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FELIPE RAU|ESTADÃO

Stones encerram passagem por São Paulo com show magistral

Repertório foi quase o mesmo na segunda apresentação da banda para 65 mil pessoas na capital paulista neste sábado, 27

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João Paulo Carvalho,
O Estado de S. Paulo

27 Fevereiro 2016 | 23h34

Era para ser só um repeteco do primeiro show, quando Mick, Keith, Ronnie e Charlie se apresentaram para 65 mil pessoas no Estádio do Morumbi, em São Paulo, na última quarta-feira, 24. Mas, tratando-se de Rolling Stones, é impossível acreditar que a banda mais bem sucedida da história da música possa subir no palco e não surpreender a todos com algo diferente. E foi justamente isso que aconteceu na noite deste sábado, 27, na segunda e última apresentação da banda na capital paulista na turnê latino-americana Olé.

Embora todos saibam exatamente o que esperar de um show dos Stones dentro de um curto espaço de duas horas, a expectativa triplica de proporção quando 54 anos de carreira são colocados à prova de maneira tão enérgica e triunfante. 

Mick é um maestro. Sabe exatamente como conduzir seus fãs alucinados. Se na quarta-feira mandou beijinho no ombro e falou o quanto estava feliz por voltar a São Paulo depois de um hiato de 18 anos, neste sábado, no entanto, brincou com os quatro grandes clubes paulistas de futebol. "Corinthians? São Paulo? Palmeiras? Santos? Temos torcedores de todos os times aqui hoje", disse. "É sábado. Vamos quebrar tudo", complementou após Tumbling Dice, terceira música do set.

Os Stones, mais do que qualquer outro grupo e ao contrário dos Beatles, souberam administrar seus problemas internos. Constituíram, ao longo de cinco décadas de história, algo que não está mais no patamar de uma banda. Eles se tornaram uma franquia, uma marca, um case de sucesso. E o mais interessante disso tudo é que não precisaram mudar em nada seu "modelo de negócios". A velha fórmula rock 'n' roll continua dando certo e enchendo estádios ao redor do mundo.

Mick ainda tem brilho nos olhos. Canta e dança como um garoto de 25 anos em plena forma física. Ele, em nenhum momento, coloca o peso dos 72 sobre os ombros. Em Jumpin' Jack Flash, que abriu o show deste sábado, o vocalista dribla o tempo com a mesma ginga de um menino da periferia com a bola nos pés. Sente-se à vontade para ir até o ponto mais longínquo da plataforma e girar a camiseta com os braços.

Keith é um setentão mais recatado. Não tem a mesma explosão impetuosa de Mick, mas com a guitarra nas mãos faz os riffs simples parecerem obras-primas de Jimmy Page. A "sujeira" de Keith é charmosa. Nenhum outro guitarrista conseguiria fazer isso de maneira tão eloquente. E quando assume os vocais em Slipping Away e Before They Make Me Run sua voz doce camufla um gênio incontido de personalidade temperamental.

Ronnie Wood, ou o Rogério Ceni do rock, como lembrou Mick, é o simpático da turma. Entrosado com Keith, quase não erra. Após uma majestosa interpretação de Honky Tonk Women, durante a apresentação da banda, foi à frente fazendo corações com a mão.

Já Charlie dá segurança ao trio. As batidas práticas e imponentes do baterista sustentam as baladas e dão gás enérgico às canções mais frenéticas.

No set do show, poucas mudanças. Start me Up, que abriu o primeiro show em São Paulo, foi jogada mais para frente. Jumpin' Jack Flash se encarregou de abrir os trabalhos. A balada Wild Horses, do disco Sticky Fingers (1971), substituiu Beast of Burden, do álbum Some Girls (1978). A fofa She's a Rainbow, do álbum Their Satanic Majesties Request (1967), foi a escolhida pelo público para fazer parte do repertório, embora Dead Flowers parecesse uma opção mais justa. Mick chegou a brincar com a escolha dos fãs. "Essa não", sorriu já com o violão nas mãos e pronto para lançar os primeiros acordes. A dobradinha de Keith nos vocais, desta vez, veio com Slipping Away e Before They Make Me Run. Na quarta-feira ele havia cantado Happy e You Got the Silver. All Down the Line também substituiu Worried About You.

Os Stones são grandes e não se assustam com isso. Talvez esse seja o trunfo para se manterem no topo durante tanto tempo. A cada riff, uma  história, a cada hit, uma vontade incontrolável de pular. Ao fim da catarse coletiva Satisfaction, hit emblemático que encerrou mais uma vez a apresentação da banda, as 65 mil pessoas que compareceram ao Estádio do Morumbi neste sábado tinham o mesmo pensamento: que esta não seja a última passagem dos Stones pelo Brasil. Mesmo que demore uma década e Mick esteja no auge dos seus 82 anos.

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