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Entrevista. Deborah Curtis

Em entrevista, Deborah Curtis, autora de 'Tocando a Distância', diz que o astro sempre teve planos de suicídio

Viúva de Ian Curtis narra sua saga de tormentos

Jotabê Medeiros

06 Junho 2014 | 19h 06

Morto aos 23 anos, em 18 de maio de 1980, o cantor, guitarrista e compositor britânico Ian Curtis é ainda hoje uma das figuras mais idolatradas do rock. Ele encabeçou uma banda de linguagem sombria e poesia extrema chamada Joy Division, um culto que todo ano mobiliza garotos em todos os recantos do mundo a criar seu próprio grupo e estetizar a própria melancolia. 

Reprodução
Ian Curtis; cantor era epilético, e se matou aos 23 anos em 1980

Canções como She’s Lost Control, Ceremony, Atmosphere, Love Will Tear Us Apart, entre outras, criaram um arcabouço estético e compuseram a sinfonia da tragédia de uma época. Epiléptico, de temperamento instável, brilhante, infiel à mulher, poeta de performance insana no palco, Curtis não conseguiu decifrar o mistério da própria agonia, e enforcou-se após assistir a um filme de Herzog.

Escrito há quase 20 anos pela viúva do cantor, Deborah Curtis, o livro Tocando a Distância (relançado agora pela Edições Ideal, R$ 59,90 o volume de capa dura, e R$ 39,90 o de brochura) revelou a natureza oculta sob o mito e abriu um pouco daquele mistério. Deborah fez um retrato ao mesmo tempo minucioso e implacável do ex-companheiro. Em dado momento da saga de desintegração pessoal de Ian, ela conta que chegou a temer até mesmo pela vida da filha dos dois, Natalie, quando esta tinha um ano. O filme Control, de Anton Corbijn, serviu-se do livro como base de seu retrato.

O relato de Deborah é fragmentário, como se ela colasse cenas esparsas de um cotidiano que foi conflituoso, às vezes muito hostil. Ela conta, entre outras coisas, que Ian Curtis chegou a ser hipnotizado por Bernard Sumner, seu parceiro no grupo. Fala das dificuldades financeiras da banda e seus contratos, o processo de gravação de discos, e principalmente esmiúça os últimos momentos da vida do músico. “Na despensa, estava a garrafa quase vazia de uísque, da qual ele bebeu até a última gota. Ele ouviu The Idiot, de Iggy Pop. Tirou a fotografia de Natalie da parede, pegou a foto de nosso casamento da gaveta e se sentou para escrever uma carta para mim.”

O Joy Division fez seu último show em 2 de maio de 1980 no High Hall, na Universidade Birmingham. Na esteira de sua influência, bandas como The National, She Wants Revenge e mesmo sua sucedânea, New Order, mudaram a face da música mundial.

34 anos após a morte de Ian Curtis, como você avalia a persistência do legado dele hoje em dia? Há muitas bandas que surgem a cada dia influenciadas por ele. O que explica isso?

O trabalho do Joy Division capturou a paixão que eles sentiam quando eram jovens cheios de ideais e famintos de mudança. A música e as letras são belas. Além disso, o tempo tem um pacto com essas coisas, algo que ocorre e volta a ocorrer ao longo da vida. Por isso, não é surpresa que as pessoas se identifiquem com os sentimentos que aquela música evoca. Ele tinha uma crença absoluta na banda e na sua música e ambicionava o sucesso, mas eu não acho que nada o prepararia para a perda de controle que sentiu. Pessoas jovens sempre acham que têm um insight do futuro, é o que move o mundo para adiante.

Não acho cruel expor as razões da autodestruição de Ian

Você é uma boa escritora. Está trabalhando num novo livro? Tem ambições literárias?

Escrevi a apresentação do livro So This Is Permanence, que será lançado brevemente com as letras de Ian.

Em certo ponto de seu livro, você fala em uma certa inclinação de Ian ao racismo. Muitos fãs acharam que isso não era justo, já que ele não poderia fazer a sua própria defesa desse tipo de acusação. O que pensa disso?

Eu relatava um incidente que me foi contado durante uma entrevista, e não foi algo que eu testemunhei pessoalmente. Foi algo que não era parte do caráter dele e eu gostaria de pressionar para que sempre fosse relatado o contexto em que isso aconteceu. Meu esforço foi o de fazer convergirem as contradições da personalidade dele.

Reprodução
Ian e Deborah Curtis

Um de seus manifestos sobre Ian no livro, aquele que diz “Ele arquitetou seu próprio inferno e planejou a própria queda” parece concentrar a ideia de um homem superficial, especialmente preocupado mais com os efeitos de suas atitudes do que com arte. É um pouco cruel isso.

Não acho cruel expor as razões da autodestruição de Ian. Minha busca por uma razão dos atos dele foi fútil, mas compreensível. Ian certamente não era superficial, era complexo. Mas ele sempre parecia ter um plano. Eu não acho que ele tenha se dado conta do efeito que suas ações poderiam ter naqueles que estavam próximos dele.

Sua filha Natalie escreveu, em um artigo para o jornal The Guardian: “Eu nunca fiquei realmente raivosa com meu pai por ele ter cometido suicídio”. Mas, para você, parece o oposto: você sentiu muita raiva e essa raiva a impeliu a escrever para tentar se libertar.

Foi um tempo doloroso para mim, e escrever me ajudou a achar minha voz. Eu também ficava chateada de que pessoas que não tiveram nenhum conhecimento pessoal sobre a vida de Ian se apresentassem para especular sobre o que teria acontecido. Mas eu há muito tempo não tenho mais raiva.

TOCANDO A DISTÂNCIA

Autora: Deborah Curtis

Editora: Ideal

Tradução: José Julio do Espírito Santo

310 págs. 

R$ 59,90 a R$ 39,90

Leia trecho da biografia de Ian Curtis, Tocando a Distância, escrita por sua ex-mulher, Deborah Curtis:

“As pessoas se sentiam atraídas ou rejeitadas por Ian, dependendo de como elas interpretavam sua conduta. Mike Kelly, um conhecido de infância que morava perto, descreve-o como um sujeito que fazia as pessoas atravessarem a rua para evitá-lo simplesmente porque os olhos dele diziam:

‘Fiquem longe’. Oliver Cleaver achava Ian intrigante, em parte por seu background e sua imagem, mas também porque dividiam o mesmo ponto de vista sobre o sistema educacional na King’s. Parte da rebeldia de Oliver envolvia a amizade com Ian. Os dois desafiavam a vida ritualística da escola sempre que possível. O fato de conhecer Ian Curtis deve ter parecido uma oportunidade ideal para Oliver escapar de sua vida regrada e relativamente segura.”