Frederico Mendes/Divulgação
Frederico Mendes/Divulgação

Raul Seixas tem dois discos inéditos lançados em box especial

Material traz ainda quatro relançamentos e um DVD

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2014 | 03h00

A 'Gravadora Eldorado', com produção do presidente do Raul Rock Club, Sylvio Passos, vai colocar nas lojas, no início de outubro, uma caixa com quatro discos de Raul Seixas lançados em LP nos anos 80 e dois inéditos, registrados durante duas apresentações, uma em 1974 e outra em 1981. Há ainda um DVD com um documentário de pouco mais de 20 minutos, mostrando o impressionante acervo guardado por Sylvio Passos e uma entrevista que Raul concedeu à Rádio Eldorado assim que foi contratado pela gravadora do 'Grupo Estado', em 1983. O nome do box explica a efeméride que justifica seu lançamento: '25 anos Sem o Maluco Beleza - Toca Raul!'.

Os quatro álbuns que já haviam sido lançados são 'Raul Seixas', de 1983, que acabou ficando conhecido como 'Carimbador Maluco'. Curiosamente, ao mesmo tempo em que Raul gravava seu primeiro disco no novo selo, a Globo o convidou para cantar a música Carimbador Maluco em um especial infantil. A música foi um estouro e a gravadora correu para incluí-la no LP que já havia sido lançado, colocando o single dentro do encarte.

'Raul Vivo', de 1993, traz a junção de shows que Raul fez nos ginásios do Palmeiras e do Corinthians, dez anos antes de seu lançamento. “Foi a primeira vez que os dois times se uniram e não deu briga”, diz Passos. O repertório traz sobretudo clássicos do rock and roll venerados pelo baiano, como 'Blue Moon Of Kentucky' (unida a 'Asa Branca'), 'Roll Over Beethoven', 'Blue Suede Shoes' e 'Be-Bop-A-Lula'.

O terceiro disco é 'Único e Exclusivo', também de 1993, que teve a produção de Aloízio Falcão e trouxe o que Raul dizia ser sua aula de rock and roll aos jovens. É ainda mais radical na proposta roqueira, sem as músicas do repertório tradicional de Raul. Dentre as faixas, aparecem 'My Baby Left Me' (Arthur Crudup), 'Ain’t She Sweet' (Jack Yellen/Milton Ager), 'So Glad You’re Mine' (Arthur Crudup), 'Do You Know What It Means to Miss New Orleans' (Louis Alter/Eddie DeLarge) e 'Roll Over Beethoven' (Chucky Berry).

E o quarto relançamento é 'Se o Rádio Não Toca', gravado em um show de 1974, feito em Brasília. Passos recebeu do próprio Raul uma fita com a inscrição ‘Brasília - 1974.’ A faixa título era uma surpresa, poucas pessoas haviam escutado Raul cantá-la. O álbum traz ainda 'Loteria da Babilônia', 'Água Viva', 'Lua Bonita', 'Monólogo', 'Sessão das Dez', 'Gita', 'Como Vovó Já Dizia', 'S.O.S'. e 'Metamorfose Ambulante'.

Absorvido pela idolatria, embriagado de veneração, Sylvio Passos tinha 17 anos quando descobriu o número do telefone da casa de Raul Seixas. Criou coragem, ligou e Raul atendeu em um estado alcoólico de transpassar os fios da Telesp e chegar do outro lado da linha. “Oi Raul, eu sou o Sylvio.” “Oi Silvio Santos. Sim, eu faço o seu programa”. Sylvio, sem saber do destino, explicou que não era dono de nenhum baú. Ainda não. E que só estava disposto a fundar um fã-clube para o cantor. Raul se empolgou com a ideia e pediu que o garoto fosse à sua casa.

O que houve foi o encontro de um guru com o garoto que se tornaria seu maior discípulo. Ou, como ele diz, seu segundo maior discípulo. “O primeiro foi o Paulo Coelho. Ele aprendeu tudo de comunicação de massa com Raul”, diz o hoje produtor e presidente do Raul Rock Clube, um dos maiores fã clubes do baiano. 

Passos, que pensava em estudar Jornalismo e Psicologia, largou tudo por aquela convivência. Rompeu com a família e a namorada para ouvir músicas, filosofar e até compartilhar das mesmas drogas de Raul. Não ganhou dinheiro mas herdou, provavelmente, o maior bem que um guardião poderia almejar. Está em seu poder, em uma casa na zona norte de São Paulo, o maior acervo de áudio, vídeo, documentos e objetos pessoais de Raul Seixas.

Ex-fã de Pink Floyd e Led Zeppelin, antes da grande conversão, Sylvio abre mais um compartimento de seu baú para lançar seis títulos do box '25 anos Sem o Maluco Beleza - Toca Raul!'. O legado garantido a ele pelo próprio cantor nos oito anos em que os dois tiveram uma convivência fraternal é bem maior. “Daria para eu lançar mais uns dez álbuns só de material inédito.”

O box de agora permite uma perspectiva interessante. Dentre os álbuns relançados pela 'Gravadora Eldorado', dois títulos oficialmente inéditos têm poder de fogo. Gravados ao vivo em momentos bem distintos da carreira de Raul, separados por um intervalo de seis anos, 'Eu Não Sou Hippie' e 'Isso Aqui Não É Woodstock. Mas Um Dia Pode Ser' escancaram o embrutecimento de Raul, a perda de leveza e, sobretudo, os sinais de uma visível decadência física.

'Eu Não Sou Hippie' foi gravado em 1974, em um show na cidade mineira de Patrocínio. Raul aparece descontraído, com a voz em dia. Canta 15 músicas, dentre elas 'Se o Rádio Não Toca', 'Cachorro Urubu', 'Não Pare na Pista', 'Let Me Sing, Let Me Sing', 'Metamorfose Ambulante', 'Sociedade Alternativa', 'Ouro de Tolo', 'Gita' e 'As Minas do Rei Salomão'. Mostra uma comovente 'O Trem das Sete', acendendo a lenda de que teria composto a música em Patrocínio. 

Sua fala em 1974 ainda era doce, apesar das contestações e dos questionamentos. Quando está explicando a origem indiana e o conceito da música 'Gita', prestes a ser lançada em LP, um fã arremessa no palco uma bala e ele pergunta com malícia: “É uma bala mesmo?” Canta depois 'Água Viva' e recebe outra bala. “Assim vou engordar”. Raul ainda não tinha a acidez que tomaria seus discursos. “Eu faço ioga, tenho que manter os meus 54 quilos sempre. Agora vou tocar uma, 'Sessão das Dez'. É um bolero, e eu nunca tinha feito um bolero. Um bolero daqueles de açougue, do cara com a dedeira na mão, quase arrebentando as cordas do violão”.

Depois de cantar 'As Minas do Rei Salomão', ele fala sobre o “hippismo”, o movimento do qual jamais fez parte. “O movimento hippie foi muito importante como abertura, mas por falta de estrutura, foi assimilado e engolido sabiamente pela engrenagem toda. Mas foi importante.” Ao estilo Raul, de frases enigmáticas e por vezes cifradas, conclui antes da próxima música: “Eu aviso a todo mundo que está aí a não parar na pista. Porque quem para na pista o caminhão atropela.”

Depois de 'Metamorfose Ambulante', percebe-se mais claramente que o público do Cine Teatro Patrocínio não se trata de nenhuma multidão. Sylvio Passos conta que em sua pesquisa, descobriu que havia ali não mais do que 30 pessoas.

A fita de rolo do show em Patrocínio foi entregue a Passos por um amigo em 2006, em Belo Horizonte, durante um evento em homenagem a Raul. “Quando cheguei em São Paulo, já em casa, abri aquele envelope que, entre fotos e recortes de jornais, me cai nas mãos uma fita cassete onde estava escrito ‘Raul Seixas Ao Vivo em Patrocínio 1974’. Coloquei a fita pra rodar em meu tape-deck Marantz e logo no início me arrepiei todo”, narra no encarte do disco.

O álcool e as drogas trabalhavam pesado no corpo e na mente de Raul até que chegou o show de 1981, a segunda das quatro edições do Festival de Águas Claras realizado em Bauru, no interior de São Paulo. O clima era de Woodstock brasileiro, com atrações que iam de Gilberto Gil e Alceu Valença a Hermeto Pascoal e A Cor do Som. Antes da apresentação de Raul, Luiz Gonzaga, um de seus ídolos, avistou do palco uma cena que o impressionou, uma multidão de jovens alucinados. Não por acaso, Passos abre o disco com uma declaração que Gonzagão fez neste momento: “Essa aí é que é a Sociedade Alternativa, é essa aí? Então Raul, você está com a razão. Eu também estou me alternando.” E então, na montagem de Passos, entra Raul cantando 'Rock do Diabo'.

Raul já está mais contaminado pelas maldades do mundo. Não existe mais a sutileza e o sotaque suave é trocado por uma voz grave, mais rústica e de andamento arrastado. Com revolta, ele manda um recado para o então ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão do Brasil: “Uma proposta para Delfim Netto: alugar essa porra aqui”, diz, antes de cantar Aluga-se. E, depois de 'Como Vovó Já Dizia', termina com um “quem não tem colírio usa óculos escuro é a grande solução desta p...” 'O Rock das ‘Aranha’' começa com a frase arrastada, de voz mole: “É o seguinte: existe censura política que pode alugar o Brasil, mas não existe censura moral.” E 'Sociedade Alternativa', mais lenta que a versão do disco de estúdio, termina o show, claro, depois dos mandamentos declamados da tal sociedade. “O homem tem o direito de viver sua própria vontade. De trabalhar como quiser, de gozar como quiser, de descansar como e quando quiser.”

Sylvio Passos observa que o caminhar de Raul à beira do abismo: “Com o passar do tempo, ele foi ficando mais punk, mais raivoso, consequências de suas frustrações pessoais e de seu abuso do álcool.” Em mais oito anos, o personagem Raul devoraria o homem Raul.

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