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Titãs criam crônicas da sociedade atual conduzidas pelo rock pesado

Adriana Del Ré - O Estado de S. Paulo

21 Maio 2014 | 19h 06

‘Nheengatu’ lembra a banda nos tempos do histórico 'Cabeça Dinossauro'

Na capa, a Torre de Babel cunhada pelo pintor Pieter Bruegel representa a nação onde ninguém se entende. Paradoxalmente, estampada sobre a obra, a palavra ‘Nheengatu’ remete à língua geral, criada no século 17 pelos jesuítas, a partir do tupi-guarani, para que todos (índios e portugueses) conseguissem se comunicar. Na contracapa, outra pintura de Bruegel, O Massacre dos Inocentes, retrata uma sociedade de vítimas. Esse universo forjado no encarte do novo disco do Titãs, batizado de Nheengatu, diz muito sobre as reflexões levantadas, ali dentro do álbum, pela banda. De maneira ácida, irônica – e furiosa.

As baladas ficaram para uma próxima oportunidade. As 14 faixas do disco são conduzidas na base do rock pesado, com alguma brasilidade, fazendo lembrar os Titãs em tempos do histórico Cabeça Dinossauro (1986). As guitarras nervosas, a bateria contundente e os vocais exasperados impulsionam uma metralhadora giratória de temas sociais atuais na sociedade brasileira. Após 32 anos de carreira, a banda afia seu olhar de cronista – talvez nunca dantes dessa forma.

A coleção de músicas se assemelha a uma compilação de pequenas histórias. Entre elas, há as que soam familiares, como se tivessem sido tiradas dos noticiários. Como na canção Cadáver Sobre Cadáver (Paulo Miklos/Arnaldo Antunes), que parece recontar as tragédias de Amarildos, Cláudias e DGs nas favelas cariocas. Ou como Quem São os Animais? (Sérgio Britto), que joga luz sobre os preconceitos, como o racismo, tal e qual o jogador Daniel Alves sofreu na Espanha, no polêmico episódio da banana jogada no campo. "Te chamam de macaco – quem são os animais?", traz um trecho da letra.

Segundo a banda, nenhuma das músicas foi inspirada em um episódio em específico. Mesmo porque todo o processo de composição do projeto começou há cerca de 3 anos. A explicação? Fica no campo da sincronicidade. "A proposta foi fazer instantâneos das situações, mas, infelizmente, as coisas acontecem em tal profusão no Brasil que, quando você faz uma foto aqui, você está acertando várias fotografias que estão acontecendo ao mesmo tempo", compara o guitarrista Tony Bellotto. "A música se encaixa na situação", completa Paulo Miklos, vocalista e guitarrista – que perdeu a mulher Rachel Salém para o câncer no ano passado, durante a feitura desse novo disco. "O trabalho foi fundamental (para enfrentar essa situação). Perdi meu pai há 3 meses. É uma situação muito crítica. Acho que o mais importante é o movimento para a sobrevivência", diz ele.

Como ‘cronistas policiais’, eles fazem incursão por assuntos mais pesados, como machismo e abuso sexual de crianças, em Flores Pra Ela (Sérgio Britto/Mario Fabre) e Pedofilia (Britto/Miklos/Bellotto). Falam do homem que se sente dono da mulher, que leva flores para agradá-la ou para seu velório, após matá-la. Do pedófilo que seduz sua vítima e lhe promete não fazer nenhum mal.

Mexer nesse vespeiro por meio de canções foi tarefa das mais difíceis. A construção de personagens, do agressor e do agredido dentro delas, ajudou no texto. "Não tem um juízo de valor de um narrador nessas duas canções. Elas colocam a situação por si. A gente percebeu que era melhor fazer assim do que ficar falando o que é obvio", diz Sérgio Britto, vocalista, tecladista e baixista da banda.

Já a faixa Fardado (Britto/Miklos) soa como uma atualização de Polícia, canção emblemática do Cabeça Dinossauro, quase 30 anos depois. O Brasil mudou – e a abordagem da banda sobre a instituição também. "O Cabeça é mais na primeira pessoa, ‘não gosto’, são pensamentos bem claros. Nesse novo trabalho, tem um pouco da reflexão", diz Branco Mello, vocalista e baixista.

Para Bellotto, apesar de Fardado e Polícia terem enfoques diferentes, a crítica que se faz é bastante parecida. "Desde Polícia, em 86, já havia a ideia de dizer que a polícia é necessária, óbvio. Não se imagina uma sociedade sem ela, mas o que a gente percebe no Brasil ainda hoje, infelizmente, é uma polícia, muitas vezes, truculenta, não preparada para exercer sua função. Uma polícia que também é, às vezes, explorada."

Um dos autores de Fardado, Britto emenda: "Tem a ver com ‘ponha-se no meu lugar, ponha-se no seu lugar’, você também é explorado, é vítima. Isso é um enfoque um pouco diferente, mas a instituição talvez, como tudo no Brasil, tenha melhorado. No entanto, à medida que a democracia vai se aprimorando, os desafios são maiores. Manifestações no Brasil como têm acontecido não costumavam acontecer, e é preciso que se tenha uma polícia preparada para lidar com isso."

A vida é festa. O núcleo titânico, atualmente formado pelo quarteto Miklos, Branco, Bellotto e Britto, conta, há cerca de quatro anos, com o reforço de Mario Fabre na bateria. Ele entrou na banda logo após a saída de Charles Gavin, em 2010. Sua indicação, aliás, partiu do ex-baterista do grupo. Além de acompanhar os Titãs nos shows e neste trabalho em estúdio, Fabre faz sua contribuição como compositor, na canção Flores Pra Ela.

E a banda, que costuma assinar as faixas de seus discos, desta vez, abriu espaço para autores ‘infiltrados’. Caso de nomes como o já citado Arnaldo Antunes, amigo da trupe e ex-Titãs, que fez, em parceria com Miklos, Cadáver Sobre Cadáver; e Hugo Possolo, Emerson Villani e Angeli, que, com Branco Mello, compuseram República dos Bananas. Canalha, do disco Vela Aberta (1979), de Walter Franco, ganhou versão honrosa do grupo, que manteve o vigor – e o riff – do original. Para quem não conhece Canalha, a canção pode até se ‘camuflar’ de repertório do Titãs dentro do contexto de Nheengatu.

A banda também fala sobre a polêmica das biografias não autorizadas. Eles próprios já tiveram sua história escrita pelos jornalistas Hérica Marmo e Luiz André Alzer, com o nome de A Vida Até Parece uma Festa, e publicada em 2002. Apesar de não ser uma biografia encomendada, o processo todo era do conhecimento da banda, que ajudou, inclusive, com informações. "Nessa questão das biografias, ficamos a favor de sua liberação", conta Bellotto. "No nosso caso, o Alzer e a Hérica disseram para a gente que queriam fazer uma biografia nossa, mas que não fosse chapa branca. A gente achou legal e topou correr esse risco." Para eles, essa é uma das formas de se fazer biografia. Quanto a remunerar ou não o biografado, acreditam que não há uma regra. "Se o cara colabora com aquilo, talvez ele possa fazer um acordo", opina Britto. "É uma questão aberta."