Rich Fury/Invision/AP
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U2 busca a intimidade em nova turnê

Com ‘Innocence and Experience’, Bono quer se reaproximar dos fãs

Mikael Wood, Los Angeles Times

29 Maio 2015 | 06h00

SÃO JOSÉ, CALIFÓRNIA - Para o U2, o momento da “lampadinha acesa” veio na forma de uma lâmpada de verdade. Discutindo há dois anos sobre uma recém-lançada turnê de concertos que parou no SAP Center de São José na semana passada e foi para o Forum em Inglewood, Califórnia, para cinco noites a partir da última terça-feira, os membros desta venerável banda irlandesa tiveram a ideia de um palco iluminado por uma única lâmpada nua. A imagem evocava o quarto de dormir da infância de Bono em Dublin, onde o líder da banda aprendeu a tocar, e inspirou o desenho de um show relativamente em pequena escala que conjura o espírito sério, mas fragmentário, dos primeiros tempos do U2.

As competências do grupo - e suas ambições - cresceram de lá para cá, é claro: não muito depois de abrir sob aquela lâmpada balançando, o concerto se expande para incorporar dois palcos adicionais e uma tela do tamanho de um outdoor emitindo a fina flor dos visuais; o sistema de som, com alto-falantes do chão ao teto, é outro avanço tecnológico. Mas a produção da turnê denominada Innocence and Experience, compartilha uma intimidade com Songs of Innocence, o álbum orgulhosamente autobiográfico do U2 lançado no ano passado.

“O que estamos tentando comunicar é uma espécie de efusão emocional, de vidas que vivemos no passado e um olhar para o futuro”, disse Bono. “Realmente queremos que as pessoas se conectem com o desempenho da banda.” 

A turnê também confere ao U2 a oportunidade de fazer um reposicionamento público depois de seu acordo com a Apple, que pôs Songs of Innocence nas bibliotecas do iTunes de estimado meio bilhão de pessoas e provocou uma reação negativa entre usuários que viram a jogada como uma invasão de sua privacidade digital. Bono mais tarde se desculpou - mais ou menos - no Facebook, reconhecendo que uma “pitada de megalomania” havia movido a banda, além de um “medo profundo de que estas canções nas quais derramamos nossa vida nos últimos anos poderiam não ser ouvidas”.

Mas o pedido de desculpas não conseguiu desfazer uma percepção crescente de que o U2, o grupo um dia punk que lançou seu primeiro álbum em 1980, havia ficado demasiado grande, demasiado arrogante, seguro demais da própria importância. Esta turnê, em flagrante contraste com a apresentação num estádio imenso que levou o U2 ao Rose Bowl em 2009, procura corrigir essa impressão, ou ao menos salientar um lado diferente, mais pessoal, do grupo.

Reunido com seus colegas de banda de longa data - o baixista Adam Clayton, o baterista Larry Mullen Jr. e o guitarrista the Edge - numa suíte de cobertura de hotel um dia depois da apresentação no SAP Center, Bono questionou a ideia de que o novo show representava uma tentativa de controle de danos.

“Há razões para a intimidade”, disse ele, seu rosto sem nenhuma marca visível de um acidente de bicicleta que fraturou sua órbita ocular em novembro. “Nós temos uma história e queremos contá-la, e essa é: o que faz de uma pessoa um artista? Por que você quer estar numa banda?” No concerto, o U2 se apresenta em meio a vídeos que refletem alguns incidentes formativos da adolescência de Bono, entre os quais a violência policial que assolou a Irlanda nos anos 70 e a morte de sua mãe quando o cantor tinha 14 anos. O show contém também referências sonoras e visuais à música que influenciou o U2: Kraftwerk, os Ramones, Johnny Cash.

O show argumenta que o U2 não perdeu o contato com essas forças vitais. “Independentemente de como este disco fosse lançado, nós estaríamos excursionando com ele. Estaríamos tocando estas músicas”, disse Mullen. “É o que fazemos.” 

Mas os músicos reconhecem que os concertos oferecem uma chance de reintroduzir seu novo álbum. Apesar do lançamento exuberante, Songs of Innocence não teve o tipo de impacto que o U2 está acostumado a causar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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