JF Diorio/AE
JF Diorio/AE

Robert Plant demonstra coragem em show com o Sensational Space Shifters

Cantor expôs novos trabalhos e relembrou antiga banda; fãs queriam mesmo ouvir Led Zeppelin

Julio Maria - O Estado de S. Paulo,

23 Outubro 2012 | 17h51

Se pudesse mesmo, Robert Anthony Plant colocaria o passado em um saco plástico, amarraria suas pontas em uma âncora e o jogaria no leito de um rio. Não que o renegue, longe disso, mas sente por ele a mais irremediável repulsa quando se vê ajoelhado a seus pés, como um escravo diante do senhor. Se pudesse de verdade, Plant faria a ele não mais do que uma ou duas visitas por ano e mandaria um cartão de Natal. Seria melhor assim, um lá, o outro cá. Mas não. Isso só seria possível se Robert Plant fosse mais forte do que um gigante de quatro cabeças chamado Led Zeppelin.

O que se viu no palco do Espaço das Américas, na noite desta segunda-feira, 22, foi a coragem de um senhor de 64 anos desafiando 8 mil leões. Para certa frustração de boa parte dos fãs que lotavam a casa, Plant quer ser Plant, e não o líder de uma banda cover. Mas a conquista da liberdade dos dinossauros é um caminho ingrato. Quando os olhos e os ouvidos de suas plateias esperam anos para degustar do biscoito mais fino produzido pelo rock dos anos 70 - e seus bolsos pagam até R$ 400 para isso - é difícil pedir licença e convencê-las de que Plant e seu novo grupo, o Sensational Space Shifters, trazem algo inspirado "pela música de raiz do Mississipi, Appalachia, Gâmbia, Bristol e pelas colinas de Wolverhampton", como explicou seu guitarrista, Justin Adams, há um ano. A pesquisa é benfeita e o repertório sólido e respeitável, mas a impaciência é involuntária e, na hora do vamos ver, ela fala mais alto. "Ok, bacana, mas quando ele vai tocar Rock and Roll mesmo?"

O passado não vai para o saco porque Plant não é bobo e ainda precisa dele. O cartaz gigante que mandou fazer para ser colocado no cenário tem o rosto jovem e os cabelos fartos do vigoroso líder do Zeppelin, não as rugas e a camiseta de listras pretas e vermelhas que o senhor Plant adotou como um uniforme. A primeira imagem, claro, vende mais. E tudo o que tem feito com os jovens do Space Shifters, do rock com programações eletrônicas na entrada de Tin Pan Alley ao solo da rabeca africana de nome riti para uma Black Dog reconstruída, é possível graças à carta branca que a história lhe deu.

Quando os ouvidos rastreiam bem, encontram partículas do Led Zeppelin presentes o tempo todo, mesmo nos barulhinhos estranhos. Em sua nova viagem, depois de se juntar a músicos do Sul dos Estados Unidos para fazer uma temporada de rock country que incluiu shows, disco e DVD com a Band Of Joy, Plant foi sobretudo à África e ao Oriente Médio para construir um rock de clima árabe e um afroblues que seguisse o código genético de sua ex-banda sem lhe jurar fidelidade. Sempre que forma um novo grupo, Plant tem problemas que o passado lhe traz para resolver. Sem o poder dos riffs de Jimmy Page, coloca dois guitarristas, Liam Skin Tyson e Justin Adams, e ordena que não se atrevam a solar mais do que dois compassos por música. Sem o peso de John Bonham na bateria, recruta um bom baterista, Dave Smith, e o põe ao lado dos ‘reforços’ do teclado de John Baggott. Sem John Paul Jones e sua visão orquestral que nenhum baixista de rock conseguiu atingir, fica impossível. É melhor deixar o jovem Billy Fuller segurar as linhas retas dos novos arranjos e mudar o conceito do grupo. Ao fazer um show com 80% de músicas que não estavam no repertório do Zeppelin, Plant expõe o que é no Space Shifters e mostra o que foi no Led Zeppelin quando se juntava aos velhos amigos. Só poderiam ser dele as intenções de clima etéreo e apoteótico, nunca em tempos quebrados como gostava Bonham e jamais com a guitarra em primeiro plano, como impunha Page.

Plant sabe que os jovens de 30 anos ou mais espremidos à sua frente aplaudem cada uma de suas novas ousadias com generosidade, mas querem mesmo é ouvir Led Zeppelin. Ele parece brincar com o conservadorismo paradoxal de um público que deveria ser o mais liberal de todos se seguisse os fundamentos do próprio rock and roll. Ele enfileira canções desconhecidas por quase uma hora de show. Sabe que depois de qualquer menção ao Led, nada na noite será como antes. Pois então, depois da lisérgica e exigente Another Tribe, passa a distribuir os doces que guardou tanto tempo com Friends. A plateia o mastiga aos poucos, engole com certa dificuldade e pede mais. "Obrigado, São Paulo", ele diz. Faz então uma quase irreconhecível versão de Spoonful, de Howlin’ Wolf, e joga com Black Dog para logo finalizar com Whole Lotta Love. Sua volta é feita com o único momento em que as resistências são diminuídas, uma comovente Going to California. E o fim resume a ópera: Rock and Roll, a versão mais próxima à original, pungente no peito e com sangue nos olhos, faz a plateia e o próprio Plant se divertirem como adolescentes. Era só aquilo que todo mundo queria o tempo todo.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.