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Ucranianos do Dakhabrakha trazem sua música hipnotizante

Quarteto de Kiev será uma das atrações do Mimo, festival realizado em cidades históricas do Brasil a partir deste final de semana; em 12 edições, evento se torna uma experiência centrada no conceito, não nos artistas de renome

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2016 | 03h00

Dar e receber, Dakhabrakha. O significado do nome desse quarteto ucraniano retrata com precisão o que se passa em shows que eles fazem por festivais de música étnica no mundo. É mesmo uma experiência. Há susto, estranhamento, paixão, entrega. Um homem e três mulheres ex-alunos do Teatro de Arte Contemporânea de Kiev que oferecem uma tradição vocal arrebatadora, combinada com instrumentos de outras culturas e arranjos de postura rock and roll.

O grupo será trazido pela primeira vez ao Brasil pelo festival de música instrumental Mimo. Seus shows serão hoje, às 21h30, na Casa da Ópera de Ouro Preto (MG), e no dia 14 de outubro, às 22h, em Paraty (RJ). Se fosse apenas para vê-los, a viagem já estaria paga. Mas o festival tem mais atrações do mundo espalhadas em praças públicas e igrejas dessas cidades. Artistas que raramente voltarão ao País e que certamente não viriam se não fosse o olhar de uma curadoria que pensa fora dos padrões de produção de outros festivais.

O Dakhabrakha, há 12 anos na estrada, está em turnê internacional. Iryna, Nina, Olena e Marko Halanevych vão mostrar aqui o mesmo show que já fizeram nos EUA, Canadá, Rússia, França, Inglaterra, Suécia, Alemanha, Áustria e Nova Zelândia. O cantor, percussionista e bandoneonista Halanevych explica melhor como funciona o aparentemente intrincado pensamento musical do grupo. “Nos baseamos na tradição de canto polifônico ucraniano de nossos ancestrais.” As vozes femininas, de timbre tão marcante e intervalos inusuais no Ocidente, é uma tradição forte em todo o Leste Europeu. Na Ucrânia, quem canta são as mulheres.

As amigas Iryna, Nina e Olena gostavam de cantar assim desde criança. Quando foram estudar etnomusicologia na Universidade de Kiev, elas foram convidadas para algumas aulas no teatro DAKH. Conheceram então o quarto elemento do futuro Dakha, Halanevych. As primeiras músicas que criaram foram como trilhas para performances de teatro. “Foi assim que o Dakha nasceu”, lembra Marko.

Alguns cantos que o grupo usa no repertório são milenares. “Usamos canções de Natal, mas muitas outras da era pré-cristã, como os kupala (referentes ao feriado pagão do solstício de verão).” Halanevych gosta de falar das experiências que fazem com instrumentos de diferentes partes do mundo. “Você pode ouvir em nossos ritmos desde os tambores taiko japoneses até as percussões africanas e árabes, passando pelo cajón latino e o didjeridu australiano. Em todos esses ambientes, a música ucraniana soa muito natural. É assim que mostramos como que a nossa cultura ucraniana pode ser única e, ao mesmo tempo, integrar-se no mundo.

Aproveitar a viagem. Sobre os artistas brasileiros, Halanevych não cita nomes. “Seria uma grande experiência para nós se gravássemos com alguns músicos daí. O Brasil tem uma cultura brilhante, é famoso por isso em todos os lugares. Queremos realmente aprender nesta viagem.” E o que um músico ucraniano gostaria de fazer se tiver algum tempo livre no Brasil? “Estamos à espera de grandes oportunidades no Brasil. É claro que quero ver locais históricos e a incrível natureza de vocês, além de conhecer e falar com os brasileiros.” A referência mais próxima que Halanevych tem do Brasil não é brasileira, mas ucraniana. Ele se lembra do cantor Yeugen Hudz, da banda Gogol Bordello, que viveu no Brasil. “Ele já disse que o seu país é o melhor lugar do mundo para se viver. Então, nós queremos ver e nos apaixonar por este Brasil.”

O Mimo Festival mexeu com conceitos de festivais de música no Brasil desde que foi criado, há 12 anos. É o único a apostar em atrações fora dos circuitos convencionais, já que até pilares de resistência indie, como o Lollapalooza, renderam-se aos negócios. Mais ainda, usa a força de suas atrações, que podem ser desde um grupo de blues do deserto africano até um gaitista de fole escocês, para reforçar um conceito. Sem querer comparar universos tão distintos, já comparando: enquanto o Rock in Rio investe na ideia de transformar-se em parque de diversões, o Mimo se torna uma espécie de cápsula teletransportadora. Andar pelo centro histórico das cidades que o sediam é como viajar pelo mundo em algumas horas. A música é sempre surpreendente em vários sentidos.

A produção dividida há dois anos entre Lu Araújo (produtora que concebeu tudo, faz a curadoria viajando pelo mundo e controla cada refletor de luz) e Luiz Calainho (empresário da produtora Musickeria, homem de negócios com tino para trazer divisas e influência para conseguir investidores) tem vingado. Depois de perder a sede de Olinda no ano passado, com a crise da economia nas alturas, o festival retomou essa importante ponta para este 2016 e ainda fez uma ousada investida em território lusitano. A pequena cidade de Amarante, ao Norte de Portugal, nunca havia recebido algo parecido. Um festival de música com nomes brasileiros, portugueses, africanos e norte-americanos. O prefeito gostou tanto do movimento de turistas em seu sítio que resolveu fechar a próxima edição para 2017.

Os números do festival se acumulam. Mais de 1 milhão de espectadores assistiram a 180 filmes gratuitos (em uma mostra de cinema paralela) e a 344 concertos também com entrada franca. Mais de 3.300 músicos passaram pelas cidades históricas participantes, com cerca de 20 mil alunos beneficiados pela chamada etapa educativa (workshops e palestras). Foram mais de 950 horas de uma música sem fronteiras, feita por artistas de países como Mali, Cuba, EUA, Argentina, França, Alemanha, Camarões, Bélgica, Portugal, Itália, Ucrânia, Portugal, Coreia do Sul, Jamaica, Escócia, Índia, Suíça, Espanha, Colômbia e Jordânia, além do Brasil.

Paraty recebe os artistas entre 14 e 16 de outubro. As atrações de ponta serão o senegalês Cheikh Lô, o quarteto ucraniano DakhaBrakha, e o escritor e compositor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa. Entre os brasileiros, poucas surpresas entre grandes, como a cantora Elza Soares, ainda nas graças do excelente álbum A Mulher do Fim do Mundo; e o rapper Emicida, com participação especial do baterista Wilson das Neves. Este pode ser um ponto a se atentar. O Mimo prova, edição após edição, precisar cada vez menos de um blockbuster. O mesmo faro que tem para localizar um Dakhabrakha na Ucrânia deve ser acionado para abrir mais as cortinas em seu próprio País.

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