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Tom Jazz se despede com últimos shows

- Atualizado: 27 Fevereiro 2016 | 00h 07

Thiago Amorim, dono da casa, diz que não vai reabri-la em outro endereço e que vai criar uma produtora

Thiago Amorim viveu os melhores e os mais angustiantes dias da vida de um empresário do entretenimento enquanto esteve à frente da casa de shows Tom Jazz, na Avenida Angélica, Higienópolis, São Paulo. Os melhores, felizmente, foram mais numerosos. Nos dez anos em que se tornou um endereço da boa e mais fresca música que se cria na cidade, o lugar era o oásis de um empresário com filtro artístico apurado.

Thiago Amorim é filho de Paulo Amorim, dono do Tom Brasil

Thiago Amorim é filho de Paulo Amorim, dono do Tom Brasil

Pianista graduado em Boston, que teve Esperanza Spalding como baixista do grupo em que tocava, o Quinteto Saravá, Amorim voltou para o Brasil para fazer o que sempre quis que fizessem por ele: deu o palco a uma geração de artistas. Quando seu empreendimento completaria dez anos, então, veio a ladeira: o Tom Jazz anunciou que iria fechar as portas.

Os últimos shows serão neste sábado, 27, e domingo, 28, de duas cantoras. Chiara Civello e Luiza Possi, respectivamente. A agonia do Tom Jazz, uma das mais bem equipadas casas médias paulistanas, acompanhou a queda provocada pelo arrocho econômico do País – mais exatamente a partir do segundo semestre de 2014, quando as contas passaram a não fechar.

O copo transbordou com o preço do aluguel: R$ 45 mil. Isso somado aos gastos com cachês de músicos, folha de pagamento de funcionários, preços reajustados de fornecedores, tributos fiscais e uma conta de luz que gira nos R$ 12 mil. 

Na contramão do dinheiro que sai, o que entra não cobria mais os gastos. “De 2014 para cá, operei no prejuízo o tempo todo”, diz Amorim. Sua receita sem patrocinadores, baseada na bilheteria e nos serviços de bar e cozinha, não continha mais a sangria. Fechar as portas foi a solução. “Ser empresário no Brasil é muito difícil.”

As primeiras notícias de que a casa fecharia apenas para mudar de endereço não conferem. Amorim afirma que, dificilmente, vai reabrir o Tom Jazz em outro lugar. “Não quero ter outra casa, por enquanto. Meu momento é de revolução. Estou saindo de um meio no qual a conta não fecha e indo para um outro modelo de negócios, com muito mais liberdade”, explica.

Amorim sabe que tem uma marca com força, o nome da casa. Por isso, faz suas conexões para abrir uma produtora especializada na realização de shows e gravação de conteúdo, trabalhando em parceria com casas de espetáculos. “Quando anunciamos o fechamento, muitas pessoas se manifestaram nos apoiando. Foi uma comoção na classe artística.” O projeto de uma nova casa só seria reativado se um patrocinador entrasse na jogada, assumindo a parte mais pesada dos gastos. “Posso fazer um projeto comercial. Mas essa casa nova teria 500 lugares, não mais 200 (como o Tom Jazz).”

A capacidade de uma casa de shows é um ponto crucial para sua sobrevivência. Edgard Radesca, do Bourbon Street, a casa média mais respeitada com condições de receber até 400 pessoas, sempre lembra da guerrilha que seu trabalho de empresário se torna para conseguir empatar o jogo. No Rio, a casa Miranda, um projeto ambicioso às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, inaugurado em 2012 com um show de Gal Costa, fechou as portas em dezembro. Sua lotação também estava estipulada em 400 lugares.

A mesma crise que faz o preço dos fornecedores subir impede que o dono do espaço aumente o valor da entrada. Em um universo de apenas 200 lugares (e Amorim calcula que, desses, vendia 170, descontando as cotas de mídia), o cenário piora. “Nós fizemos em 2015 um show de Toquinho, por exemplo, com o mesmo valor do ingresso de 2014. Não conseguia repassar os aumentos para o cliente.” Os bilhetes ficavam entre R$ 80 e R$ 100.

Thiago Amorim é filho de Paulo Amorim, também empresário do entretenimento, dono da casa Tom Brasil. “Foi ele quem montou, quem enxergou tudo do Tom Jazz e tocou a casa por seis anos.” Seu sócio no início da empreitada, antes de Thiago assumir, eram Radesca (do Bourbon Street) e Paulo Rosa (sócio-proprietário do Canto da Ema).

No Rio, onde vive, Thiago é dono de outro projeto. A Vivo Rio, perto do Aeroporto Santos Dumont, é anunciada como “a maior casa de shows do Rio de Janeiro”. Sua capacidade de 5 mil lugares deve dar outros problemas, mas não os mesmos da quase finada Tom Jazz.

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