ERICA COLAÇO
ERICA COLAÇO

Som a Pino: ‘Mais um ano se passou...’

Sempre me perguntam sobre essa coluna: “Você escreve só sobre música?”. E tem como?

Roberta Martinelli, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2017 | 03h00

Um ano dessa coluna. Passou tão rápido que eu nem vi... mas também foi tanta coisa no Brasil (no mundo todo... mas, para falar só de nós... no Brasil foi porrada atrás de porrada) que é natural que a gente não perceba o tempo que passa. E eu escrevo sobre música, qual a importância da música no tempo em que estamos? Poxa! Mais do que importante, a arte é fundamental. Tem dias que nem preciso falar nada pois tudo é e será cantado e o que não falta é repertório para o momento que estamos passando. O maior exercício para mim aqui é ficar aberta para perceber o que importa escrever. O que é preciso falar? O que não pode passar? Pois, agora é preciso falar. 

O mundo assim do jeito que está... arte censurada, governantes apoiando a censura, preconceitos travestidos de bons costumes, e ai! Tanta coisa que dói escrever. E as pessoas foram para as ruas, foram para as ruas, foram para as ruas e cada dia um problema. “Isso não pode ser! Temos que gritar.” Mas foram tantas coisas que não podiam ser que a verdade é que se fôssemos para a rua protestar cada vez que algo bizarro acontecesse, estaríamos por lá, sem volta! 

E num momento assim, a arte é fundamental, não à toa, estão tentando marginalizar artistas a todo custo, fingindo que estão protegendo a moral e os bons costumes, mas estão mesmo tentando enfraquecer algo muito importante nessa luta. “E, baby, eles não vão vencer!”

Por isso, sugiro nessa coluna de 1 ano algumas canções feitas para o nosso tempo. Podemos começar cantando todo o disco do Douglas Germano que, não por acaso, leva o nome de Golpe de Vista, e foi lançado em 2016 com tantos sambas que falam das coisas do mundo: “Tanta solidão, tanta servidão! E a gente cada dia mais feliz...”. Criolo também fez um disco de samba, entre as faixas tem Menino Mimado, sabe a letra? “Meninos mimados não podem reger a nação.” 

E Chico Buarque? Ahhhh, Chico lançou um disco este ano, e eu torci tanto para ser um disco político e tá tudo lá, ouve quem quer, destaque para As Caravanas e o grito do outro lado: “Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria, filha do medo, a raiva é mãe da covardia ou doido sou eu que escuto vozes, não há gente tão insana” e a ironia com que essa frase é cantada: “Não há gente tão insana” certeza que foi o Sol. 

E tem Flutua de Johnny Hooker com participação da Liniker, para que a gente consiga amar sem temer e dançar enquanto passamos por essa fase. “Eles não vão vencer, baby, nada há de ser em vão, antes dessa noite acabar dance comigo a nossa canção!”

Curumin lançou o disco Boca e na faixa Boca Pequena Parte 1: “Entre o trono de rei e o banco do réu, passeia o neo-coronel cheio de falsas bandeiras, apertando maços de garoupa na carteira, diabinho batucando no ombro ele samba na cara da sociedade”.

Mostrei alguns exemplos, mas para mostrar todas precisaria do Caderno 2 inteiro. 

Sempre me perguntam sobre essa coluna: “Você escreve só sobre música?”. E tem como?

Música da Semana

‘Despertador’ 

Nina Becker lançou o disco Acrílico e como o tema da coluna de 1 ano é repertório de canções para os dias atuais, destaco a faixa Despertador, parceria dela com Kassin e Pedro Sá. Na música, ela relembra de coisas do nosso cotidiano: o vento na janela, a roupa para lavar e panelas batendo (não gosto de lembrar).

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