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Crítica: Em 'The Old Woman', atores estão tão presos e tão livres

Maria Eugênia de Menezes, Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo

01 Agosto 2014 | 02h 00

Por um lado, Dafoe e Baryshnikov são intérpretes em pleno domínio de suas capacidades; por outro, peça é um 'internacional chic' para o prazer de colonizados

Ruby Washington/The New York Times
Dupla. Willem Dafoe e Mikhail Baryshnikov

GOSTEI

Partitura precisa de movimentos não limitou liberdade dos atores 

Maria Eugênia de Menezes

A simples possibilidade de ver Willem Dafoe e Mikhail Baryshnikov juntos no palco já seria o suficiente para definirmos The Old Woman, a montagem que segue em cartaz no Sesc Pinheiros até domingo, como um evento. 

Intérpretes no pleno domínio de suas capacidades, eles transformam o teatro em uma experiência sem par. A maneira como se movem, o jogo habilidoso em que um está sempre a instigar o outro, a ilimitada vivacidade de cada gesto ou olhar que lançam à plateia. 

Soa pouco usual, aliás, falar em vivacidade quando se está diante de uma obra de Robert Wilson. Desde os anos 1960, quando assinou suas primeiras criações, o vanguardista diretor norte-americano sempre fez questão de sublinhar sua ojeriza ao realismo. A cada novo título, seja no teatro, seja na ópera, procura tornar suas encenações, e consequentemente seus atores, artificiais ao extremo. Dafoe e Misha não escaparam, em absoluto, das obsessões do encenador. Mas o resultado tem um sabor diferente.

Tudo em cena foi nitidamente calculado. Os passos seguem uma partitura rigorosa, estilizada ao extremo. Cada inflexão de voz foi estudada, cada troca de luz convida a uma nova cena – que se abre, praticamente, como um novo mundo. Ainda que estranhamente familiar. 

Há polêmica em torno da reconhecível assinatura estética de Wilson. E, à medida que mais e mais de suas obras chegam ao País, torna-se natural que se aponte certa repetição de seus procedimentos. O que talvez seja o mesmo que acusar Pollock de ser sempre Pollock ou cobrar Rothko por insistir em blocos de cores e não abraçar o figurativismo.

A partir da novela de Daniil Kharms, uma obra de contornos surrealistas, Wilson estruturou 12 cenas. Nelas, os atores se desdobram para dar conta de incontáveis papéis. São ora homens, ora mulheres. Ora velhos, ora moços. 

Mesmo sem uma história de contornos narrativos bem delineados, existe um caminho a ser percorrido pelo espectador. O mote é a morte de uma velha mulher, que aparece na casa de um escritor, sem que ele saiba em que circunstâncias esse corpo lá chegou. Daí, surgem situações que amarram a melancolia ao cômico. Momentos que deixam vislumbrar tristes paisagens mentais, acerca da velhice, da perda, do passar do tempo. Porém não incorrem, jamais, no drama. Levando-nos a rir do ridículo da dor e do desamparo. 

Os intérpretes conseguem se equilibrar tão bem entre os dois mundos – o grave e o risível – graças a algumas das “repetições” de Wilson: o seu propalado apego aos heróis do cinema mudo – em especial a Buster Keaton. E a sua aproximação com as faces brancas do teatro kabuki oriental. 

Nos imensos quadros vivos desenhados pelo encenador, os atores ocupam um espaço deslocado do ambiente cotidiano. De rostos pintados, os dois parecem portar máscaras. Como imensas marionetes, seres divinos que habitassem algum lugar para além do humano. 

As máscaras de Gordon Craig (1872-1966), o balé de objeto de Oskar Schlemmer (1888-1943), a cena irrealista e estilizada de Vsevolod Meyerhold (1874-1942). Robert Wilson não está colocando em cena ideias exatamente inovadoras sobre o teatro. Sua particular revolução está na maneira de fazê-lo. E, no caso de The Old Woman, nas brechas que abre em seus próprio constructo perfeito para as imperfeições fantásticas de seus intérpretes. 

Marcações calculadas ou efeitos de iluminação não minoram a impressão deixada por Dafoe e Baryshnikov: de que estar em cena é a mais sublime, a mais divertida das experiências. Podemos ver que eles estão presos, engrenagens de uma máquina maior. E, ainda assim, nunca estiveram tão livres.

NÃO GOSTEI

Quem viu uma montagem do diretor, viu todas. Surpreender não é com ele

Luiz Carlos Merten

O que seria de Robert Wilson sem a lanterna mágica e o cinema mudo? Ele provavelmente não teria bússola para seus espetáculos tão refinados quanto vazios, tão deslumbrantes quanto inócuos. Um crítico de fora já escreveu que ele virou o emblema do ‘international chic’. Faz um teatro formalista em permanente itinerância pelo mundo. No Brasil, temos visto bastante Bob Wilson nos últimos anos. Os espetáculos mudam, mas são sempre rigorosamente os mesmos. Lindamente iluminados, com movimentos em câmera lenta, objetos que se movem no palco (quase sempre em silhueta). Você vê uma vez, pensa consigo – ‘Oh, que bonito!’ Na segunda identifica o método, na terceira já sabe exatamente o que vai ver. Justiça seja feita. Bob Wilson honra sua grife. É o menos surpreendente dos metteurs en scène.

Mais do mesmo. E para que mudar, se o público, colonizado – e feliz por estar assistindo a um espetáculo tão de ponta –, aplaude até doerem as mãos? Tudo pelo visual. A dramaturgia? Não é o forte desse Bob. The Old Woman/A Velha baseia-se num texto do russo Daniil Kharms. Em inglês, Kharms costuma ser definido como ‘absurdist’ – seria um absurdista, um autor filiado à vertente do absurdo. Outras definições o situam como surrealista e dadaísta. O texto, subdividido em 12 quadros na adaptação, mostra um escritor assombrado pela velha do título. De cara, há um relógio sem ponteiros. Que horas são? A resposta é precisa, 15 para as 3. E começa a repetição.

O método de Bob Wilson baseia-se na repetição, mas nunca como aqui. Se há um tema em A Velha, é a repetição. O próprio diálogo é dito tantas vezes (o mesmo) que as legendas digitalizadas param de funcionar – ou, pelo menos, pararam no domingo – e não tem a menor importância. A chave é o poema da fome. Você acorda de manhã animado, começa a fraqueza, vem a perda do poder de pensar direito, a calmaria e, finalmente, o horror. Conhecedores da obra de Kharms garantem que a velha seria a Rússia stalinista, contra a qual ele estaria se insurgindo ao escrever seu texto, em 1939. O ano é emblemático. Hitler e Stalin tinham um acordo secreto e o primeiro ficou livre para desencadear a blitzkrieg, invadindo a Polônia, mas depois também invadiu a URSS.

Kharms denunciava um horror para antecipar outro. A adaptação, por Darryl Pinckney, não fornece a menor pista. Certo – nem ele nem Bob Wilson quiseram fazer um espetáculo “datado”. Mas eles também trazem de forma muito vaga essa repetição para a cena contemporânea, o que limita seu poder de crítica ao mundo global, se é que havia a intenção. A dúvida, afinal, decorre do fato de Bob estar tão inserido no (admirável?) mundo novo. Os atores – Willem Dafoe e Mikhail Baryshnikov – representam a pantomima e alternam as máscaras com a mesma precisão milimétrica com que os objetos se movem no espaço (a la Alexander Calder) e a iluminação desenha um elegante jogo de tessituras. Como num vodevil de Feydeau, o entra e sai substitui as portas batendo e o público espera pelo momento em que os bumbuns vão se tocar, ou quase. Lindo, muito engraçado, mas quem acha que dois palhaços num palco automaticamente evocam Samuel Beckett (e um certo Godot) pode continuar esperando que ele não virá. Densidade, zero. Eugene Ionesco e Beckett, mestres do absurdo (e do minimalismo) ridicularizam situações banais para retratar a solidão e a insignificância do humano. Bob Wilson crê que só a repetição basta. Basta? Teatro é pathos, ou não? O que é o teatro? Para Bob Wilson, é luz, e talvez música, para os olhos. Para isso, basta a metade de seus 12 quadros. O tédio instala-se.