Nick DidlickReuters
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U2 revisita 'The Joshua Tree' aqui e agora

Álbum foi um sucesso mundial que impulsionou o grupo para o circuito dos estádios e arenas

Jon Pareles, The New York Times

19 Maio 2017 | 12h46

SEATTLE - O U2 não quer virar uma banda de tiozão, que vive do passado. Mas os irlandeses não conseguiram resistir a uma turnê de shows em estádios, rapidamente esgotada, com todas as canções do álbum The Joshua Tree, de 1987 - canções que ainda estavam cheias de ímpeto e moral quando o U2 as tocou na noite de sábado, 13, no CenturyLink Field. Foi o primeiro show nos Estados Unidos, depois da estreia em Vancouver e antes de uma longa turnê mundial. A banda também vai lançar uma edição mais caprichada e expandida em comemoração ao 30º aniversário do disco.

O U2 vem trabalhando em novas músicas. De acordo com Bono, vocalista da banda, eles já haviam encerrado as gravações de Songs of Experience - sequência de Songs of Innocence, álbum de 2014 - mas as eleições do ano passado fizeram algumas faixas voltarem para uma reescrita. Pelo menos uma música nova já está pronta e foi incluída no show: The Little Things That Give You Away.

The Joshua Tree merecia ser revisitado. Foi um álbum fundamental para o U2, anunciando e cumprindo grandes ambições. Suas músicas pensavam os Estados Unidos dos anos 1980 como mito e presença: sua paisagem, seus ideais de liberdade e abertura, sua cultura, sua sensualidade, sua violência. As letras falavam de jornadas românticas e espirituais, mas também de dificuldades políticas e econômicas, juntando tudo isso com uma linguagem inspirada na Bíblia e na poesia beat.

Mais que isso, a música de The Joshua Tree expandiu os horizontes do U2 de maneira decisiva, com uma nova afluência de sons americanos, uma crescente confiança na hora de sobrepor ritmos e texturas e um tributo à história do rock anterior ao punk, de volta a Bob Dylan e Velvet Underground. Com The Joshua Tree, o U2 vestiu o manto de uma banda importante para a geração.

The Joshua Tree também foi um sucesso mundial que impulsionou o U2 para o circuito dos estádios e arenas, onde permaneceu até hoje. O álbum trazia os únicos singles do U2 que chegaram ao topo nos Estados Unidos: With or Without You e I Still Haven't Found What I'm Looking For. Canções sobre a busca do amor, da fé e de respostas.

O U2 começou a noite com um palco pequeno, iluminado como se fosse apenas uma casa de shows, tocando faixas de álbuns anteriores a The Joshua Tree: reflexões sobre o terror (Sunday Bloody Sunday), deslocamento (A Sort of Homecoming), anseio (New Year's Day) e transcendência (Bad). A plateia com os braços ao alto e cantando em coro.

Durante Pride (In the Name of Love), música de 1984 sobre o assassinato do reverendo Dr. Martin Luther King Jr., um enorme telão mostrou palavras do discurso "Eu tenho um sonho". Depois, para a apresentação de The Joshua Tree, a tela toda se iluminou, e os integrantes da banda tomaram seus lugares em um palco imenso, digno de estádio. Era como se estivessem em ascensão, junto com a carreira.

The Joshua Tree foi tocado contra o vídeo de fundo, com muitas cenas desérticas realmente lindas, feitas por Anton Corbijn, o fotógrafo responsável pela capa do álbum e por muitas outras imagens do U2. A banda ficou pequena, mas a música, não. Larry Mullen Jr. na bateria, Adam Clayton no baixo e Edge na guitarra rasgaram a noite com o ritmo urgente de Where the Streets Have No Name. Sobre o groove pós-punk de Bullet the Blue Sky, o falsete de Bono e a guitarra de Edge pareciam cantos de sereias.

The Joshua Tree foi um marco de alta qualidade de uma era em que os principais roqueiros pareciam ansiosos para posarem de modelos e emissários do bem, fazendo concertos beneficentes, como o Live Aid e a turnê Conspiracy of Hope, da Anistia Internacional, ambos com participação do U2. Os mais críticos viriam a repudiar esse tipo de iniciativa como algo ingênuo e pretensioso, mas o U2 persistiu. Não tem a ver com protestos raivosos; mas sim com empatia, esperança e, sobretudo, exaltação.

Um bom motivo para reviver The Joshua Tree é que suas preocupações - pessoais, sociais, místicas - não se dissiparam. Algumas de suas faixas guardam estranhas ressonâncias com os atuais problemas americanos. Running to Stand Still é o retrato de um viciado, Red Hill Mining Town reflete sobre o desaparecimento dos empregos na mineração. Eddie Vedder, do Pearl Jam, cantou versos de Mothers of the Disappeared, uma elegia aos prisioneiros políticos, e o U2 também recebeu no palco Ben Harper e Mumford & Sons, banda que abriu a noite.

Antes de Exit, o telão mostrou o clipe de Trackdown, um programa de TV dos anos 1950 sobre um trapaceiro chamado Walter Trump, que prometia construir um muro por motivos de segurança. E, então, depois de mostrar as mãos de Robert Mitchum tatuadas com as palavras "Amor" e "Ódio", para seu papel como pregador fanático e assassino no filme Mensageiro do Diabo, Bono se empertigou e gesticulou para declamar a letra, vestido com terno preto e chapéu de pregador. 

As canções posteriores aos anos 80 se ligavam a causas. Artes gráficas transformaram Ultraviolet (Light My Way) em uma celebração de grandes mulheres do presente e do passado. One foi dedicada à batalha contra o HIV/AIDS e à organização de Bono que combate a pobreza, ONE. Em Miss Sarajevo, um projeto paralelo do U2, imagens da devastação da guerra, de refugiados e de uma garota síria de 15 anos de idade sonhando em imigrar para os Estados Unidos apareceram enquanto Bono cantava "Is there a time for keeping your distance/ A time to turn your eyes away" e, depois, recitava The New Colossus, poema de Emma Lazarus feito para a Estátua da Liberdade.

Ainda assim, o U2 se recusou a ficar só no passado. A nova canção, The Little Things That Give You Away traz uma letra que fala sobre ansiedade e crise criativa: "So far away from believing/ That any song will reappear", Bono cantou. A música começou como uma balada sentimental ao piano, mas, antes de acabar, já tinha multiplicado o impulso, com uma batida dupla e uma guitarra ainda mais rápida.

A banda não podia deixar essa energia se dissipar assim tão fácil e, do nada, Bono puxou uma das antigas: I Will Follow, primeiro single do U2. Ele instigou a multidão a arrancar o teto. Mas era um estádio, habitat natural da banda há décadas. Não tinha teto./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

 

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