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Violões do Brasil e do mundo estão na mira de portal, selo e festival

Projeto Violab, do publicitário Alexandre Gama, que criar movimento para o instrumento mais presente na tradição musical do País

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2014 | 03h00

O casal discute feio na sala do apartamento. A mulher sai, bate a porta e deixa o homem possesso. Furioso, ele apanha o violão no sofá e começa a tocar endiabradamente com uma energia que incendeia uma das cordas. O fogo passa para as outras, atinge o instrumento, sobe pelas mãos do rapaz e começa a queimar o corpo do próprio violonista. Ele não para de tocar. As pessoas na rua percebem o incêndio e a mulher retorna, entra no quarto, pega o extintor e, como se já tivesse feito isso outras vezes, apaga o fogo do marido. Ou não. Yamandú Costa está sempre em chamas quando tem um violão nas mãos.

A cena é o roteiro de um clipe pensado pelo publicitário Alexandre Gama, responsável pela agência Neogama/BBH, que tem Yamandú como personagem. Uma abordagem pop e super produzida que, curiosamente, não se faz ao instrumento mais identificado com a tradição cultural brasileira. E aí está o pulo que Gama quer dar. Ele estreia hoje um portal que pretende abrigar um conteúdo cada vez maior com material exclusivo, de áudio e vídeo, produzido sobre o assunto.

O projeto de nome Violab estende-se para além dos limites da web. Gama vai contar com um estúdio de gravação, um selo para estimular novos trabalhos com a chancela Violab, um programa de rádio e um canal específico no YouTube. A ambição maior é um festival em São Paulo com atrações que tenham o violão no centro de suas formações. Uma paleta de cores bem mais ampla, que pode ter a técnica percussiva da norte-americana Kaki King, um trabalho mais acústico do guitarrista Pat Metheny, as cordas progressivas do quinteto de violões do guitarrista Robert Fripp e o duo de cordas eletrônicas I’m Not a Gun. O voo mais alto, assim como os nomes acima, espera o resultado da negociação com patrocinadores, e a resposta de inscrição em leis de incentivo, para ser concretizado. Gama quer trazer o ‘power trio’ formado por Jimmy Page, The Edge (U2) e Jack White, viabilizado no documentário 'A Todo Volume', de 2012.

A abordagem de Gama segue no sentido contrário ao modelo de coletivos que tratam do violão de forma mais acadêmica, como o Festival Internacional de Violão dirigido pelo músico cubano Leo Brouwer. “A imagem de um violonista no palco não é uma cena bonita de se ver. Ele tem de ficar olhando para baixo o tempo todo, não há uma proximidade com o público. A ideia é quebrar um pouco com isso, respeitando as linguagens”, diz.

O primeiro time que dá a largada ao Violab é o reunido na foto ao lado. O curador é Ulisses Rocha, um dos nomes de maior respeito no instrumento, que integrou o lendário Grupo D’Alma no início dos anos 80 e que representa bem a linguagem do chamado crossover, das obras sem limites estabelecidos entre o erudito e popular, que Gama pretende valorizar. Os outros não são menos importantes: Duo Assad, Fabio Zanon, Yamandú Costa, Marco Pereira, Badi Assad, Marcus Tardelli, Chico Pinheiro e Paulo Bellinati.

Antes de ser publicitário, Alexandre Gama estudou música. Se não fosse por uma resistência familiar, seu caminho também seria guiado pelo violão. “Quase fui trabalhar com Tom Zé, mas meus pais não deixaram”. Ainda assim, seguiu tocando, colecionando instrumentos e pesquisando para criar seu projeto. “Curioso que 90% da massa musical brasileira nasceu do violão”. Uma rápida passagem pelo YouTube o encorajou a seguir em frente, abraçando o instrumento para criar com ele um movimento. “Apenas até hoje (quinta-feira da semana passada) são mais de 16 milhões de vídeos postados com jovens de classes que vão da A à D tocando violão.”

Seu raciocínio tem respaldo histórico, já que as cordas sempre estiveram nos lugares onde deveriam estar. A bossa nova, enquanto ritmo, nasceu do pinho de João Gilberto, cresceu na harmonia de Carlos Lyra e Roberto Menescal e encontrou o mundo nas mãos de Baden Powell. A tradição das canções de protesto, quando passaram a se chamar MPB, não seria a mesma sem acordes como os de Geraldo Vandré em 'Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores'. E o Brasil simplesmente não existiria sem os violões de gente como Jorge Ben, Tom Zé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Tom Jobim, um criador ao piano que, poucos sabem, era um violonista excepcional.

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