Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » 'Se a gente não voltasse à ativa agora, talvez nunca mais', diz líder do Eagles of Death Metal

Música

Vilhelm Stokstad|Divulgação

ENTREVISTA: Jesse Hughes

Cultura

Eagles of Death Metal

'Se a gente não voltasse à ativa agora, talvez nunca mais', diz líder do Eagles of Death Metal

Jesse Hughes e a banda, que é atração do Lollapalooza 2016, fala sobre os atentados sofridos em Paris, no fim de 2015

0

Pedro Antunes

11 Março 2016 | 06h00

O som dos primeiros disparos foram abafados pelas guitarras de Eagles of Death Metal. Os tiros seguintes, não. Foram ouvidos em alto e bom som. Um a um, os integrantes da banda norte-americana percebiam o que estava acontecendo diante de si. A noite de 13 novembro de 2015, uma das mais sangrentas da história da França contemporânea, aconteceu diante dos olhos de Jesse Hughes e companhia. Saltaram corpos de mortos e feridos (na contagem final, 89 pessoas perderam suas vidas no atentado terrorista e mais 200 com algum ferimento) para conseguir escapar da casa de shows Bataclan. Nick Alexander, gerente de merchandising da banda, morreu nos ataques. 

O que Hughes viu ali, nunca vai esquecer. Mas é preciso superar o trauma. Três meses depois, ele e o restante do Eagles of Death Metal (banda criada por ele ao lado do amigo de infância Joshua Homme, líder do Queens of the Stone Age, embora eles não costumem dividir o palco nas turnês do EODM) voltaram à capital francesa para completar a performance interrompida à bala, naquele que foi o “show mais intenso de sua vida”, como ele disse ao telefone, em uma entrevista exclusiva ao Estado, na tarde de quinta-feira, dia 10. 

O Eagles of Death Metal e uma das atrações do festival Lollapalooza 2016, realizado nos dias 12 e 13, os próximos sábado e domingo. A banda se apresenta no ingrato horário das 15h05, no palco Onix. Depois, na terça, 15, eles encabeçam uma Lolla Party, festa com shows paralelos ao festival, no Cine Joia, a partir das 21h30. Hughes falou sobre o que fez para superar o trauma de ver fãs da banda assassinados durante um show e a relação com Josh Homme. 

Jesse, ontem (quarta, 9), vocês+ se apresentaram em Bogotá, é isso? Ainda estão na Colômbia? 

Sim, estou na porta do hotel, neste momento. E até agora não consegui esquecer o show de ontem. Foi nossa primeira vez aqui e as pessoas ficaram muito animadas. Quando você faz um show de rock e encontra uma plateia dessas, é como vencer uma guerra, cara.

É bom ver a banda na ativa, depois de tudo o que aconteceu. Por falar nisso, posso fazer logo algumas perguntas sobre os atentados, para depois seguirmos em frente? 

É claro, cara. Vamos lá, estou pronto para falar sobre isso. 

Entendo que em situações extremas, esses traumas, esses encontros com uma violência tão absoluta, deixa algumas marcas, algumas fobias. Você experimentou isso? 

Nossa, definitivamente, todos nós passamos por uma experiência assim. E precisamos lidar com o que aconteceu. 

E o que fizeram? Terapia? 

É exatamente isso, cara. Todos os integrantes da banda entraram na terapia assim que voltamos para casa. Mas eu preciso dizer que temos muita sorte. Somos muito unidos, uma família, mesmo. E somos, na maioria, católicos, então temos uma conexão muito próxima. Tenho feito terapia desde que tudo aquilo aconteceu. E, é assim, não tem outro jeito. É algo que precisa ser feito. 

Quando percebeu que já estava preparado para voltar ao palco? Quero dizer, três meses separam o show do Bataclan e o retorno de vocês, em fevereiro. É um período de tempo curto até pelo que vocês passaram naquela noite. 

Vou dizer uma coisa, eu precisava voltar ao palco. Estando pronto ou não. Entende? Eu coloquei isso na minha cabeça, que queria voltar, porque eu não queria deixar que os caras maus, os vilões dessa história, achassem que eles realmente tinham ganho no fim das contas. E ganho de mim também. Isso não podia acontecer. 

Aquilo mudou a forma como a banda é vista, não? 

E isso também influenciou na vontade de voltar ao palco. Eu acho que o que aconteceu colocou mais responsabilidade nos nossos ombros, cara. As pessoas olham para a gente e buscam algum tipo de liderança. E eu assumi essa responsabilidade. Isso, aliás, me ajudou a colocar tudo o que aconteceu para trás. Eu pensei que se não conseguisse colocar minha banda de volta no palco naquele momento, nunca mais a gente se apresentaria. 

Em 16 de fevereiro, três meses depois do atentado, vocês voltaram a Paris, para um show no Olympia. O que aquele momento representou para vocês? 

Posso dizer uma coisa. Foi um show diferente de qualquer outro. Definitivamente, um dos mais intensos que já tivemos. E foi desesperador também. Mas havia milhares de pessoas ali, além de umas outras centenas que haviam sobrevivido ao tiroteio. Havia um senso de responsabilidade lá dentro. Nunca vi algo assim. 

O nome de vocês já integrava o Lollapalooza Brasil quando ocorreu o atentado. Alguns temeram que vocês cancelassem o show. Mas, não, o EODM voltará depois de nove anos a São Paulo.

Eu até entendo. Mas não queríamos que isso acontecesse. Eu lembro bem daquele show. Quebrei a minha guitarra naquele show. É curioso porque aquela apresentação foi muito maior do que eu esperava. Acho que trouxe uma nova confiança para a gente. Acho que devo muito àqueles que foram ao show e nos deram tanto amor. Foi um presente. 

São sete anos entre um disco, o Heart On (2008), e o recente, Zipper Down (2015). Foi algo planejado, dar um tempo na banda? 

É curioso, porque a gente não ficou pensando em quanto tempo existia entre um disco e outro. Sabe, fundamos essa banda, Josh e eu, para que pudéssemos ficar juntos. Lançamos o Heart On e depois fui fazer um disco solo, Josh foi fazer outra banda. Resolvemos fazer Zipper Down porque queríamos passar um tempo juntos, de novo. Então, marcamos um tempo no estúdio e lá fomos nós. 

Vocês dois assinam grande parte das canções. 

Sim, mas sou eu quem compõe grande parte do material. Eu levo as demos, as canções. E nós trabalhamos com elas em estúdio. Ele vai escolhendo o que gosta. Josh é o melhor produtor que já vi. 

Vocês são amigos desde a infância. Como funciona essa dinâmica que tem tanta intimidade? 

É uma diversão só. A gente ficou no estúdio por seis meses para fazer Zipper Down. Mas, na verdade, gravamos tudo em duas semanas e, no resto do tempo, ficamos aproveitando a companhia um do outro, brincávamos com avião de controle remoto, essas coisas. 

+ Quiz do Lollapalooza: De quem é essa música?

O título do álbum, essa ideia de ‘abaixar o zíper’, diz muito sobre o espírito desse disco. 

Completamente. O melhor jeito de ver garotas peladas é abrindo o zíper, não é? Outra interpretação é de se levar a vida de uma forma mais relaxada. 

Você era jornalista político antes. Por que nunca houve mensagens politizadas nas músicas? 

Ah, não vamos dizer em quem você vai votar ou sobre aquecimento global. Queremos que vocês festejem com a gente. 

As pessoas já pararam de perguntar se o Josh Homme vai fazer o show com vocês? 

Não, elas ainda perguntam. Mas não vai. Propus um trato com ele. Se me deixar tocar na banda dele (o Queens of The Stone Age), deixo ele tocar na minha. Sem falar que não ia querer dividir a atenção das garotas com ele. Não posso deixar isso acontecer. 

Você tem uma namorada, esposa, coisa assim, não? Ela não briga por você falar essas coisas?

(Risos). Sim, é verdade, cara. Vou casar em breve e ela não fica nada feliz com isso, mesmo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade
Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.