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REUTERS|Alexandre Meneghini

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Rolling Stones escrevem a história na ilha de Cuba

Banda fez show histórico gratuito na sexta para uma multidão; uma inexplicável área VIP foi montada na frente do palco

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Cláudia Trevisan - Enviada especial,
O Estado de S. Paulo

25 Março 2016 | 23h03

HAVANA, CUBA - “Sabemos que antes era difícil escutar nossa música em Cuba, mas aqui estamos. Os tempos estão mudando, não?”, disse Mick Jagger em espanhol, na primeira apresentação dos Rolling Stones na ilha. Com pontualidade quase britânica,o grupo subiu ao palco às 20h37, na Ciudad Deportiva, nesta sexta-feira, 25. Ostentando uma camisa rosa, Jagger se dirigiu várias vezes ao público com espanhol carregado de sotaque inglês. “Olá, Havana. Boa noite, minha gente de Cuba”, disse o vocalista, depois de abrir a performance ao som de Jumpin’ Jack Flash e It’s Only Rock’n Roll (But I Like It). “Aqui estamos finalmente. Tenho certeza de que essa será uma noite inesquecível.”

Os Rolling Stones fizeram história ao se tornarem a primeira grande banda de rock a se apresentar em Cuba, onde o gênero foi visto durante anos pelo governo como uma influência nefasta do imperialismo. Gratuita, a apresentação da banda foi o equivalente artístico da abertura econômica e política marcada pela visita do presidente dos EUA, Barack Obama.

 plateia era formada de pessoas de ate quatro gerações, de crianças a setentões. Tambem era marcada pela democracia econômica, com pedreiros ao lado de engenheiros e caixas de supermercado junto a médicos. O soldador Juant Carlos Lopez, de 52 anos, viajou 260 km de onibus ate Havana para ver o espetáculo, mas se queixou por não poder estar mais próximo do palco em razão da área VIP que ocupava a frente da área destinada a plateia, outro sinal dos novos tempos em Cuba. "Se somos todos cubanos, não deveria haver privilégio."

A realização do show foi um desafio logístico, em uma ilha que tem infraestrutura precária e pouca familiaridade com grandes eventos internacionais. As 500 toneladas de equipamentos foram despachadas em 61 contêineres e cerca de 200 pessoas trabalharam por duas semanas na montagem do palco. 

A tecnologia utilizada por Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ronnie Wood no palco contrastava com a que estava à disposição do público, submetido a uma experiência totalmente offline, sem possibilidade de publicação de fotos ou mensagens nas redes sociais. Celulares cubanos só se conectam à internet nos cerca de 40 locais de Havana que oferecerem Wi-Fi ao custo de US$ 2 por hora. Na terça-feira, o governo instalou uma conexão gratuita no estádio de beisebol onde Obama assistiu a uma partida, mas não repetiu a oferta com os Stones.

O show de rock com caracteristicas cubanas tambem era desprovido de banheiros quimicos. Os sanitarios eram caixas de metal colocadas sobre bueiros.

Os Rolling Stones foram a mais célebre banda de rock a se apresentar em Cuba, em um evento de proporções raras vezes vistas na ilha. Mas o show esteve longe de preencher todo o gramado destinado ao evento. Havia vários espaços vazios ao fundo e era possivel entrar e sair do local sem problemas. A decisão de fazer um show gratuito permitiu acesso dos cubanos ao espetáculo. Com um salário médio de US$ 20, poucos na ilha poderiam pagar o preço padrão dos ingressos dos ingleses.

Se for confirmada, a cifra só será inferior ao recorde de público já reunido em Cuba para um concerto ao ar livre. Em 2009, 1 milhão de pessoas foram à praça da Revolução para apresentação do colombiano Juanes, da porto-riquenha Olga Tañón e do espanhol Miguel Bosé, no show Paz sem Fronteiras.

Duas horas e 15 minutos depois, os Stones deram por encerrada a turnê latino-americana Olé, que incluiu o Brasil, com o clássico (I Can’t Get No) Satisfaction. O cubano Manuel Exposito, de 51 anos, acompanhado da mulher e do filho adolescente, define a importância da passagem dos Stones pela ilha. Fã da banda quando o rock era mal visto, ele e a família exibiam as camisetas com o símbolo da banda. “Achava que iria morrer sem ver os Rolling Stones”, disse.

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