France Keyser/The New York Times
France Keyser/The New York Times

Soprano Barbara Hanningan encanta com impecáveis interpretações de música contemporânea

Ela venceu o Grammy 2018 na categoria álbum solo vocal clássico com 'Crazy Girl Crazy'

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2018 | 06h00

Jogo de espelhos. É assim que a soprano canadense Barbara Hannigan, 46 anos, qualifica o CD Crazy Girl Crazy, que lhe deu a recente vitória no Grammy 2018 na categoria “álbum solo vocal clássico”. Ela concorreu com superstars, como o contratenor Philippe Jaroussky e a soprano norte-americana Joyce DiDonato. E com o repertório mais atrevido – e inesperado. Justíssimo. 

Perdão pelo gasto mas adequado trocadilho, mas há anos Barbara vem barbarizando a cena internacional com suas impecáveis e inovadoras interpretações de música contemporânea. Sobretudo ópera, onde colecionou elogios por O Grande Macabro, de Ligeti, e, entre outras, seu carro-chefe, Lulu de Alban Berg. Barbara também rege. Tem feito concertos memoráveis, como um de janeiro de 2016 com a Orquestra de Gotemburgo em que inicia com a emocionante canção a cappella de Luigi Nono Djamila Boupacha (1962), militante da Frente Nacional de Libertação da Argélia, presa e torturada pelo exército francês (ela teve seu retrato feito por Picasso). De repente volta-se para a orquestra e ataca a Sinfonia nº 49 de Haydn, La Passione, uma escolha cirúrgica: esta é a mais sombria de suas 104 sinfonias; até o minueto transpira desespero.

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A maior surpresa do CD é que Barbara rege a difícil Suíte Lulu, da ópera, que Berg deixou inacabada ao morrer em 1935. Deve ter ensaiado muito com os músicos, e mesmo assim não dá todas as entradas; só quando não canta. Sua regência não é lá muito plástica; mas funciona. Seria demais exigir que tivesse a sutileza das versões mais badaladas, de Pierre Boulez ou de Claudio Abbado (a melhor). O DVD-bônus traz o dispensável documentário Music is Music. Mas no youtube dá pra assistir à sua performance – sensacional, espantosa, ora regendo, ora de frente para a plateia, e continuando a reger os ótimos músicos holandeses da Ludwig Orchestra (um tributo ao primeiro nome de Beethoven).

Barbara tece um adorável jogo de espelhos a partir da personagem Lulu. No texto do encarte, escreve que “Lulu é um espírito livre (...) ela me inspira força e audácia, e brilha com uma magnificência dolorosa (...) No final da ópera, ela se lembra de que, aos 15 anos, passou três meses no hospital, longe dos olhares e das mãos dos homens”. Foi esta Lulu de 15 anos que a inspirou na Sequenza III de Luciano Berio, composta em 1965 para sua mulher, a genial Cathy Berberian. Sem imitá-la, Barbara transpõe a Sequenza para regiões mais agudas, emulando a voz da adolescente.

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Como em Nono-Haydn, aqui o itinerário inicial é Berio-Berg. Das cinco partes da suíte, Barbara canta em duas (é obrigatório degustá-la multiplicando-se em cena no youtube).

A terceira peça completa este fascinante jogo de espelhos: Girl Crazy Suite parte da admiração de George Gershwin por Berg, com quem se encontrou em Viena em 1928. Pouco antes, em Paris, assistira a uma montagem de Wozzeck, a primeira ópera de Berg; na viagem de trem entre Paris e Viena, estudou a partitura da peça, que havia comprado. Lá chegando, foi presenteado pelo compositor com uma sessão privé do Quarteto Kolisch tocando a Suíte Lírica. Voltou à Broadway apaixonado por Berg; pendurou na sala de seu apartamento em Manhattan uma foto dele autografada ao lado de uma de Jack Dempsey e seu par de luvas de boxe. Além dos souvenirs, também levou na frasqueira novas harmonias e climas bergianos que usou em sua ópera Porgy and Bess, de 1935.

O derradeiro link é o fato de Barbara, aos 15 aninhos, ter cantado numa montagem escolar do musical Girl Crazy de Gershwin. “A ligação aqui”, diz Barbara, “é o conceito de seres humanos mergulhados em amores loucos e obsessivos”. E revela que se imagina – no início lento da suíte feita a quatro mãos com Bill Elliott e por ele orquestrada com a mesma instrumentação da suíte Lulu – como Geschwitz, que na ópera de Berg é uma lésbica apaixonada por Lulu e não correspondida. 

A orquestração é um deslumbre de sutilezas. As quatro primeiras notas emitidas por Barbara são as de But not for me, a primeira das canções. Elas permeiam a suíte. Depois de um intermezzo instrumental, Strike up the band, engatam outro clássico do musical, Embraceable You, onde os músicos da Orquestra Ludwig cantam em delicioso backing vocal para Barbara. O clímax acontece com os clarinetes voltando àquelas quatro notas iniciais anunciando I Got Rhythm (corra pro youtube). 

Entre as reações a este excepcional Crazy Girl Crazy, a que mais me chamou a atenção foi a do inglês Philip Clark: “A música clássica não precisa mudar; só precisa de mais músicos como Barbara Hannigan”. 

Pois, acrescento, ela faz a costura exata para dar sentido à música contemporânea fazendo-a ser um dos elementos estruturais, e não indesejável intrusa, deste fascinante jogo de espelhos que é a música. Como Berg tranquilizou o hesitante Gershwin, com medo de tocar diante do grande mestre europeu, “Música é música”. Só – e tudo – isso.

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