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Marcio Fernandes|Estadão

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Teatro Lira Paulistana é lembrado em projeto com shows e filmes

Local que esteve na ativa entre 1979 e 1986

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Adriana Del Ré,
O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2016 | 06h00

Quarta-feira à tarde. Sol a pino. Quatro músicos que têm sua própria história ligada, de uma forma ou de outra, à do Teatro Lira Paulistana vão chegando, um a um, no ponto de encontro marcado pela reportagem do Estado, na Rua Teodoro Sampaio, 1.091, em Pinheiros, antigo endereço do célebre espaço, um porão, que esteve na ativa entre 1979 e 86. Chegam Arrigo Barnabé, Luiz Tatit e, logo em seguida, Tetê Espíndola e Claus Petersen. E descobre-se que a numeração mudou: hoje o 1.091 - onde tem uma lanchonete - não corresponde mais ao local que reuniu jovens artistas dos mais diferentes estilos e grupos, unidos pela vontade de fazer algo novo, que não se encaixava na mainstream da época - isso na música, no cinema, na literatura. Era um oásis, um templo, ou, como já chegou a descrever Luiz Tatit certa vez, “uma espécie de catacumba, onde se faziam muitas coisas que não aconteciam na superfície”.

Muita coisa mudou naquele trecho da Teodoro Sampaio. Os próprios Arrigo, Tatit, Tetê e Claus têm dificuldade de localizar onde ficava o Lira no passado. Vão de um canto a outro em busca de algum vestígio. Uma escada no fundo de um estacionamento ajuda na reconstituição. Tatit se lembra que a entrada do teatro dava de frente para a Praça Benedito Calixto, que virou uma espécie de extensão do Lira, com a realização de shows. E a hipótese mais plausível é que o espaço teria funcionado onde estão atualmente um hotel e uma outra lanchonete.

Ali, o Teatro Lira Paulistana encerrava suas atividades em 1986. Segundo o livro Lira Paulistana - Um Delírio de Porão, de Riba de Castro, no início daquele ano, “na gestão do Jânio Quadros, a Prefeitura de São Paulo começou a fazer exigências arquitetônicas para manter seu funcionamento. O Lira, então, fechou para reforma e não abriu mais”. Para relembrar essas três décadas sem o Lira, o Sesc Ipiranga realiza, a partir desta sexta-feira, 8, o projeto Lira Paulistana: 30 Anos. E depois?. 

A programação inclui bate-papos, aula-show com Arrigo, mostra de filmes e, a cereja do bolo, uma série de shows que começa nesta sexta, 8, com Arrigo e Luiz Tatit, e a cantora Livia Nestrovski. No dia 30, é a vez do grupo Premê, do qual Claus Petersen faz parte, dividir o palco com Leo Cavalcanti e, no dia seguinte, 31, Tetê Espíndola mostra canções de seu disco Pássaros na Garganta (1982), entre outras, com Iara Rennó. Até fevereiro, outros convidados passarão pelo palco, como O Terno e Suzana Salles; Gereba, Passoca e Alzira Espíndola; Língua de Trapo e Danilo Moraes; Cida Moreira; e Bocato. 

Uma das características do projeto é justamente promover esse encontro de gerações - muitas vezes de quem influenciou e foi influenciado. “Cada vez mais a gente sente que aparecem artistas que, de certa forma, estão utilizando elementos que foram típicos não só do Lira, mas de tudo que ocorria aqui em Pinheiros naquele momento”, constata Tatit. “É interessante que não é na geração seguinte que esse legado aparece. Ele aparece depois. Na geração seguinte, há um certa recusa àquilo, mas depois você começa a ver que isso ressoa, e está ressoando cada vez mais.” 

Para o quarteto, o Lira Paulistana encontrou um terreno favorável para emergir. “A época pedia, estava muito chata a música. Já tinha passado Tropicália. Estava um ‘bolerão’ rolando. Gonzaguinha, Fafá de Belém, Bethânia. Em São Paulo, com a ditadura mais amena, começou a pipocar a criatividade das pessoas, e o Lira estava no momento certo e no lugar certo”, opina Claus. Arrigo observa que o Lira, sem intenção nenhuma, virou um lugar. “Antes, era outra turma. De repente, a coisa passou a acontecer na área de música, e equalizou a produção, um certo tipo de produção de música que se fazia em São Paulo. E, mesmo não existindo mais, ele continua sendo um catalisador, as pessoas se organizam em torno daquelas ideias”, diz o músico. “A gente não se encontrava, não fazia reuniões. Eram grupos distintos, o Luiz (Tatit) tinha o grupo dele (Rumo), o Premeditando (o Breque) tinha o deles.” Tetê emenda: “Para nós, o Lira significou algo que interligou os trabalhos de todos e formou um grupo”. Alegre por rememorar aqueles momentos, a cantora e compositora se recorda que, no pequeno camarim do Lira, recebeu de Arrigo a notícia de que eles iam participar do festival MPB Shell, em 1981, com a música Londrina. 

Na lembrança deles, o fim do Lira não fora abrupto. Ocorreu aos poucos, longe de seus olhos, enquanto iam tocando suas vidas e carreiras. De repente, souberam que o teatro não existia mais. Mas, mais do que a saudade, ficou a certeza da perpetuação do legado. “O Lira foi uma coisa da época, hoje não teria sentido. O que interessa atualmente são movimentos acontecendo em vários lugares. Não interessa em um lugar, é a dispersão”, pondera Tatit. “Não era uma época melhor. A época melhor é sempre agora, mas, naquele momento, a gente conseguiu o que conseguiu por uma insistência enorme, porque tudo conspirava contra. A gente não ganhava. Era um ato quase que heroico.” 

LIRA PAULISTANA: 30 ANOS. E DEPOIS?

Sesc Ipiranga. R. Bom Pastor, 822, 3340-2000. A partir de hoje. Filmes e bate-papos (grátis); shows (R$ 20). 

 

ANÁLISE

Porão referência de 'vanguarda' exalava novidade constante - Lauro Lisboa Garcia

No livro dedicado à memória do arrojado espaço que idealizou e manteve a muito custo com outros sócios, Riba de Castro diz que o Lira Paulistana foi “um sonho como tantos outros que um dia acabou”, entre lembranças felizes e outras amargas. Porém, se na cabeça de uma trupe de corajosos empresários havia um porão onde a ousadia fez morada, esse “sonho” não é da dimensão do que os tolos usam no sentido figurado.

Voltando ao que já se repetiu inúmeras vezes, o porão referência de “vanguarda”, catalisador de todas as tendências (rock, instrumental, caipira, experimental, punk, reggae e os tantos sons inclassificáveis), não criou nem virou sede de nenhum “movimento” musical, mas exalava novidade constante. Chegou a um ponto de credibilidade em que não só artistas que viam shows uns dos outros, mas o público valente interessado no incomum, nas inovações, no surpreendente também fez do teatro um animado ponto de encontro. Podia-se ir lá em qualquer noite da semana, mesmo sem saber quem iria tocar, que era garantido ver coisa boa, esbarrar em amigos, celebrar. 

O Lira se tornou a “segunda casa” de muita gente ligada à música, mas foi além disso. Cresceu, virou gravadora, editora, ocupou o muro externo com obras de arte, botou a cara no sol para fazer festivais com seus agregados na Praça Benedito Calixto. Fechou a Avenida Paulista num memorável aniversário de São Paulo, quando isso era algo imprevisível, muito distante dos réveillons e ciclovias de Haddad. 

“Alternativo” e “independente”, o Lira ainda pegou o rabo da maldita ditadura, na virada dos anos 1970 para os 80. E, para jovens provocadores, era um tipo de QG e porta-voz de enfrentamento e resistência, fazendo até política, mas de forma inusitada. Foi trampolim de ideias efervescentes que não cabiam no paladar de tubarões com cabeças de bagre: gravadoras majors, redes de TV, imprensa marrom, padrões sonoros achatados. O som que ecoava no Lira era antitetânico.

Nos olhos de quem produzia brilhava arte antes de cifrões, como numa aventura poética de Quixote. De um lado, o viam como projeto elitista, embandeirando música “difícil” que jamais atingiria as massas, embora as próprias instalações precárias do teatro fossem o oposto ao que a classe média endinheirada costumava exigir: tinha acústica sofrível, equipamento de som inferior a outras casas não muito melhores (era o que havia disponível na época) e ambiente quente, de plateia desconfortável até. Mas a gente relevava isso tudo, porque de outro lado era como manter em ação uma espécie de ideal hippie.

Hoje pequenas casas como Puxadinho da Praça, Casa do Mancha e Casa de Francisca, seja no formato físico ou no estilo de programação, de certa forma refletem o prisma do Lira, incluindo artistas que lá frequentaram, mantiveram-se firmemente na carreira e influenciaram uma ou duas gerações que faz a melhor música de São Paulo hoje, muito além dos paulistanos. Que sonho acabado, que nada. É uma história vibrante no tempo, uma eterna campanha de amor à cidade.

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