ALEX SILVA/ESTADÃO
ALEX SILVA/ESTADÃO

Sérgio Machado liberta-se de todas as convenções do jazz

Baterista da cena mais criativa da canção moderna de São Paulo lança disco autoral durante festival Nublu, no Sesc Pompeia

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2017 | 04h00

O baterista Sérgio Machado acaba de virar a chave de uma carreira jovem de trajetória veterana. Sérgio começou cedo, em casa, vivendo sob a liberdade artística do pai, o compositor e violonista Filó Machado, e seguindo por um caminho de instrumentista precoce. Sua virada é menos sutil do que parece. De instrumentista, colaborador de trabalhos da cena mais fresca da música paulistana, o músico de 36 anos se torna compositor, vai para a frente e assume uma sonoridade densa, corajosa, vanguardista.

Plim é o nome do projeto solo que Machado apresenta nesta sexta-feira, 7, como uma das atrações do Nublu Jazz Festival, do Sesc Pompeia. Ele divide a noite com o grupo norte-americano The Cookers, formado por nomes de respeito como Cecil McBee, Eddie Henderson, David Weiss, Donald Harrison, Stephen Scott, Craig Handy e Billy Hart.

A construção da sonoridade de Machado é acumulativa. Ela vem desde os anos em que começou, menino, ao lado do guitarrista mineiro Toninho Horta, segue pelos palcos e estúdios, de quando esteve com Dominguinhos, com o pianista Laércio de Freitas, o trombonista Raul de Souza, o baixista Ron Carter, o saxofonista Proveta, e resume os valores que o pai lhe passou por via intravenosa e emocional. Filó ainda ouve de tudo. De música clássica russa ao pop inglês, e essa elasticidade foi logo entendida pelo filho. “Ele nunca estipulou nada, jamais proibiu um gênero. Assim, sempre pensei em música instrumental mais abrangente, algo que se comunicasse com outras sonoridades consideradas estranhas.”

A carga toda que carrega da música mais tradicional brasileira não é o que surge na primeira camada quando se ouve Plim. O disco é muitas vezes experimental, com caminhos mais de desconstrução harmônica e rítmica do que de coesão. E aí chegam à sua identidade o produtor eletrônico Flying Lotus e os trilheiros Antonio Pinto, Beto Villares e Gui Amabis. É mais por aí que parte hoje o pensamento do baterista, fazendo uma música brasileira que soa de acordo com o que a produção do Nublu gosta de escalar, um jazz de vanguarda, que aponte caminhos fora do meio convencional.

“Eu tenho trabalhado muito, de três anos pra cá, com artistas dessa cena independente de São Paulo. Uma galera acostumada a se virar mesmo sem projeto, sem dinheiro, sem querer montar um castelo. Foi assim que comecei a pensar nesse disco e a produzi-lo em casa.”

A abertura, com Floresta, é de assustar as devoções harmônicas de Filó Machado. Algo como um free jazz, uma tensão nos desencontros e mesmo nos reencontros entre o sax e a flauta de Thiago França, o trompete de Amilcar Rodrigues e o trombone de Allan Abbadia. Uma viagem sem destino certo. O segundo tema, por vir de uma outra visão instrumental, já tem mais chão. Cha Cha Malícia é composição do guitarrista Michel Leme. Arabesca e mântrica, tem de novo a bateria de Machado na condução e na criação do clima. Ela vai se comportar assim na maior parte do álbum, quebrando a ideia de um disco de baterista com solos intermináveis de bateria. “Eu quis ir justamente contra essa ideia.” O trompete que improvisa é do espetacular Sidmar Vieira, as flautas de Josué dos Santos, o trombone de Paulo Malheiros e a guitarra, de Fê Stok.

O Homem e o Rato tem letra do parceiro de criação, o rapper Criolo, que também atua fora de sua jurisdição mais confortável. Ele canta sobre uma base de flugel horn, flautas e guitarras, além do violão, percussão e bateria tocados por Machado. Mais gente chega para participar das outras faixas, colaborando para a sonoridade livre procurada pelo baterista. Antonio Loureiro toca vibrafone em Aerolitos; Tulipa Ruiz canta e Guilherme Held toca guitarra em Gelo; Ricardo Herz coloca violino em O Homem e o Rato. Depois de uma consolidada cena na música cantada, uma turma mostra colaborações também na construção de uma sonoridade instrumental. 

Nascido na Vila Mariana, Sérgio Machado caiu na noite aos 17 anos, mais precisamente na casa de shows Confraria, “nos moldes antigos da boemia paulistana”, como ele diz. “E foi lá que eu comecei, tocando de Dolores Duran a Cartola.” E sobre a reação do pai com relação ao resultado final do disco? “Ele sorriu ao ouvir algumas músicas. Eu entendo que existam coisas estranhas a ele, que é um professor da harmonia brasileira. Mas um filho não pode ficar só na influência do pai. Este é o lugar onde eu estou agora.”

NUBLU JAZZ FESTIVAL

Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93. Tel: 3871-7700. 6ª (7) e sáb. (8), às 21h30; dom. (9), às 19h.  

R$ 15 a R$ 50. 

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