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Fulvio Stefanini e Karin Rodrigues festejam carreira em 'Antes de Mais Nada'

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo

31 Agosto 2014 | 19h 57

Peça aborda amizade desperdiçada por causa de briga banal

Uma discussão por motivo banal separou os amigos Alfredo e Bernardo durante 30 anos. E a reaproximação só aconteceu por conta de uma infelicidade, a morte de Bernardo. Inconformado pelo tempo que desperdiçou longe do colega, Alfredo busca explicações e, ao rememorar lembranças, seu desejo é tão forte que a figura de Bernardo começa a surgir em sua frente, uma alucinação com carregada dose de realidade. “Ele precisa encontrar razões para a separação e isso o faz ver o amigo novamente”, diz Fulvio Stefanini, intérprete de Alfredo na peça Antes de Mais Nada, que estreia sábado, no Teatro do Tuca.

Escrito por Flávio Cafiero, o texto é um dolorido mas também irônico acerto de contas. Bernardo foi um ator popular, detalhe não perdoado pelo amigo, pois acreditava em seu potencial shakespeariano. Ambos vivem em uma antiga vila, condenada a desaparecer por conta da especulação imobiliária. Ao redor deles, convivem Mariângela, a filha solteira de Alfredo, limitada a cuidar do pai e, por conta disso, a repetir os mesmos erros; e uma Vizinha solitária, fã de velórios e também agarrada à família de Alfredo, condicionando sua felicidade à participação dos problemas dos amigos.

“Essa Vizinha tem obsessão pela morte. A vila onde moram está decadente, vem sendo demolida. Assim, como é solitária, gosta de velórios pois consegue encontrar as pessoas”, conta Karin Rodrigues que interpreta a própria. A peça é um momento marcante tanto na carreira da atriz como na de Stefanini: enquanto ela comemora 50 anos de profissão, o ator festeja 60.

“Não é à toa que eles marcam a data com um texto instigante”, comenta o diretor Zé Henrique de Paula, que promoveu um processo coletivo de criação, contando com a participação do autor do texto. “Isso aconteceu porque logo criei uma confiança na história do Flávio. Ele desenvolve ali quatro personagens extremamente sagazes, com raciocínio rápido, ironia fina, mas, mesmo assim, ainda com enorme dificuldade em administrar as relações sociais.”

De fato, o convívio entre eles é constantemente marcado pela busca do afeto. “Com a morte de Bernardo, Alfredo projeta na ausência do amigo o que deixou de fazer naqueles 30 anos distante”, comenta Stefanini. “A partir da alucinação do meu personagem, eles desenvolvem uma conversa que nunca tiveram e os diálogos, principalmente os de Bernardo, são projeções do pensamento de Alfredo.”

O texto começou a ser escrito há cinco anos por Cafiero, autor jovem (42 anos), com experiência em TV e literatura (publicou O Frio Aqui Fora pela Cosac Naify no ano passado) e estreante na dramaturgia cênica. Não por acaso, as passagens pelas áreas literária e televisiva foram decisivas na escritura de Antes de Mais Nada - as falas, ainda que em tom coloquial, trazem uma sofisticação nem sempre comum no teatro. “Não é uma peça fácil para os atores”, reconhece Stefanini. “Nem sempre o texto flui como em uma conversa, mas essa linguagem mais aprimorada é necessária para esse tipo de trabalho.”

“Isso porque a história desses dois homens é uma homenagem ao teatro e à sua forma criativa de retratar a vida”, acredita Roney Facchini, que interpreta Bernardo. “A autocrítica provocada pela morte faz com que fique evidente uma série de detalhes sobre os dois. Primeiro, uma profunda afetividade, interrompida pela briga dos 30 anos, mas jamais extinta. Também o nível intelectual de ambos: sabe-se que meu personagem foi um ator e, a julgar pela riqueza intelectual e verbal do diálogo entre eles, dá para acreditar que Alfredo é um dramaturgo.”

“As relações acontecem mais pelo não dito que pelo dito”, observa Cafiero que, ao criar um personagem ‘fantasma’, propõe uma inteligente brincadeira nos diálogos. “Há uma cena muito curiosa entre Bernardo, Alfredo e Mariângela”, conta Stefanini. “A filha conversa com o pai e obviamente não vê Bernardo, mas o que Alfredo diz serve como resposta tanto para ela como para o amigo. É algo totalmente habilidoso.”

Com o trabalho conjunto entre atores, diretor e dramaturgo (jogo estimulado pelo produtor Germano Soares Baía), mudanças aconteceram, como uma maior participação da Vizinha. “Nos ensaios, Karin dizia falas tão interessantes que incorporei no texto”, conta Cafiero, para quem a Vizinha quer participar da rotina da casa e do sofrimento da família. “Ela quer ir no velório de Bernardo como se fosse parente de Alfredo. E, como morto é ilustre, foi um ator famoso, ela deseja ser reconhecida como alguém que conheceu pessoalmente o artista.”

Também importante no quebra-cabeça é Mariângela, vivida por Chris Couto - a relação entre pai e filha é de um profundo mimetismo, apesar das desavenças. “Quando Alfredo conversa com Bernardo no devaneio, tudo respinga na relação com ela”, comenta Chris, para quem seu personagem dá dica de que vai seguir os mesmo passos do pai. “Eles se sabotam o tempo todo, o que dá um tom melodramático ao espetáculo”, diz Zé Henrique. “Mas, ao final, há uma redenção, uma ponta de esperança.” “E é difícil conter as lágrimas nesse momento”, acredita Chris. 

Serviço

Antes de Mais Nada

Teatro Tuca. Rua Monte Alegre, 1.024; telefone 3670-8455.

6ª e sáb., 21h30; dom., 19 h. De R$ 60 a R$ 80. Estreia em 6/9

Trecho da peça

“Bernardo: Antes de mais nada quero dizer que não demorou muito. Mas o tempo, agora posso afirmar com propriedade, é mesmo uma aparência. Tudo ao meu redor entrou em um misterioso estado de suspensão. Tudo. Suspenso. Foi rápido. Por outro lado, até que levou bastante tempo. Não tente entender isso. Não tente. Os dias foram passando e, aos poucos, perdi a fome. Depois parei de sentir sede. As idas ao banheiro se tornaram menos frequentes e pude dedicar minhas horas ao sono. Qualquer coisa funcionava como um calmante: um trovão se aproximando, uma risada mais exaltada no corredor...”