Rapper Azealia Banks recheia versos com raiva

Às voltas com polêmicas, norte-americana volta ao Brasil para mostrar o álbum ‘Broke With Expensive Taste’

Pedro Antunes , O Estado de S.Paulo

12 Junho 2016 | 06h00

Antes de Azealia Banks ser conectada do outro lado da linha, uma funcionária da rapper falastrona faz uma exigência: “Se ela for questionada sobre política, vou desconectar os dois imediatamente”. A preocupação do entourage da norte-americana faz sentido pelo histórico de autossabotagem da rapper, cuja boca grande demais quase naufragou uma carreira iniciada de forma promissora.

Aos 25 anos, ela já coleciona polêmicas demais ao se expressar das formas mais indevidas, em redes sociais ou entrevistas. O sucesso dela, contudo, estacionou no ápice com o hit 212, de 2011, e foi, aos poucos, engatando a marcha ré. 

Quando finalmente é conectada, Banks se mostra arredia. Emenda frases prontas, pouco inspiradas, na tentativa de escapulir de mais uma polêmica. Ela estava ali, afinal, para divulgar a segunda passagem pelo Brasil. A cantora e rapper se apresenta na Audio Club, casa de shows paulistana na zona oeste da cidade, neste domingo, 12, a partir das 20h30. 

A primeira visita dela, no festival Planeta Terra, em 2012, também marcou a estreia em território sul-americano, e sofreu com a falta de canções próprias para preencher o tempo de palco. Na ocasião, Banks contou com o DJ e parceiro Cosmo para animar o público posicionado em frente ao palco com um set de canções de pista de 10 minutos de duração. Ela tinha, afinal, um EP com quatro músicas (212 incluída) e a mixtape Fantasea, ambos colocados nas prateleiras virtuais naquele ano. 

O hit 212, em São Paulo, sofreu com problemas técnicos. A voz da rapper sumiu. As batidas também. O público, ensandecido ao estar diante de uma estrela em ascensão, que no ano anterior havia figurado em terceiro lugar na prestigiosa votação Sound of the Year, elaborada pela britânica BBC, continuou a vibrar. “Aquilo foi incrível, de verdade”, relembra a rapper. “Foi a minha primeira vez aí, a plateia estava louca, não paravam um segundo. Para mim, foi maravilhoso”, conta. 

O disco de estreia, lá em 2012, já era prometido. No ano anterior, ela havia começado a trabalhar em Broke With Expensive Taste, cuja tradução para português pode ser algo como “falida com gostos caros”. Com a força de 212, ela assinou contrato com a Interscope, gravadora que pertence à poderosa Universal Music. Desavenças com os executivos do selo atrasaram o lançamento do álbum. Ela deixou a gravadora pelas portas dos fundos – sem antes proporcionar alguns rompantes de raiva na sua conta pessoal do Twitter –, garantiu um novo contrato, sob o comando da empresa de entretenimento Prospect Park, e colocou o disco na praça em novembro de 2014. 

“Ficamos indo e voltando com esse disco”, ela lembra. “Levei um ano para deixar o álbum pronto. E, depois, tivemos que esperar pelo lançamento oficial.” A força de 212, explica a rapper, foi responsável por chamar atenção para ela, sem que o público soubesse esperar da estreia, de fato. “Talvez as pessoas não me conhecessem de verdade”, analisa. “Gostei da sensação. O público talvez imaginasse que levaria em consideração o que eles supunham que eu fosse, mas não é isso que faço. Tinha, sim, uma preocupação de que as pessoas gostassem.”

Broke With Expensive Taste é uma continuação conservadora da Azealia Banks introduzida por 212, embora mais plural. Há espaço para batidas de house, outras mais pesadas, além de versos falados e cantados. Soda e Chasing Time são bons exemplos de novos caminhos que podem ser percorridos pela nova-iorquina, mesmo que pouco explorados ainda. 

Uma nova mixtape, lançada em março deste ano, de forma totalmente independente, já sem a presença da empresa Prospect Park, leva o nome de Slay-Z, e aquece mais o show por aqui. O primeiro single, The Big Big Seat, é ótimo e urgente. Oxigena a carreira de Banks, ao passo que suas opiniões políticas fazem força para levá-la para baixo. Votante declarada de Donald Trump, controverso candidato do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos, a rapper ganhou novas inimizades. Mais recentemente, ela teve a sua conta no Twitter bloqueada após ofender de forma racista o cantor Zayn Malik, ex-One Direction, e acusá-lo de plágio. 

Desculpas pedidas, Banks caminha para tentar deixar o passado de confusões para trás. Ice Princess, canção de Broke With Expensive Taste, já escancarava a tentativa dela de esfriar a cabeça – ou ironizar aqueles que a criticam por falar demais. Agora, a rapper se protege a fim de evitar novas confusões. A garota do Harlem perdeu o pai cedo, aos 2 anos, e viveu sob o medo das atitudes da mãe abusiva. É seu passado o combustível para os versos enraivecidos do presente. “Tentei ser cantora. Fui a muitas audições”, ela conta. “Mas não conseguia emprego. O rap acabou se tornando uma saída. Era um jeito de chegar à fama. Poderia não funcionar. Eu só fui lá e tentei.”

Mais conteúdo sobre:
Azelya Banks

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.