Leia trechos da peça 'Rasga Coração', de Vianinha

Diálogos escritos entre 1972 e 1974 tratam da destruição do planeta de forma surpreendentemente atual

Oduvaldo Vianna Filho,

19 Outubro 2007 | 20h18

Última peça de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), Rasga Coração ganhou nova montagem carioca, que inicia neste sábado, 20, temporada paulistana no Sesc Santana, a primeira a alcançar repercussão depois da dirigida por José Renato, em 1979, protagonizada por Raul Cortez. Desta vez Zecarlos Machado - ator do Grupo Tapa, assume o papel do militante político Manguary Pistolão, vivido por Cortez. Dudu Sandroni é o diretor do espetáculo. Leia abaixo um trecho do texto de Vianninha que se revela surpreendentemente atual em sua preocupação com os efeitos progressivos da destruição do planeta e com o descaso com a preservação da natureza.   'Rasga Coração' volta renovada à cena teatral   Leia trecho da peça   MANGUARI - ... Porque eu não tenho nada contra experirnentar, coisas novas, entende, Luca? Não tenho nada contra... mas é que o mundo você acha que é só de coisa nova, ele é cheio de seus velhos problemas, você não pode freqüentar um colégio, eu sei, fica essa ociosidade, eu sei... mas eu acho que você está se abandonando muito, filho, não pode se abandonar assim, isso aconteceu comigo, eu sei, a gente se sente fora de tudo... mas, sei lá, filho... você podia fazer uns cursos que tem aí nesse Museu de Arte Moderna, estudar inglês, taquigrafia, você não lê um livro, filho! Isso não pode continuar, esse desinteresse, a gente precisa, se encher de problemas, filho, e não fugir deles, entende?   LUCA - ... Sei, gente doce.   MANGUARI - (Silêncio longo)... E então, Luca?   LUCA - ...Então?... (Silêncio)...Ô, gente doce, a gente está tão diferente, a gente está diferente... (Silêncio, ri) ...Ih, a gente é de duas galáxias, pai...   MANGUARI ...Fala, Luca, por favor, que eu só quero entender você, Luca, palavra, explica.   LUCA - ...Explica... então tem que explicar... explicar... ex-pli-car...palavra de gilete... ex-pli-car... (Tempo longo).quando o homem andava de tílburi, a velocidade do transporte era de 18km por hora... hoje, na era do jato, a velocidade do trânsito é de 10 km por hora...   MANGUARI - ... claro, transporte individual, milhares de carros.   LUCA - ...Já foram encontrados pinguins com inseticida no corpo, a Europa já destruiu todo seu ambiente natural, diversas espécies de animais só existem nos jardins zoológicos, as borboletas estão acabando, vocês vivem no meio de fezes, gás carbônico, asfalto, ataques cardíacos, pilulas, solidão... essa civilização é um fracasso, quem fica nela e se interessa por ela, essas pessoas é que perderam o interesse pela vida... eu é que devia te chamar pra largar tudo isso... é na pele a vida, é dentro da gente, vocês não sabem mais se maravilhar! Eu não estou largado pai, ontem estive na porta de uma fábrica de inseticida, fui explicar pros operários que eles não podem produzir isso... vou em fábrica que produz enlatado.(Manguari vira-lhe as costas)... eu é que lhe pergunto! Não quer deixar a repartição, o ônibus 415, pai, e tentar viver uma vida nova? (Silêncio, Manguari não se volta)... pai?... que é isso, pai? Está chorando?   (...)   MANGUARI - ...Mas a sua geração fica cada vez mais apolítica... você é minoria... qual é a minha culpa nisso? Minha geração é política...   CAMARGO MOÇO - Bom, aí eu não sei, seu Custódio, não sei... Sabe? O Colégio Castro Cott mandou cortar cabelo e faz cumprir a ordem a ferro e fogo em Laranjeiras porque lá em Laranjeiras vão construir um colégio do estado... então, ele quer chamar atenção procolégio Castro Cott de Laranjeiras, para todos os pais moralistas de todos os bairros, é uma maneira de atrair freguesia. Ninguém sabe disso lá no colégio, os 600 alunos, ninguém sabia, ninguém sabe do problema educacional do país... acho que, vai ver, esse foi o erro de vocês... vocês descobriram uma verdade luminosa, a luta de classes, e pronto, pensam que ela basta para explicar tudo... a tarefa nossa não é esperar que uma verdade aconteça, nossa tarefa é descobrir novas verdades, todos os dias... acho que vocês perderam a arma principal: a dúvida. Acho que é isso que o filho do senhor quer... duvidar de tudo... e isso é muito bom... acorda... arrepia as pessoas. (Longo silêncio)   MANGUARI - ... a dúvida, menino?... a nossa principal arma, a dúvida?... (Novo silêncio) ... nunca tinha pensado nisso... (Silêncio. Manguari imerso em si mesmo)   CAMARGO MOÇO - Bom... agora vou puxar mesmo... boa noite

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