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Quartetos de Alberto Nepomuceno ganham versão revisada

O compositor romântico cearense é lembrado por três obras de juventude, interpretadas pelo Quarteto Carlos Gomes

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

21 Outubro 2016 | 06h00

O compositor cearense Alberto Nepomuceno (1864-1920), é provável, teria melhor sorte se, ao partir para a Europa, em 1888, insistisse em permanecer junto a seus pares de lá – ele foi aluno de Heinrich von Herzogenberg, amigo de Brahms, entres outros. Mas ele voltou e demorou para que o Brasil descobrisse o grande gênio romântico que passou pela Itália, Alemanha e Noruega, tornou-se amigo íntimo de Grieg e, sob sua influência, impulsionou a criação do nacionalismo na música erudita brasileira. Felizmente, o Quarteto Carlos Gomes acaba de lançar um CD com os três quartetos de juventude de Nepomuceno pelo selo Sesc, apresentando essas peças ao vivo, hoje, no Sesc de Piracicaba, e amanhã, no Sesc Jundiaí, sempre às 21h.

É um registro de rara sensibilidade, que corrige, inclusive, alguns erros das partituras originais. O violinista Cláudio Cruz conta que teve trabalho na revisão dos manuscritos em poder da Biblioteca Nacional. “Nós, integrantes do quarteto, tivemos de tomar decisões sérias sobre as notas erradas”, revela. Existem pelo menos três diferentes versões autógrafas do Quarteto nº 2, o mais extenso dos três quartetos de Nepomuceno, compostos entre 1889 e 1891. Para a gravação, o violinista e produtor, já em seu 34º CD, escolheu a segunda.

Até porque Nepomuceno estudou com Von Herzogenberg em Berlim, a influência do mestre alemão – e, por extensão, de Brahms – é nítida na estrutura do segundo quarteto em Sol menor – curiosamente, os três quartetos são em tons menores. “Recebi essa versão do neto de Nepomuceno (Sérgio Nepomuceno Alvim Corrêa)”, conta Cláudio Cruz, que enfrentou também o desafio musicológico de articular o primeiro quarteto em sua revisão da peça. Cabe lembrar que Nepomuceno não deu a devida atenção a esses quartetos, talvez por considerá-los obras de juventude. O fato é que a primeira audição do Quarteto nº 1 em Si menor só foi acontecer em 1933, muitos anos após a morte do compositor.

Se essa experiência camerística inaugural adotava uma sintaxe mais clássica, o segundo quarteto é escancaradamente romântico. Não é Brahms, observa Cruz, mas não seria impertinente aproximá-lo do compositor alemão. “Ontem mesmo estava analisando a partitura de sua Sinfonia nº 2 (em Sol menor, que teve sua primeira audição em 1897) e ela, sem dúvida, pode ser comparada às sinfonias de Brahms.” Nepomuceno, claro, recorre a ele no primeiro movimento de sua segunda sinfonia, assim como no terceiro quarteto, ainda que nele evoque com liberdade o lundu, que planta a semente do nacionalismo entre nós.

O terceiro quarteto é sem dúvida o que mais exige dos intérpretes. O Quarteto Carlos Gomes, vale lembrar, é formado por dois violinistas experientes e reconhecidos (Cláudio Cruz e Adonhiran Reis) e outros dois músicos com larga vivência camerística, Gabriel Marin (viola, spallla da OSB) e Alceu Reis (violoncelo).

A gravação do CD de Nepomuceno precede a de outros compositores contemporâneos do músico cearense, adianta o violinista Cláudio Cruz. “Já gravamos obras de câmara de Carlos Gomes, Alexandre Levy e Glauco Velásquez, que brevemente estarão disponíveis num site que estamos criando para divulgar a produção de grandes músicos do passado ainda não suficientemente conhecidos”, conclui o músico.

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