1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Entrevista. Tim Rice

Letrista de 'O Rei Leão' está em SP para torcer pela Inglatera

Tim Rice fala dos musicais que fez com Lloyd Webber

Ubiratan Brasil

19 Junho 2014 | 02h 00

Quando se pensa em grandes parcerias nos musicais contemporâneos, impossível não se lembrar dos britânicos Tim Rice e Andrew Lloyd Webber, autores de hits como Jesus Christo Superstar, Evita e José e Seu Manto Tecnicolor. Sucessos que marcaram o gênero nos anos 1970 e 80. Em seguida, cada um seguiu os próprios passos - enquanto Lloyd Webber adotou um estilo mais espetaculoso (como Fantasma da Ópera), Rice assinou contrato com a Disney para criar musicais marcantes como O Rei Leão, o mais visto na história da Broadway e cuja produção brasileira está prestes a se tornar a mais longínqua em palcos nacionais.

Rice está em São Paulo, mas por outro motivo, também nobre: hoje, ele será visto na Arena Corinthians, torcendo fervorosamente pela Inglaterra contra o Uruguai, pela Copa do Mundo. "Não fomos felizes contra a Itália (que venceu por 2 x 1), por isso, precisamos muito da vitória para não voltar mais cedo", comentou ontem cedo, em entrevista ao Estado, em um hotel dos Jardins. E, como conhecedor de futebol (torce para o Sunderland, da primeira divisão inglesa), completou: "Esse é o Mundial com mais resultados surpreendentes da história, algo fascinante para qualquer torcedor".

Com quase cinco décadas de carreira, Tim Rice acumula muitos sucessos (Evita, Jesus Cristo Superstar, O Rei Leão) e poucos fracassos (o recente A Um Passo da Eternidade). Sobre todos, o letrista inglês de 69 anos falou com desenvoltura na seguinte entrevista, realizada na manhã de ontem antes de sua palestra sobre musicais no Sesi e de uma palestra, à tarde, sobre a organização de grandes eventos esportivos, patrocinada pelo governo britânico.

Sergio Castro/Estadão
Com quase 50 anos de carreira, letrista inglês ainda diz temer o fracasso

Sua carreira é marcada por tantos sucessos. Haveria algum segredo para isso?

Acredito que minha regra é transformar cada letra na mais perfeita possível para o personagem. Algo que o torne crível. Sempre há a preferência por personagens engraçados - o público adora -, assim, o desafio é criar o drama de forma a cativar cada espectador. Para dar um exemplo concreto, é tornar convincente uma cena em que uma mulher frágil fala, por meio de canções, do alto de um balcão, para dez mil descamisados, como em Evita. É muito importante para o letrista saber se colocar na posição do personagem. Há um outro detalhe: se souber dizer em dez sílabas o que talvez fosse dito em dez palavras, você provavelmente escreveu um bom trabalho. Esse é o desafio.

Um musical é resultado inicialmente de um trabalho conjunto entre o autor das letras e o das canções. O que vem primeiro: as palavras ou a melodia?

Falando em musicais, o primeiro que vem é a história - é preciso o que vai ser narrado. Em Evita, eu escrevi a história e a entreguei para Andrew Lloyd Webber, que criou a melodia. Nesse estágio, é ele quem percebe qual cena deverá ter uma canção romântica, qual será mais argumentativa e qual será o grande número daquele ato. Daí, é minha função adaptar a letra para aquela melodia. Assim, a sequência é história, melodia e letras.

Nesse caso, é possível dizer que Evita é o mais bem-sucedido trabalho assinado por você e Lloyd Webber, no sentido de compartilhamento entre melodia e letra?

É difícil dizer. Acredito que sim. Pode parecer arrogante, mas é nosso trabalho mais maduro. Foi nossa terceira grande parceria e acho que ali já sabíamos o que estávamos fazendo. José e Seu Manto Tecnicolor, que foi o primeiro, era dedicado às crianças e alcançou um grande sucesso, por ser diferente do que até então era produzido. Jesus Cristo Superstar nasceu de uma grande ideia e tem uma belíssima melodia. Pensando melhor agora, eu diria que a letra das canções de José são melhores que a melodia, enquanto em Superstar aconteceu o contrário. Já em Evita, há uma equiparação. Daí, talvez, ser esse nosso melhor trabalho.

'Jesus Cristo' nasceu de grande ideia e tem uma melodia belíssima
Como descreveria seu trabalho com Lloyd Webber?

Bem, faz muito tempo que trabalhamos juntos, e hoje só nos vemos socialmente. Na época, praticamente morávamos sob o mesmo teto, que tanto podia ser a minha casa como a dele. Nós desvendávamos juntos a história que queríamos contar. Quando começamos a trabalhar em Evita, por exemplo, não tínhamos ideia da importância daquela mulher - estávamos em 1974 e, na Inglaterra, ninguém a conhecia. Assim, viajei para a Argentina e, na volta, passei três dias maravilhosos no Rio (foi minha primeira visita ao Brasil). Ao retornar, escrevi um argumento e o apresentei a Andrew. Ali, já pensamos em como seria a cena do balcão e ele começou a pensar na música assim (estala os dedos). Comecei a escrever as letras das canções, que eram passadas para ele. Andrew me devolvia com as melodias sugeridas para que eu fizesse as adaptações. Foi um trabalho conjunto muito bem-sucedido.

E há algum motivo para vocês não terem mantido a parceria?

Acredito que nossos gostos musicais tomaram rumos diferentes a partir de então. Andrew decidiu criar a melodia de Cats, cujas letras eram poemas de T. S. Eliot, ou seja, não tinha trabalho para mim. Da minha parte, comecei a trabalhar em Chess, cujas músicas foram criadas pelos ex-integrantes do grupo ABBA, Benny Andersson e Björn Ulvaeus. Quando começou a trabalhar no Fantasma da Ópera, Andrew me pediu para criar a letra de algumas canções. Recusei, pois ou escreveria todas as letras ou nenhuma. Para ser sincero, considero Fantasma um trabalho brilhante, mas do qual não me sinto muito próximo. Suas canções têm um estilo grandioso que se aproxima muito de Puccini ou Pavarotti. Assim, aos poucos, cada um buscou um caminho. Eu assinei contrato com a Disney que me colocou em contato com outro grande parceiro, Elton John. Desde então, não surgiu nenhuma grande ideia que nos unisse novamente. São as circunstâncias.

Então, as chances são remotas de vocês retomarem a parceria?

Acho difícil, mas não se sabe. A julgar pelos planos de cada um agora, eu diria que não. Veja, no momento estou ocupado com um projeto que me tomou os últimos anos, a adaptação para o musical de A Um Passo para a Eternidade, filme de sucesso dos anos 1950. O espetáculo estreou em Londres e não foi bem de crítica e público - ficou apenas seis meses em cartaz. Assim, agora trabalho em modificações para levá-lo aos Estados Unidos, onde, acredito, terá mais sucesso - afinal, trata-se de uma história puramente americana (a ação se passa em 1941, na base militar de Pearl Harbor, que, depois de atacada pelos japoneses, forçou a entrada dos EUA na 2.ª guerra). Bem, é o que espero.

É difícil falar sobre fracasso?

Bem, não é agradável (risos). Mas houve muitas decisões erradas na temporada londrina. A primeira foi não ter feito uma pré-temporada por outras cidades até chegar à capital - eu teria tempo para ajustar os problemas que fossem surgindo. Estreamos diretamente em Londres, onde a trama é mais conhecida por espectadores com mais de 60 anos, que se lembram do filme. Também a orquestração apresentou problemas que poderiam ter sido solucionados em uma pré-temporada. Enfim, ajustes que faço agora, esperando por uma temporada americana. Se não der certo, é sinal de que o musical é ruim mesmo (risos).

Veja cenas dos musicais de Tim Rice:

'Jesus Cristo Superstar'

'O Rei Leão'

'Evita'

 

'José e Seu Manto Tecnicolor'