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JF Diório / Estadão

Rolling Stones entregam toneladas de memórias afetivas em volta a São Paulo

Ao 'corporativizar' o rock and roll, banda abre mão das novidades para cuidar dos fãs como clientes que pagaram caro para receberem o melhor

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Julio Maria,
O Estado de S. Paulo

24 Fevereiro 2016 | 23h18

Uma noite e Mick Jagger deixou tudo muito claro nas pouco mais de duas horas em que os Rolling Stones ocuparam o palco do Estádio do Morumbi, em sua primeira apresentação em São Paulo (a segunda e última será no próximo sábado, 27). Esta banda está na estrada há mais de 50 anos porque soube, mais do que qualquer outra expressão da cultura pop, 'corporativizar' o rock and roll que faz sem deixá-lo tornar-se um produto. 

A Stones Company não vende canções novas, não faz discursos políticos, não chama convidados surpresa e não se engaja em causas sócio-ambientais. Mesmo as músicas mais clássicas como Its Only Rock and Roll,  que contou com um solo de Keith Richards que é um verdadeiro tributo a seu mestre maior, Chuck Berry, são tocadas com uma fidelidade religiosa e um comportamento ritualístico. Keith sabe o que tem a fazer desde que quando tudo comeca com Start me Up. Mick Jagger vai dizer as mesmas palavras em português em quase todos os seus shows no Brasil. O público de São Paulo ganhou algumas a mais: "Tô tão feliz!  Beijinho no ombro!", disse para todos entenderem,  imitando o gesto de Valeska Popozuda (procura-se quem ensina essas genialidades para Mick). Os Stones estão na estrada há mais de 50 anos tocando para estádios com 65 mil pessoas porque esmagaram seus egos, anularam seus ímpetos criativos e se especializaram em entregar toneladas de memórias afetivas.

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Pode ser discutível, por exemplo, que ainda gostem de tocar Satisfaction ou Jumping Jack Flash depois de tantos anos. Mas, sob a administração Mick Jagger, elas estarão lá até o último dos shows. O cliente paga, o cliente leva. Há ali um certo exercício de desapego, um pacto de não se torturarem por deixarem de  fazer desafios a si mesmos e de abrirem mão de tocar lados B fenomenais de discos mais obscuros, posturas difíceis de imaginar em carreiras de outros ingleses na ativa, como Eric Clapton, Jeff Beck ou David Gilmour.

As mudanças também são calculadas. Durante toda a turnê Olé,  que estão fazendo apenas em grandes estádios, eles colocam quatro músicas no site oficial da banda para que o fã escolha qual deve entrar no repertório. A uma certa altura da noite, os telões mostram a frase: "E a vencedora é?" E eles anunciam: Bitch,  do álbum Sticky Fingers,  de 1970 (para muitos,  o melhor).

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Assim, blindados contra sustos e temporais, a noite segue em terrenos seguros. O padrão que atingem é assustador. O pouco que sai do controle é um atropelo de Mick Jagger sobre as guitarras de Keith e Ron Wood durante Start me Up,  na abertura, um solo sem nenhuma inspiração de Keith em Out o Control e uma engasgada que impede Mick de chegar à nota certa em Beast of Burden. No mais, não há o que corrigir na front sustentado pelo baixo de Darryl Jones,  que já tocou com Miles Davis,  e no piano de Chuck Level, que já gravou com o mundo do rock and roll. 

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Há um momento que os anos estão deixando mais emocionante. Quando Mick para o show, depois de Honky Tonky Woman,  para apresentar um por um, alguns filmes se passam pela memória e o pensamento intruso se torna inevitável. Esses homens que criaram roqueiros de três gerações estão envelhecendo e talvez não voltem para o Brasil. Charlie Watts, um dos maiores bateristas de rock que empunha as baquetas como um jazzista, está com 74 anos. Ron Wood,  que recebe uma ovação impressionante,  tem 68. E Mick mais Keith, que lideram a cena,  chegaram cada um aos 72. Cantam e tocam sua empresa como se soubessem que o tempo é curto.

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A concentração de Mick Jagger é algo absurdo. Nem um ET parece poder tirar o foco de seus olhos e dos movimentos de seu corpo. A entrega de Keith e de Ron Wood em Bitch, uma música nem tão boa assim, foi arrebatadora. E o poder de Charlie em fazer um castelo com quatro tijolos e dois pratos de bateria é único. Olhando bem se perto,  enquanto tocam Paint in Black, percebesse que os Stones,  na verdade, é uma banda pequena. Uma bateria sem frescuras e duas guitarras sem pedais de distorções mirabolantes levam alguns dias para parar de soar na memória, a tal memória afetiva que o caminhão da Stones Company acabou de entregar, mais uma vez, para sempre.

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