Zizi Possi expõe suas dores no espetáculo 'À Flor da Pele', em SP

Zizi Possi expõe suas dores no espetáculo 'À Flor da Pele', em SP

Sob direção do irmão, José Possi Neto, a cantora reflete sobre depressão, doença que enfrentou por anos, e superação

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2017 | 06h01

Talvez Zizi Possi nunca tenha se exposto tanto no palco quanto faz no seu novo espetáculo, À Flor da Pele, em temporada no Teatro Cetip, em São Paulo – ela se apresenta ainda nesta terça, 17, e quarta, 18. Com direção do irmão, José Possi Neto, não se trata propriamente de um show nem de uma peça de teatro. Zizi compara o espetáculo a um monólogo, com textos interligados com músicas, criando um roteiro único. E o ponto de partida – e a espinha dorsal – de tudo são os próprios escritos de Zizi Possi, que revelam os momentos mais reflexivos da cantora, em mergulhos profundos em si mesma.

À Flor da Pele acompanha a história de uma personagem que tem depressão e que, ao longo do espetáculo, trilha um caminho em busca da recuperação. Pela poesia, pela música, enfim, pela arte. É a história da própria cantora. Por anos, Zizi enfrentou a depressão. “O dia oficial da minha depressão foi exatamente no 11 de setembro de 2001, e começa o espetáculo assim. O meu texto faz uma analogia às torres caindo de uma maneira tão vertical.” 

Naquele trágico dia dos ataques terroristas, a cantora recebeu o telefonema de uma amiga, que pediu para ela ligar a TV e ver o que estava acontecendo. Ela conta que, meses antes, seu outro irmão, Neco, foi internado e estava à beira da morte. E a cantora precisou enfrentar os próprios medos para estar ao lado dele. O irmão melhorou. Mas aquilo, de alguma forma, a marcou. “Fiquei perplexa (com as torres caindo). O mais assustador é que eu me vi refletida naquele desastre, aquele desmoronamento estava acontecendo comigo, acho que a tranquilidade de ver meu irmão fora de perigo fez cair tudo.”

Mais tarde, na passagem de 2013 para 2014, Zizi e Possi Neto estavam na Bahia. E, a pedido do irmão, Zizi mostrou a ele o que andava escrevendo. “Escrevi em vários momentos, durante vários anos diferentes. Nas fases mais difíceis, eu não conseguia nem falar que dirá escrever, mas, em alguns momentos, eu conseguia escrever. E, para minha surpresa, ele gostou dos textos. Achei que ele fosse esculhambar, porque ele esculhamba tudo (risos). Ele é muito exigente, e como irmão piora um pouco”, graceja.

Possi Neto – que Zizi chama carinhosamente de Zé – queria, então, ler mais textos dela. E também saber o que ela estava lendo de Nietzsche. “No dia seguinte, ele veio completamente inspirado. Disse: ‘Amei seus textos e, do Nietzsche, tem uma coisa ou outra que a gente pode usar, mas me lembrei de um poeta amigo meu, Eduardo Ruiz, que tem coisas impressionantes’. E ele começou a ler trechos do meu texto com trechos do Edu Ruiz e algumas coisas que ele mesmo escreveu para fazer a ponte entre o Edu e eu. Escrevi as coisas mais descritivas, que vinham de dentro, mais do ponto de vista de quem está fazendo uma viagem. Sempre falava para ele: esse negócio é muito louco, porque parece Alice no País das Maravilhas, que a gente vai descendo, descendo por um buraco. Não sei quando vai parar, nem onde vai parar, nem se vai parar. E, ao mesmo tempo, é um convite à reflexão, porque é impossível você estar deprimido e não refletir.”

E Possi Neto foi construindo essas ligações entre textos de Zizi e Ruiz, com citações de Nietzsche e Donna Tartt, e canções como Se Eu Quiser Falar Com Deus (Gilberto Gil), La Vida Es Mas Compleja de lo Que Parece, de Jorge Drexler, O Que Será (À Flor da Pele), de Chico Buarque. No palco, Zizi vem acompanhada pelos músicos Vinicius Gomes e Daniel Grajew.

Zizi e Possi Neto já trabalharam outras vezes em parceria, mas a cantora confessa que essa foi a primeira vez que ela deixou que o irmão fizesse tudo do jeito que ele queria. “Sem eu dizer não para nada, porque, normalmente, nos shows de música que ele me dirigia, eu falava: ‘eu não vou fazer, não cabe’, mas, desta vez, era dramaturgia, e nunca atuei como atriz, não sou atriz, sou intérprete”, afirma.

“Na hora que ele quis ler meus textos, gostou, sentou comigo e disse: ‘Temos um superespetáculo e a gente vai falar de depressão’. Quando ele chegou com esse texto para mim, falei: ‘Sou muito amada, ele está fazendo uma coisa que sei que para ele não é nada confortável’. A gente vai fazer uma coisa que é bonita, que é de verdade. Eu estava precisando fazer um trabalho que fosse profundo, e acho que a gente pode vir até a fazer bem para pessoas que viveram ou vivem cenários semelhantes a esse, porque é tão raro a gente poder desabafar: estou em um lugar onde sou entendido, não preciso ficar fingindo ser quem não sou.” 

Zizi Possi superou a depressão, mas não tem ideia muito precisa de quando isso ocorreu. “Não lembro quando foi, mas fiquei menos tempo não deprimida do que o tempo que fiquei mal”, diz. “O que estava faltando na minha vida é isso que meu irmão me deu, esse sentido que ele encontrou nos textos que ele viu.” 

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