Tom Zé apresenta seus instromzémentos

Pode ser escrita nesta quarta-feira uma nova página da MPB, sem ranços de um passado que fica contemplando a si mesmo e não sai do lugar. Tom Zé, que ainda chora quando vê moça nua, estréia no Directv Music Hall o repertório de seu novo CD, Jogos de Armar (Trama). E pretende tocar os seus "instromzémentos". Instromzémentos, mas que o é isso? É idéia organizada, segundo Tom Zé, em 1978. Naquele ano, vendeu uma casa de praia - com o consentimento e apoio de Neusa, mulher e fiel escudeira em sua luta - para construir suas máquinas de fazer música. A história não vingou, mas o embrião foi congelado. Agora, com o apoio da gravadora, renascem suas enceradeiras, PVCs e esferográficas sonoras. Há oito meses prepara Jogos de Armar e, conseqüentemente, instromzémentos - tímidos no CD. Está ensaiando alucinadamente para tirar sons deles. O que vai dar? Não dá para saber. E, aliás, não dá para entender muito. Só vendo. Para executar essa idéia, Tom Zé precisou de profissionais de outras áreas. Uniu as muitas possibilidades e a criatividade deles para produzir música. Contou com a habilidade por exemplo, de Antonio Nascimento, um marceneiro que, como conta Tom Zé, parecia adivinhar o que ele queria. E com a mão-de-obra qualificada dos irmãos Rui e Walter Ohara, que muito entendem de questões tecnológicas. São responsáveis pela parte matemática da produção dos sons. Enfim, a soma disso com aquilo que origina uma beleza de música. Outros inventores-parceiros também participaram dessas criações: Roberto Maia, Andy Rubinstein, Claudia Soares e Claudinho. Os instromzémentos são: a orquestra de herz ou hertzé (uma espécie de "sampler pré-sampler"), o enceroscópio (feito com enceradeiras, aspiradores de pó, liqüidificadores), a serroteria (um dispositivo feito com canos de madeira, PVC e outros materiais), o buzinório (um conjunto de buzinas manejadas num teclado) e as canetas Lazzari (pequeno instrumento formado por esferográficas). No show, Tom Zé canta e toca triângulo e os instromzémentos. Seus músicos, que manejam muito bem os instrumentos convencionais, também vão se aventurar nessa maluquice. Apesar de "inovador demais", como Tom Zé bem observa na entrevista, o novo CD é música sofisticada, mas fácil de gostar. Lógico, está longe de ter ligação com a música convencional, mais para balada norte-americana. "Para que julgar o axé e o pagode, se há subserviência de muitos elitizados", afirma. Mas é realmente fácil de gostar do disquinho Cartilha de Parceiros, acoplado a Jogos de Armar. No encarte do álbum, um primeiro aviso: Jogos de Armar não é um álbum duplo. É sim. O CD-auxiliar traz quase todos os módulos sonoros que compõem as faixas do novo disco. É uma idéia organizada nesse momento, em que ele é artista da Trama e, pelos meios disponibilizados pela gravadora, está dando sua contribuição didática sobre o assunto fazer música. Mais do que isso: incentiva o espírito cientista, seja usando as múltiplas combinações na música ou não. "Não quero formar compositores", diz ele. "Até porque não dá para fazer um País só de compositores. Um país precisa de economistas, lavradores..." Tom Zé também não sabe avaliar a proporção que Cartilha de Parceiros pode tomar. "Que a minha brincadeira (sua música), feita desde sempre em módulos e, por isso, passível de ser recortada, sirva para muitas possibilidades", afirma. "Que possa ser, quem sabe, uma escola aberta." Tom Zé - Quarta (22), às 21h30. De R$ 25,00 a R$ 40,00. DirecTV Music Hall. Avenida dos Jamaris, 213, tel. 5643-2500. Patrocínio: Volkswagen.

Agencia Estado,

21 Novembro 2000 | 21h27

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