Sérgio Neves/AE
Sérgio Neves/AE

Solistas cancelam concertos com OSB

Em represália à demissão de músicos, os pianistas Nelson Freire e Cristina Ortiz desmarcam datas com a orquestra

Roberta Pennafort - Estado de S.Paulo,

04 Abril 2011 | 16h48

Deflagrada há três meses, a crise na Orquestra Sinfônica Brasileira se agravou nos últimos dias, com a decisão dos pianistas Nelson Freire e Cristina Ortiz e do maestro Roberto Tibiriçá de cancelar as participações em concertos previamente acordados, em solidariedade aos 41 músicos que estão sendo demitidos.

No dia 6 de agosto, Freire, nosso nome de maior projeção no exterior, abriria a temporada da OSB, no Municipal do Rio, tocando Schumann num concerto sob a regência do maestro Roberto Minczuk. Diretor artístico da OSB, ele é o mentor das avaliações de desempenho impostas aos instrumentistas que desencadearam as demissões (por justa causa, dos que não a aceitaram). No dia 10, com o maestro alemão Kurt Masur dividindo o púlpito com Minczuk, Nelson tocaria Beethoven.

Ontem, de Paris, o pianista, que há 55 de seus 66 anos se apresenta com o mais tradicional conjunto sinfônico do País, enviou e-mail lacônico a Minczuk e ao presidente da Fundação OSB, Eleazar de Carvalho Filho: "Lamento comunicar que estou cancelando minhas apresentações com a OSB previstas para agosto de 2011".

Ele vinha acompanhando o noticiário sobre a revolta dos músicos, que entendem o processo de avaliação como algo arbitrário e mal formulado, e que espalharam o passo a passo da crise, em blogs e redes sociais, graças ao apoio de colegas estrangeiros. No sábado, em artigo publicado no C2+Música, o violoncelista brasileiro radicado na Suíça Antonio Meneses já havia se posicionado em favor dos músicos.

Também da Europa, Cristina Ortiz mandou sua posição de suspender a vinda para o concerto de 30 de abril no Teatro Municipal, com a OSB Jovem. Foi ela quem persuadiu o maestro Tibiriçá a engrossar as fileiras a favor dos músicos.

"Desde fevereiro tento convencê-lo. Fui convidada para tocar sem saber da suspensão da OSB, e fiquei incrédula com o desenrolar dos acontecimentos. A dor deles também é minha", disse, em e-mail enviado à reportagem do Estado.

"A situação está alcançando uma magnitude certamente inimaginável. As medidas estão disfarçadas como uma procura por um orquestra de ouro... É muito triste que por uma simples falta de humildade ou orgulho tanta infelicidade seja causada. Sem músicos não existe nem orquestras nem maestros!"

Como Nelson Freire, Cristina começou a tocar com a OSB aos onze anos. Tibiriçá, ex-regente da Petrobrás Sinfônica, tem ligação forte com a história da orquestra por ter começado seus estudos com o maestro Eleazar de Carvalho, que foi um dos grandes regentes da OSB e pai do atual presidente da FOSB. Tibiriçá disse preferir não dar entrevista para não acirrar os ânimos.

Ontem, a fundação - que sustenta que o objetivo da avaliações nunca foi demitir mas, sim, elevar a qualidade a ponto de transformar a OSB numa "referência em excelência musical no Brasil", conforme defendeu Eleazar de Carvalho Filho em artigo publicado ontem no Caderno 2 - informou que iria procurar os três artistas.

Sem os 41 demitidos, que deverão ser substituídos por músicos contratados após audições marcadas para maio no Brasil e no exterior, a OSB ficou com dois naipes "extintos": trombones e trompetes. O de oboés e de contrabaixos estão bem comprometidos.

 

ENTENDA O CASO

A posição dos músicos

Convocados pela Fundação OSB para provas de avaliação, cerca de 40 músicos do grupo se recusaram a obedecer, afirmando que as provas tinham caráter autoritário e que o objetivo era uma demissão em massa. Eles tentaram na Justiça reverter a obrigatoriedade das provas, mas não conseguiram. Pelo não comparecimento, os artistas devem ser demitidos.

A posição da fundação

Segundo a direção da orquestra, as provas não tinham como objetivo demissões. Além de fornecer um feedback individual, o processo também ofereceria a cada músico, garante, a possibilidade de reposicionamento dentro dos naipes. A fundação ressalta ainda que tentou diversas vezes negociar, sem sucesso, com os músicos, oferecendo inclusive um plano de demissões voluntárias.

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