Quando a originalidade é um problema e também a solução

Metade do disco de Lenny, 'Strut', já está na internet e reitera a sua capacidade de reciclar infinitamente o já ouvido

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

12 Setembro 2014 | 03h00

Nos primeiros riffs de Strut, a música-título do 10.º disco de Lenny Kravitz, as semelhanças com outras canções anteriores vão sendo apontadas em todas as direções. Parece com State of Shock, de Michael Jackson. Parece com God of Thunder, do Kiss.

Aí você pega o primeiro single do álbum, The Chamber. E não é que parece exatamente descolado de uma costela de Love is In the Air, de John Paul Young, canção de 1978? É claro que tem um peso e condimentos modernos, além de produção high-tech, mas a base já estava em outro lugar havia anos.

Não é que Lenny Kravitz não seja bom, o problema dele sempre foi parecer de segunda mão, uma colagem de tudo que já tínhamos visto. Já o era há 20 anos, quando explodiu com Are You Gonna Go My Way, que apresentava seu coté sub-Hendrix para consumo mundial. Vendeu 38 milhões de discos com esse apelo. Strut não será diferente.

É por aí que vai. Mais uma música nova já liberada do disco, The Pleasure and the Pain, é uma balada bluesy com um toque de soft rock, e com aquele tempero de solenidade de um clássico como Ain’t No Sunshine When She’s Gone. “Puna-me com prazer, delicie-me com dor”, ele canta - além do som, um ideário típico da era yuppie.

New York City, outro single disponível há algum tempo na internet para o fã de Lenny, mostra um funk oitentista de guitarras e sax com aquele toque vintage de boutique que o caracteriza. Homenageia do jeito que pode a cidade que ele tanto ama, e que já foi tão (e tão bem) homenageada. “Life is always tough on New York City /But she is fine, she always survives/ She is my heart/ I really love New York City” (“A vida é sempre dura em Nova York/ Mas ela está bem, ela sempre sobrevive/ Ela está no meu coração/ Eu amo Nova York de verdade”).

A canção que não é dele no disco, Ooh, Baby Baby, dos Miracles de Smokey Robinson, fecha o álbum como a cereja do Túnel do Tempo - o falsete de Smokey era quase fingido, de tão invulgar que era sua voz naquele tempo; o de Lenny é orgulhosamente fingido.

Strut tem rock, funk, soul, disco beats. Tem boas guitarras, bons instrumentistas, a voz dele é bacana. Com alguns clipes em Paris, mais um sem número de fotos sem camisa, vai-se, assim, se construindo o quebra-cabeças de sua nova empreitada, que é ambiciosa, como todas.

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