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'Sagração da Primavera' ganha swing refinado em CD

João Marcos Coelho - ESPECIAL PARA O ESTADO - O Estado de S. Paulo

08 Junho 2014 | 20h 02

A convite da Duke University, trio The Bad Plus faz versão criativa, mas sem banalizar obra-prima de Igor Stravinski

 As batidas de um coração pulsam enquanto o piano repete uma nota com calma e teimosia. Aos poucos, a pulsação dá lugar à famosa frase que abre a Sagração da Primavera

Sutis manipulações eletrônicas distorcem o timbre do piano acústico. Na medida em que a música caminha, a eletrônica começa a se impor; distingue-se um som de bumbo aqui, uma escova ali. De repente, o piano soa preparado. As notas estão todas aqui. As mesmas da partitura a dois pianos que Igor Stravinski (1882-1971) tocou a quatro mãos com Claude Debussy (1862-1918) para Serguei Diaghilev (1872-1929) e Vaclav Nijinsky (1890-1950), em 1912.

Tudo clareia com os acordes pesados repetidos da procissão. Trata-se de um trio piano-baixo-bateria. Os autores da façanha são formidáveis: o piano segue praticamente o discurso da partitura a dois pianos de Stravinski; o contrabaixo ocupa o que seria o enorme espaço das cordas graves e metais; a bateria substitui a parafernália percussiva do original. 

Seria apenas mais uma piada de mau gosto com a Sagração. Seria, mas não é. Convidado em 2010 pela Duke University, em Durnham, na Carolina do Norte, The Bad Plus, o mais irreverente e atrevido trio da atualidade, trabalhou na Sagração e criou The Rite of Spring, CD lançado pela Sony Masterworks. 

Ethan Iverson, o pianista, ficou com a parte do leão e a chamada missão impossível de reduzir ao essencial, mas nunca banalizar a obra original; Reid Anderson, o contrabaixista, não só pilotou o instrumento; manipulou com parcimônia a eletrônica; e o baterista David King tratou de deglutir a polirritmia esfuziante dos rituais da primavera russa.

Depois do ano sabático dedicado à Sagração no câmpus universitário da Duke, em Durham, na Carolina do Norte, eles testaram, corrigiram e enriqueceram a sua versão em 30 apresentações públicas. Os espaços para improviso quase não existem. É praticamente um milagre. Quem conhece a partitura se espanta com a fidelidade do trio; quem não a conhece, encanta-se com a força desta execução. Não é fácil adicionar à Sagração pitadas refinadas de swing, lambuzar-se educadamente nas dissonâncias stravinskyanas e construir uma versão que soa “em casa” tanto num festival de jazz como numa sala de concerto.

É óbvio que a força do original está na escrita monumental. Reduzi-la a piano-contrabaixo-bateria é mesmo impossível. Mas a sombra cósmica da orquestra rebate nesta versão minimalista sem desqualificá-la. E, convenhamos, é eletrizante assistir a este embate tipo Davi-Golias com a obra-prima que em 1913 deu o mote à música do século 20. Sobretudo quando o pequenino tem o talento dos três integrantes do Bad Plus.

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