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Salif Keita, uma lenda do Mali, será atração do festival Mimo

Julio Maria - O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2014 | 03h 00

Festival que começou neste final de semana em Ouro Preto vai contar com o albino na passagem do evento por Paraty

Salif Keita é um nó no destino, uma vingança do impossível. Mais branco entre os negros de Djoliba, no Mali, nasceu albino há 65 anos e com o peso da maldição. Seus pais sofreram para tirar da cabeça dos vizinhos que ele não deveria ser morto. Era uma criança diferente, não uma aberração. “Minha infância foi muito difícil por causa do meu albinismo”, conta ao 'Estado'. Decidiram, então, mandá-lo para o ostracismo.

Mais tarde, Salif resolveu ser músico, e outra montanha se ergueu. O branco negro tinha sangue azul. Descoberto como o mais nobre entre os nobres, descendente direto de Sundiata Keita, fundador do império Mali, ele não poderia cantar nem tocar nenhum instrumento - tais funções só poderiam ser desempenhadas pelos griots, os cantadores africanos. “Meu pai era contra o fato de eu fazer música e, especialmente, de cantar. Isso porque eu vinha da nobre família dos Keitas, que não podiam cantar”.

Salif Keita é, assim, um milagre. Canta com o que os africanos chamam de “a voz dourada do Continente” e cria o que o mundo reduziu por anos a “world music”. Ao Brasil, ele chega em breve para se apresentar em apenas um palco: às 24h30 do dia 11 de outubro, na Praça da Matriz de Paraty, de graça, durante a passagem do festival Mimo pelo sul do Rio. Os primeiros shows são realizados neste final de semana, em Ouro Preto (MG).

Salif vai mudar de rumo, saindo das sonoridades cheias e por vezes sintetizadas para voltar aos genes africanos. “Durante o concerto no Brasil, vocês vão descobrir mais sobre o ‘malinke’ e o ‘mandingo sounds’, que são gêneros 100% africanos. O grupo que vai me acompanhar (quatro instrumentista e duas cantoras) é composto por músicos da tradição acústica, que usam instrumentos como kora e n’goni”.

A saga do nobre Keita segue de sua cidade natal, Djoliba, para Bamako, a capital do Mali. Foi lá que, em 1973, ele se associou a respeitáveis músicos para formar a big band Les Ambassadeurs. Se os companheiros não ficaram com receio de admitir um nobre?: “Eles sabiam que eu havia saído de uma família real”.

O Mali tem Salif e tem o blues. Em um documentário feito sobre a música que brota do chão deste país da África Ocidental, o guitarrista mexicano, Carlos Santana, definiu o que alguns estudiosos já farejavam: “Antes de ser norte-americano, o blues é africano.” E não só no sentido poético. Antes que o gênero fosse definido pelos negros no Sul dos Estados Unidos, registros apontam que as estruturas do blues, como as escalas pentatônicas, já eram usadas pelos griots. Salif fala sobre isso: “O blues foi criado pelos descendentes negros, filhos dos escravos mandandos para as Américas à força na época da escravidão. E eu posso dizer sem nenhuma hesitação que o blues nasceu na África.”

Grupos de São Paulo passaram mais recentemente a olhar para a música africana dos anos 70 e a usá-la como referência em suas identidades. Para Salif, essa transcendência cultural tem um nome: o nigeriano Fela Kuti (morto em 1997). “Fela fez muito por nossa música e, principalmente, ajudou a nossa cultura a se tornar conhecida pelo mundo todo”. Se em sua opinião, os brasileiros poderiam aproveitar para conhecer outros grandes músicos africanos? “Sem dúvida, sobretudo pesquisando todos esses artistas que ainda conseguem tocar em casa.”