito diferente. Tinha um silêncio, um sentimento comum", lembra. "Não é necessário ou obrigatório, mas acho que o teatro deve fazer isso. E, ultimamente, não tenho visto muitas peças que causem esse efeito."

O enredo conta a história de Karin (Gabriela), que volta a conviver com a família após passar uma temporada em um hospital psiquiátrico. Ela se junta ao marido Martin (Marcos Suchara), ao irmão Max (Lucas Lentini) e ao pai David (Nelson Baskerville) em viagem de férias a uma ilha. Na ocasião, a instabilidade emocional de Karin cria tensões nas relações de todos. Enquanto Martin se esforça para fazer com que tudo dê certo e garantir a felicidade da mulher, David trata o momento como se tudo fosse muito banal e sem importância. Adolescente, Max reclama a atenção do pai e tem uma peculiar relação com sua irmã.

Através de Um Espelho nasceu em 1961 como filme escrito e dirigido por Bergman. No ano seguinte, o longa venceu o Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro e foi indicado na categoria de melhor roteiro. Ainda em 1962, teve indicação para o Urso de Ouro. A adaptação para teatro, no entanto, só ocorreu em 2011, pelas mãos de Jenny.

Após a aquisição dos direitos, o texto recebeu uma tradução literal de Yara Nagel e, depois, foi retrabalhado por Marcos Daud. "Jenny traduziu o texto escandinavo para a realidade inglesa. Nós trabalhamos no sentido de associar o enredo à realidade brasileira de maneira simples, sem distorcer as ideias originais do texto", explica Daud.

Essa era uma preocupação do diretor Ulysses Cruz, desde o momento em que entrou no projeto. Após ler o texto, ele entendeu que o público só se interessaria pelo espetáculo se os personagens fossem envolventes o suficiente para comunicar seus dramas. "Eu não queria fazer daquela forma bergmaniana, cool e blasé. Queria os personagens se debatendo, lutando", afirma Cruz. As mudanças são sutis e não alteram o enredo: estão no gestual, no modo como os personagens se relacionam, nas expressões de raiva, indignação e de felicidade.

O personagem que mais se aproxima do que seria, na visão da equipe, um escandinavo, é David. Isso porque a frieza é inerente à sua personalidade. Pai de Karin e Max, ele vive ausente, sempre mais dedicado ao trabalho de escritor do que à família. Ao encontrar os filhos, não demonstra muitas emoções e, apesar da insistência de seu genro, não crê que pequenas demonstrações de carinho podem fazer a diferença no tratamento de Karin. "David viaja com os filhos na esperança de, finalmente, ser um bom pai. Durante toda a peça ele quer que as coisas deem certo, mas, filosoficamente, ele não acredita que isso vá acontecer", ressalta Baskerville. Segundo ele, sua participação na montagem marca o fim de uma agonia pela distância do teatro - ele dirigiu Lou e Leo há pouco mais de um ano, o que, para ele, já é tempo demais longe do palco.

Tempos modernos. Após ensaiar por oito semanas em um espaço próximo à praça Benedito Calixto, o elenco teve três dias, com 12 horas cada um, para se adequar ao Teatro Anchieta. "É claro que não vai ficar pronto e que vou ter de consertar depois", lamenta Cruz, explicando que precisaria de mais dias e que o horário permitisse que a equipe varasse a madrugada. "Não dá tempo de trabalhar a luz, de os atores se acostumarem com o espaço. Se for para ser assim, no Sesc eu não faço mais." Para o diretor, o curto tempo de ensaio é um dos problemas do teatro atual, como o encurtamento das temporadas.

SERVIÇO

ATRAVÉS DE UM ESPELHO
Teatro Anchieta.Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. 
6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 6/R$ 30. Até 4/10. 

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