Tomas Arthuzzi
Tomas Arthuzzi

Vocalista da banda Aláfia estreia dialogando com a ancestralidade

Ao cantar sobre si, no novo álbum, Xênia França o faz por todas

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2017 | 05h00

Quando deixou Candeias, no Recôncavo Baiano, Xenia França ainda achava que seu nome deveria ter acento grave. Escrevia-se “Xênia”. “Não sei o motivo disso, mas achava mais bonito”, ela diz. Treze anos atrás, a moça deixava mãe, avó, história e raízes em direção a São Paulo, na busca de um sonho. Deixou o microuniverso que conhecia para se aventurar. Na cabeça, a ideia de que, depois da capital paulista, seguiria para Nova York. “Eu assistia a muitos filmes e tinha esse sonho”, explica. A vida manteve Xenia por aqui, enraizada. 

Com outros 11 parceiros formou a banda Aláfia, um supergrupo que funde sonoridades, o jazz, o rock, o rap, e provoca a reflexão e a dança, na mesma medida. Ao todo, lançaram três discos – último, SP Não É Sopa, saiu em fevereiro deste ano. Havia – e há –, contudo, mais o que compartilhar, dizer e cantar. Xenia, o disco, lançado há pouco e com show de estreia marcado para ocorrer no Auditório Ibirapuera, neste domingo, 15, é a prova de que o furação Xenia, a cantora, ainda estava fracionado. 

O disco (independente e viabilizado com o auxílio do edital Natura Musical) é um álbum de retratos sobre os 30 anos de Xenia França. Há amores e amarguras, sorrisos e lágrimas, conceitos e preconceitos. Ela traça sua linha da vida aqui. O passado é representado pela ancestralidade, as asperezas que lhe rasgaram a pele negra, pelas homenagens à avó e à mãe. O presente também e bruto e pontiagudo, fere, machuca. Do futuro, ainda não há foto, somente a esperança. “O desejo de ter um trabalho solo é antigo”, ela conta. “Sempre há a vontade de provar para nós mesmos que podemos dar novos passos. Poderia ter feito esse disco quando comecei a cantar. Diante do meu amadurecimento, das minhas experiências de vida, percebo que lançar um disco agora é perfeito. Sinto-me muito mais segura.” 

E a história de Xenia data de antes mesmo de ela chegar ao mundo. Pra Que Me Chamas?, a primeira canção do trabalho, é uma poderosa canção assinada por ela e Lucas Cirilo, integrante da Aláfia, na qual ela canta sobre apropriação cultural e sobre a maior ferida da história do País, iniciada quando os primeiros navios aportaram por aqui com pessoas escravizadas. E chega ao fim com Breu, outro petardo, uma das muitas consequências ao que é cantado em Pra Que Me Chamas?, uma música cheia de silêncios e espaços para o luto que trata da violência nas suas mais atrozes formas – a letra, de Cirilo, surgiu depois do assassinato de Claudia Silva pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, em 2014. 

Pra Que Me Chamas? e Breu são capa e contracapa do álbum de fotografias de Xenia. Dentro dele, ela expõe quem é. Mulher, negra, forte e frágil, tudo ao mesmo tempo. É a garota sonhadora que veio a São Paulo com ambição de se tornar modelo e morar em Nova York (como em Minha História) e encontrou, na cidade, um mercado racista – “As agências tinham uma cota a ser preenchida, se já houvesse uma ou duas garotas negras no casting, estavam satisfeitas”, relembra. É a mulher a questionar a falta de afetividade e do amor, como em Perfeita Para Você e Miragem (Sem Razão), as duas composições do disco nas quais assina as letras sozinha.

“Estatisticamente, a mulher negra está mais propensa a ficar sozinha. Há um machismo, quando não há um racismo”, explica.

Xenia vaga por canções próprias e dos outros – No Alto, de Tiganá Santana, e Respeitem os os Meus Cabelos, Brancos, de Chico César, têm versões arrebatadoras –, para mostrar quem é. Salta pelo jazz, hip-hop e o pop de Michael Jackson – sua maior inspiração, de quem tem os discos em vinil exibidos em um altar na casa onde mora. É o rosto dela na capa, seu nome estampado. Um disco sobre quem é Xenia. É sobre tantas outras Xenias. Com ou sem acento.

XENIA FRANÇA. Auditório Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Parque do Ibirapuera, tel. 3629-1075. Dom. (15), às 19h. R$ 20. 

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